Pílulas de sabedoria da Rita Bee #01

Tudo está conectado

Era tarde de domingo, a abelhinha Lina Bee apareceu para tomar o tradicional mel, comer favinhos e escutar as histórias cheias de sabedoria contadas pela filósofa vovó Rita Bee, a abelha.

Lina Bee tem o espírito aventureiro, é muito curiosa e questionadora. Vovó Rita Bee é acolhedora e amansa a vontade de fogo da neta com pílulas de sabedoria, afinal é uma filósofa e das mais experientes. Acredita que tudo nesta vida está conectado e que há uma consciência superior que rege com maestria o universo.

– Vovó Rita, essa semana estive confusa. Eu me senti vazia, como se estivesse realizando as coisas no automático. Tudo muito corrido, com muita competição, muita informação… é sufocante! Às vezes penso que é sem sentido. Como se cada abelha estivesse em seu próprio mundo, separado de todo o resto. O que eu faço com essa sensação?

– Lina, minha querida, hoje vou te contar uma história bem interessante. Ela vem de uma terra distante, muito a leste daqui e possui uma sabedoria ancestral. Lembre-se, acumular conhecimento não quer dizer ter sabedoria. A sabedoria é talhada com paciência e perseverança dentro do caminho longo, sem atalhos. É uma mistura do pensamento e da consciência. É importante a informação, contudo mais importante é a formação do seu ser.

-Sim, vovó! Da última vez que estive aqui aprendi que devo seguir o caminho do meio, do equilíbrio – disse Lina levando a canequinha à boca para saborear o melhor mel orgânico de todo o reino.

Lina adorava ir à casa da vovó Rita Bee, aprender sobre sua filosofia e ouvir a coletânea de discos da banda “Bee Tall’s”, a maior de todos os tempos na concepção da sua velha e sábia vovó.

-Muito bem, Lina. Vamos a história. Ela é um ensinamento sobre “O Todo”, sobre o que seria o Espírito, a Alma e o Corpo.

Lina inclinou o corpo para frente, ávida pela história.

– Imagine um colar de pérolas. Agora, imagine que cada pérola é um ser vivo. Toda pérola acredita que seu propósito é usar toda sua reluzente estrutura esférica polida para brilhar no colar. Algumas tentam desesperadamente brilhar mais que outras. Imagine agora que certa vez, uma pequena pérola tem um chamado interno forte. Ela se perguntou: “A vida é só isso? O sentido da vida é que devo ser a mais brilhante de todas? Qual o significado disso tudo?” A pequena pérola estava diante de uma crise existencial e, como é de se esperar nesses casos, passou a questionar as coisas externas, aquelas que é possível ver com os olhos físicos. Insatisfeita e sem resposta no externo, iniciou uma jornada para o seu interior. Pobre da pequena pérola! No começo era só escuridão e tropeços. Ela não conseguia ver nada, só o vazio. E só “ouvia” os próprios pensamentos acelerados, na maioria das vezes uma cruel autocobrança. A pequena pérola não encontrou nada durante um tempo, pois ela estava habituada a ver apenas o que existia no exterior, apenas o seu brilho e o brilho das outras pérolas. Contudo, a pequena pérola era dotada de perseverança e continuou tentando encontrar alguma coisa em seu interior,  silenciando um pouco as vozes. Ela pensava: “Deve haver algo! Algo que não consigo enxergar agora porque eu estava muito focada no excesso de brilho exterior que me ofusca os olhos. O que eu busco deve ser de um material diferente, quero ver a minha essência.”

Vovó Rita Bee fez uma pausa para beber um pouquinho de mel orgânico da sua canequinha branca e mordiscar um favinho. Lina Bee não se moveu da cadeira, estava atenta e ansiosa pelo desfecho.

– Então – vovó Rita Bee retomou – a pequena pérola viu algo. Depois de muita meditação e paciência e também depois de tropeços e dores, ela teve uma pequena visão. Ela viu um fio fino, quase imperceptível, que passava dentro do seu corpo perfeitamente esférico e reluzente. “Ah, que alegria!”, exclamou a pequena pérola. “Esse fio deve ser a minha essência!” Quando a pequena pérola percebe a sua essência, que na verdade sempre esteve ali, ela desperta. A sensação de vazio é preenchida. Aquela pequena pérola se torna mais sábia e desenvolve um desejo interno claro e forte: “Gostaria que as outras pérolas também despertassem!”

Vovó Rita Bee percebendo a ansiedade da neta faz uma nova pausa. Ela dá mais um longo gole no delicioso mel orgânico, saboreando toda a doçura. Lina Bee quase cai da cadeira.

– E aí, o que a pequena pérola faz com esse desejo?

– O que você acha que ela fez?

– Bom, se fosse comigo eu tentaria despertar as outras pérolas.

-Como?

– Contando para elas o que aconteceu comigo.

– E se não quiserem te ouvir?

– Oras – disse Lina Bee já impaciente – seriam umas tontas!

Vovó Rita Bee foi até a estante de discos e escolheu um dos “Bee Tall’s” e o colocou na vitrola para tocar. Lina Bee a acompanhou e sabia que a pausa era proposital. Toda vez que ela era tomada por alguma ansiedade além da conta, sua avó lhe dava um momento de reflexão, um momento para acalmar os próprios pensamentos. O chiado da agulha no vinil se tornou audível e logo depois o som de instrumentos musicais em harmonia encheu a sala. Depois de alguns segundos, ouviam-se as palavras “Amor, amor, tudo que precisamos é amor” pronunciadas melodiosamente por uma voz suave.

Vovó Rita voltou à mesa e olhando para a neta agora mais calma, sentou-se e retomou o assunto.

– E se eu te contasse, minha querida, que além deste reino de Hymenoptera existe um outro muito maior rodeado por água, onde não existe Colméia, não existe mel orgânico, não existe abelhas e todos os seres que vivem lá tem outro tipo de pele, têm as escamas e não tem asinhas, mas nadadeiras, e ainda por cima respiram embaixo d’água?

– Isso existe?

– Sim, eu já vi. Inclusive conheço um daqueles seres aquáticos.

– Que incrível!

– Você acredita?

– Sim… Bem… eu nunca vi isso, mas se a senhora está dizendo…

– Nem todos irão acreditar! Você passará a acreditar quando tiver a experiência. E está tudo bem não acreditar! Nem toda abelha conheceu o Mar, e algumas nunca irão conhecer e por não ter conhecido elas não acreditam que exista. Contudo o Mar existe, mesmo que você ou qualquer outra abelha não acredite que ele exista.

Lina Bee ficou pensativa. Pegou a canequinha, tomou mais um gole do mel orgânico e deixou a doçura descer a garganta. A música dos “Bee Tall’s” ainda tocava, enchendo a sala de melodia e um clima erudito.

– Minha querida neta, vou terminar a história da pequena pérola. Depois de despertar e desejar que outras pérolas também despertassem, a pequena pérola começou a fazer o que podia para cumprir o seu desejo. Ela agia de acordo com a sua essência. Ela pregava a cooperação e não a competição. Contribuir e não acumular. Ela dizia para suas amigas: “Olhem para dentro, percebam o fio que passa em seu interior!” Todo esse empenho interior da pequena pérola refletiu ao seu redor. E então, ela notou que algumas passaram pelo mesmo processo que ela e despertaram. Outras ainda ficaram adormecidas para este sentimento. Contudo, isso não a abateu. Cada um está no seu próprio passo e possui o livre arbítrio.  Até que, após o despertar de muitas pérolas, a pequena pérola percebeu que o mesmo fio que passa por dentro de si, passa também por todas as outras. O fio é apenas um e sempre o mesmo. “Estamos todos conectados!”, exclamou a pequena pérola ao despertar para essa realidade. Ela ainda descobrirá, por fim, que estando todas conectadas, inevitavelmente, todas elas despertarão para a unidade, em algum momento. Fim. Essa é a história de Sutratma, que ilustra perfeitamente a natureza essencial das coisas viventes. A pérola é o corpo, o pedaço de fio em seu interior é a alma e o fio inteiro é o Espírito, o Todo. Somos um fragmento do Todo e nosso chamado é para retornarmos ao Todo mais sábios, mais completos e levando quantas companhias puder.

– Que história linda, vovó! Estamos todos conectados e eu gostaria de encontrar o meu fio interno!

– A busca é contínua, minha querida. Comece silenciando a sua mente e olhando para o seu vazio.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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