As aventuras do detetive Ted Rocky #02

O ponta desaparecido

Havia acabado de voltar com um pacote de biscoito cream-cracker e um Toddynho para o almoço devido ao baixo orçamento, quando três rapazes entraram na sala. Levantei as mãos rapidamente por instinto pensando ser um assalto. Por sorte, não era. Os três rapazes estavam uniformizados, camisas brancas com uma listra transversal laranja.

– Você é o detetive do anúncio do jornal?

– Sim, Ted Rocky, detetive particular na sua versão faminta. Em que posso ser útil aos distintos atletas do Vasco de Laranjeiras?

Reconheci os uniformes dos rapazes. Eram do time da cidade, o Vasco do bairro de Laranjeiras. Dizem que por isso as cores são branco e laranja. O time da cidade, que disputa a terceira divisão do campeonato Estadual.

– Senhor Detetive, precisamos urgentemente encontrar o nosso ponta direita desaparecido! – disse o rapaz que vestia a camisa número 8 e tinha a tarja de capitão no braço esquerdo.

– O ponta direita, aquele que é o craque do time? Como era o nome… Yago Pérez? – perguntei enquanto agitava a caixinha do achocolatado pronto para beber.

-Ele mesmo, o nosso direitinha de ouro – respondeu o número 8. – Yago Pérez está desaparecido desde ontem.

O time do Vasco de Laranjeiras nunca ganhou absolutamente nada, a não ser notoriedade na região pelas suas derrotas acachapantes. Certa vez perdeu para o time sub-20 do Desportivo Castro da cidade vizinha por incríveis 7 a 1. O gol a favor do Vasco foi contra, talvez por piedade do adversário. E o time adversário era o reserva. A piada depois deste resultado era qual seria o placar se jogasse Vasco de Laranjeiras e Seleção Brasileira de 2014? Não há unanimidade sobre quem seria o rival humilhado.

Certa vez, perto de um Natal, para angariar recursos, o time rifou um leitão. Vendeu mais de 200 rifas. Até que o responsável pelo porquinho que tinha até nome, Julinho,  apareceu alegando que não deu anuência para doação do mesmo. Fora o sogro dele, um dos conselheiros do clube que teve a ideia e pensou em doar o bicho. Armou-se um banzé, pois uma das pessoas havia comprado 20 rifas e exigia o dinheiro de volta alegando que foi enganado: o porco oferecido era roubado. Além do barulho que as ONG ‘s de proteção dos direitos dos animais fizeram. Mesmo assim, para não perder os recursos arrecadados, o clube queria rifar outro animal e pensaram em um pato. Até que a Prefeitura proibiu qualquer agremiação esportiva de rifar animais para angariar recursos. Naquele ano, os jogadores tiveram o décimo terceiro parcelado.

Sei disso tudo. Eu acompanho as notícias no Jornal Minha Notícia, o periódico mais lido da cidade. É onde eu faço meus anúncios. Rocky. Ted Rocky, detetive particular. Informado e devorador de cream-cracker.

O JMN noticiou certa vez que um jovem garoto paraguaio começou a treinar na equipe júnior do Vasco de Laranjeiras. Seu nome era Yago Pérez. Ele se destacou com sua direita poderosa, habilidade fora da média e, em pouco tempo, integrou o time profissional. Um fenômeno. Levou o Vasco de Laranjeiras à primeira vitória com a diferença de três gols na história quase sexagenária do clube. Na atual temporada o time tem oito vitórias consecutivas sob a batuta de Yago Pérez e irá disputar a final do quadrangular. Uma vitória neste jogo levará o Vasco de Laranjeiras à segunda divisão do campeonato Estadual. Um feito histórico. Todos apostam que dessa vez a Laranjada, o apelido do time, vai levantar o primeiro caneco da sua história.

– Eu suponho que vocês já procuraram a família do desaparecido – ponderei enquanto sorvia o achocolatado pelo canudinho.

– Pelo que sabemos, Yago só tem um tio na cidade e mora com ele. Fomos à sua casa depois do treino de hoje de manhã, porque ele tinha faltado outra vez. Não tinha ninguém lá, nem ele nem o tio. Ficamos preocupados, pensamos em chamar a Polícia, mas a maioria não quis para não criar escândalo. Hoje decidimos procurar um detetive, porque a final do campeonato é amanhã às 10 horas. Sem o Yago não teremos a menor chance! O Biribinha não está a altura de o substituir.

– Quem?

– Biribinha é o reserva do Yago. Cá entre nós, um “perna de pau”. Está lá por ser sobrinho do técnico. Antes do Yago ele era o titular. Não conseguimos vencer ninguém com ele em campo. Certa vez, estávamos ganhando de 3 a 0 do Primeiro de Maio e quando ele entrou tomamos a virada. Ele é um entregador de paçoca. Temos que encontrar o Yago Pérez, precisamos desse título!

– Ok senhores, estou dentro. Vou entrar de sola no caso. Vocês me levam até à casa do Yago e eu assumo a investigação.

No caminho, o número 8 contou que o tio paraguaio de Yago tem uma tabacaria que também vendia bebidas de origem questionável (mas que poucos sabiam disso). Eles moravam no apartamento em cima da loja. Os rapazes do Vasco de Laranjeiras me deixaram perto do lugar e pedi que fossem embora para não chamar a atenção.

O lugar ficava perto da rodoviária da cidade. A loja estava fechada. Estranho para uma sexta-feira à tarde. Não havia ninguém em casa para atender.

Decidi investigar ao redor da rodoviária. Alguém deve conhecer o paraguaio que vende bebidas na surdina e que tem um sobrinho jogador de futebol. Havia um boteco aberto do outro lado da rua.

-Boa tarde! Que coisa, quero fazer uma encomenda com o paraguaio e a loja está fechada.

O atendente bigodudo que vestia uma camiseta regata branca escrito “Beach -> this way” me olhou com uma expressão carrancuda. Ele tinha um pano de prato encardido e mal cheiroso no ombro largo.

– O Pérez. Há dois dias a loja não é aberta.

– Puxa vida, onde vou encontrar uma loja que venda uísque?

– Lá não se vende uísque. É uma tabacaria.

O atendente bigodudo fechou mais ainda a cara carrancuda. Passou o pano encardido no balcão e foi atender um cliente na outra ponta.

Na mesma hora ouvi um som parecido com um assobio, um “psit” atrás de mim.

Um homem de meia idade com traços guaranis sentado em um canto do bar acenava com a cabeça para me aproximar. Ele usava uma camisa social rosa claro abotoada desleixadamente, óculos escuros e tinha um palito na boca. Ele me olhou de cima a baixo. E não foi por causa da minha beleza e charme.

– Uísque tu quieres, cabrón?

– Sim, senhor.

– Passa a las ocho horas de la noche – disse o guarani apontando com a cabeça para o outro lado da rua.

Sexta-feira, oito horas da noite, lá estava Ted Rocky, detetive particular, em frente à loja suspeita de porta fechada ao lado da rodoviária esperando ser chamado pelo guarani de camisa rosa que “hablava” em portunhol.

– Psit! Ei, cabrón! – a mesma voz daquela tarde vinha além de uma porta menor ao lado, porém sussurrada.

Segui o chamado, a porta se abriu. Entrei. O guarani estava com a mesma camisa rosa abotoada desleixadamente, porém sem os óculos escuros.

– Sígueme.

Passamos por um corredor estreito que no fim dava para uma escada. Porém, ele virou à esquerda onde havia uma porta aberta. Ao entrar, percebi que estávamos nos fundos da tabacaria. Senti o cheiro de fumo. No cômodo havia duas mesas redondas com cadeiras, uma máquina caça-níquel e no fundo uma estante enorme com portas trancadas por cadeado. Sentado em uma cadeira estava um sujeito atarracado de cabelos pretos e olhos fundos. Exalava um cheiro de cigarro e uísque paraguaio.

– Aqui, cabrón! Uísque que quieres – o anfitrião apontou para uma estante.

– Sim, quero. Quero uma caixa do melhor que você tiver.

O guarani fez uma expressão de surpresa e se dirigiu à estante.

– Vejo que estão esperando a turma para uma partidinha? – apontei com a cabeça para a mesa coberta por um pano verde.

– Tem lugar para mais um, se quiser – disse o sujeito sentado.

– Não, eu não jogo.

– Se não sabe jogar um carteado, quem sabe apostar?

– Como é?

– Apostar. Fazemos apostas por aqui. Vai acontecer uma final de campeonato na cidade, você sabe?

“Opa”, eu pensei, “nesse mato tem cachorro.”

Sorri para o desconhecido.

– Sim, estou sabendo – finalmente respondi. Você está falando da final do Vasco de Laranjeiras?

O anfitrião voltou carregando a caixa.

– Sim! Está batata, o Vasco leva! O sobrinho do Pérez aqui é o craque do time! Joga muito.

– Si, mi sobrino es “o cara”! – abriu um sorriso largo o meu anfitrião guarani.

– Vocês devem estar falando do Yago Pérez! Sim, já ouvi falar nele. Parece ser um rapaz promissor, muito habilidoso. Ele mora com o senhor?

-Si, si. Yago mora aqui.

– Que sorte, eu gostaria de poder vê-lo para cumprimentá-lo e desejar boa sorte.

-No, no. Yago precisa descansar.

Comecei a farejar algo. Um esquema de manipulação de resultado. As chances do Vasco de Laranjeiras perder com o Yago em campo eram mínimas. Sem o Yago, elas aumentavam muito. O Biribinha não era um reserva à altura, como eu soube pelo número 8. Praticamente todas as apostas eram na vitória do Vasco de Laranjeiras devido a boa campanha no campeonato sob a batuta de Yago Pérez.  Que tragédia se nas vésperas do jogo decisivo o craque do time sumir e não jogar a partida. E que sorte se alguém tiver apostado no adversário. Provavelmente, irá ganhar uma grana preta.

– Que pena! Eu gostaria de pegar um autógrafo do futuro craque do futebol mundial. Poderia fazer dinheiro com isso depois que ele ficasse famoso jogando no Real Madrid.

Todos riram. Para não dar bandeira, apostei cinquenta pila no Vasco de Laranjeiras. Era o dinheiro para a minha condução de volta. Teria que voltar a pé. E também tinha que levar a caixa de uísque. Passei no meu novo cartão de crédito de um banco digital.

Yago Pérez fazia parte do esquema.  Deliberadamente, ele havia sumido dos últimos treinos para não jogar a final. Confirmei que ele estava em casa esse tempo todo pelo dono do bar bigodudo. Troquei minha caixa de uísque pela informação.

Na manhã seguinte fui ter com meu cliente, o número 8 antes da partida. Ele ouviu o meu relato e apenas respirou fundo, saindo com um olhar em chamas.

O time do Vasco de Laranjeiras venceu a partida por 3 a 0, com três gols de Biribinha. Os cronistas disseram que ele havia incorporado o espírito de Garrincha naquele dia. Talvez movido pelo ódio.

O Vasco de Laranjeiras levantou o primeiro caneco da sua história. O esquema da família Pérez naufragou e Yago encerrou sua carreira futebolística pelo que dizem. Inclusive se mudaram de cidade.

Eu ganhei um ano pago de sócio torcedor da Laranjada, foi a forma que o número 8 arranjou para pagar pelo meu serviço que de certa forma, ajudou o time a ganhar o título da terceirona do Estadual. Vamo, Laranjada!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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