As aventuras do Detetive Ted Rocky #01

Ted Rocky e o estagiário

Ted Rocky detetive particular, ex-pugilista, herdeiro de um escritório de advocacia. Vim de uma família abastada. Abri mão da carreira no Direito e decidi o meu próprio caminho. A pindaíba de um detetive autônomo. Gosto de aventuras. Já me acusaram de abestado. Não ligo.

Herdei os olhos de minha mãe e o corpo atlético de meu pai. Deixo a barba por fazer, pra dar um charme como de um galã descompromissado. Tenho a aparência de Lázaro Ramos, o gingado de Xandy do Harmonia e a sagacidade de compadre Washington. Meu nome vem da época de pugilismo. Perdi a conta de quantas vezes assisti aos filmes de Rocky Balboa. Menos o Rocky 5. O Rocky 5 não deve entrar na contagem desta grandiosa obra. Meu apelido vem daí? Talvez. Ou possa ser pelas repetidas vezes que fui a lona. Mas levantava. Na maioria das vezes. Às vezes em um hospital.

Já me conformava a entrar no cheque especial quando recebi a visita de um potencial cliente. O primeiro daquele terrível mês de vacas magras. A pessoa estava esbaforida. Era um sujeito de traços jovens, levemente acima do peso, camisa e calça social. O suor formava um “V” no centro do seu peito largo.

-Ted Rocky, o detetive?

-Sim, você olha para a versão mais sofrida dele. Em que posso ajudar?

-Preciso encontrar o meu chefe. Ele está desaparecido.

Que fato curioso, alguém preocupado em encontrar um chefe. “Que rapaz altruísta”, pensei.

-Seu chefe. Me explique melhor, senhor…?

-Tadeu. Eu sou estagiário do escritório de advocacia Duarte & Filhos. Completaram dois dias do desaparecimento do meu chefe. Preciso encontrá-lo!

– Duarte & Filhos? Então se supõe que ele tem filhos. Por que o estagiário do escritório estaria mais preocupado que a própria família?

Perguntei de forma suave, para não ofender. Sou assim, justo e coração puro. Só um pouco desconfiado.

-Bem, é que os dois filhos também sumiram. E ele é divorciado, a ex-mulher não quer vê-lo nem pintado de ouro.

Aquilo não cheirava bem.

-Então meu caro Tadeu, você está me dizendo que a família inteira sumiu? Suponho que seja um caso de sequestro e que a Polícia deveria ser acionada, mas se você me procurou não é isso, certo?

Tadeu olhou de lado. Penso que acertei.

Tadeu sentou na banqueta disponível da minha sala. Eu trouxe a banqueta da minha kitchenette. A única cadeira de plástico que eu tinha para a sala foi quebrada durante uma invasão de um grupo de ativistas do meio ambiente aqui no prédio, semana passada. O protesto tinha a ver com o corte de árvores na área do parque municipal. O tumulto foi no corredor do meu andar. O dono da imobiliária que funciona na última sala comercial faz parte do Conselho de Meio Ambiente do Município. Os ativistas pareciam descontentes com o voto dele. Tentei mediar o desentendimento entre as partes, mas julgaram que eu estava defendendo o outro lado. Um dos ativistas invadiu minha sala e quebrou a cadeira de plástico na minha cabeça. A funcionária da imobiliária pegou a perna quebrada da cadeira para me bater também. Eu era odiado pelos dois lados. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. E descadeirado.

– Senhor detetive, você precisa me entender, eu sou apenas o estagiário do escritório! Estão tentando colocar a culpa em mim!

Realmente, algo não cheirava bem e não era o presunto que deixei do lado de fora da geladeira por pura negligência desde a tarde de ontem. Tadeu, o estagiário, continuou o seu relato.

– Há dois dias umas pessoas estiveram no escritório conversando com Doutor Duarte. No outro dia ele já não foi trabalhar. Eu não estranhei, Doutor Duarte já ficou uma semana sem ir ao escritório e voltou bronzeado. Ele sempre volta. Mas, hoje eu recebi uma papelada dessas pessoas que conversaram com ele há dois dias e assinei um protocolo. Tudo parecia certo, aí eles me perguntaram se o esquema da licitação estava nos conformes. Eu simplesmente respondi sim e meu mundo veio abaixo.

-E o que é o esquema da licitação?

– Eu sei lá!? Achei que fosse algo já resolvido no processo dos doutores! Sempre respondi sim e ninguém me fazia mais perguntas. 

Clássico deslize de estagiário. Responde com a certeza de quem não faz a mínima ideia do que seja.

– Acontece que agora essas pessoas estão me fazendo muitas perguntas que não sei responder. Eles me perguntaram do Doutor Duarte e ele sumiu. Eu não sei o que fazer, por isso te procurei. Vi o seu anúncio do outro lado da rua, na janela de vidro.

Bendita plotagem na janela da minha sala.

-Ótimas notícias Tadeu. Vou aceitar o seu caso. Me leve ao seu escritório.

O escritório Duarte & Filhos ficava no outro quarteirão. Descobri que as pessoas que atormentavam o Tadeu estavam lá. Tentei me enturmar.

– Que coisa esse sumiço do doutor hein?

Um sujeito baixo com camisa xadrez, de óculos fundo de garrafa se manifestou.

– Pois é, ele tem que aparecer. Você é de qual departamento?

– Departamento anel rodoviário.

– Não conheço.

– É recente.

– Eles são mestres em inventar departamentos.

– Esse esquema estava no papo.

– Nem fala. Era simples. Afetou toda a nossa vida. A vida inteira almoçamos no Karlinho, esse era o esquema. Nem me imagino almoçando no Franguitos, não conhecemos ninguém lá.

-Como é?

– Franguitos! O restaurante novo que ganhou o contrato e achamos ter fraudado a licitação este ano. O pessoal da cúpula não concordou e  entrou com o pedido de anulação por aqui. Achamos muito estranho o Karlinho não ter ganhado. Todo mundo se beneficiava com o Karlinho tendo o contrato.

– Ah sim, o Karlinho é muito melhor.

– Doutor Duarte suspeita que o dono do Franguitos adulterou o Alvará. Não sei se o pessoal do departamento de contratos mudou. Por sorte, foi um erro de português que levantou essa hipótese e pode ter desmascarado os meliantes. Apesar de eles possuírem muito talento para forjar um documento.

-Ah sim o erro de português…

– O assado com cedilha! Eles colocaram “Franguitos Açados e Açaí”. Quando os denunciamos eles ainda falaram que era assim mesmo, para dar ênfase que também vendem açaí.

– Que tragédia para o português.

– Sim, e agora sem o Doutor Duarte para dar continuidade, suponho que o processo vai ser arquivado. Outra tragédia. O ensopado de carne do Karlinho é um espetáculo! Fora a sobremesa, se é que me entende.

Despedi do amável colega do departamento de alguma empresa sei lá de onde e me dediquei ao que interessava no momento. Encontrar o Doutor Duarte e seus filhos.

Parecia que Doutor Duarte e filhos sofreram algum tipo de retaliação do pessoal do Franguitos. Fui ao “Franguitos Açados e Açaí”, cujo nome escrito na placa era com o cedilha mesmo. Lá um senhor de barba espessa e camisa do Vasco me disse que não sabia do paradeiro do Doutor Duarte. Contudo afirmou que conhecia o filho mais novo dele, pois ele frequenta o local desde que inaugurou para tomar o Açaí, o melhor da região. Esteve lá pela última vez há uns dois dias, dizendo que tinha um jantar de família em um restaurante naquela noite.

“Opa”, pensei, “acho que sei onde é este restaurante.”

Karlinho ficava a poucas quadras do Franguitos. Lá estava uma fita zebrada na porta com um aviso: Interditado.

Karlinho não seguia as regras sanitárias. Houve um surto. Não demorou muito para descobrir que Doutor Duarte e seus filhos estavam internados com intoxicação alimentar no Hospital Regional.

Caso encerrado. Karlinho de fato havia perdido a licitação. Doutor Duarte e a cúpula dos departamentos tentaram difamar o Franguitos, talvez pela sobremesa ser mais saborosa no Karlinho. Não se sabe se o Franguitos oferece sobremesa para outra cúpula. O que não faltam são cúpulas. Quem sabe a atual cúpula beneficiada do departamento seja vascaína. 

Tadeu não me pagou, porque agora estava sem emprego. Mas fez questão de me comprar um Açaí do Franguitos. Realmente muito bom.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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