P.I.S.T.A. #02

LUÍS NA COVA DOS LEÕES

Olá caro leitor do outro lado da telinha!

Você está lendo a Prosa Inventiva (pra) Sortá (os) Trem Acumulado.

Quer saber o que é P.I.S.T.A.? Eu explico no primeiro post desta categoria.

Durante as passagens dos meus anos de vida, eu ouvi as pessoas dizerem diversas coisas a meu respeito. E, na maioria das vezes, eram só coisas boas. Um bom aluno, um bom filho, um bom amigo. Acontece que eu não ouvia a mesma coisa do Luís Fernando interior. Parecia que o Luís do mundo invertido considerava que nada que o Luís do mundo de fora fizesse seria o suficiente. E, durante muito tempo, eu normalizei isso. Era como um atleta olímpico obcecado em ter os melhores resultados e em bater recordes. Tudo tinha que ser perfeito, não quase, literalmente perfeito. Porém, penso que o caro leitor também reconhece, a perfeição é algo inatingível para este nível em que estamos, pelo menos do ponto de vista espiritual da coisa. 

Pois bem, durante o tempo em que estive preso nessa armadilha do ego (eu ainda não sabia nada sobre ele), passei perrengues (como o leitor deve imaginar e quiçá se identificar). Bastava uma percepção de que cometi um pequeno deslize, poderia ser em qualquer área da vida, para a minha vibração despencar e minha energia surfar nas ondas das frequências do medo, da culpa e da vergonha. Ôxi, que tempos desafiantes! 

Por exemplo, o Luís do mundo de fora não conseguiu tirar a nota 10 em uma prova, e ele tinha estudado “prá daná”. Ele tirou 9,5. “Que tragédia!”, pensava o Luís do mundo invertido, “Você é péssimo!” 

O Luís do mundo invertido comandava os pensamentos e as ações. Lutar contra ele era inútil. Ainda mais que o Luís do mundo de fora não gostava de falar sobre si mesmo e se recusava a receber qualquer tipo de ajuda, pois julgava que isso era demonstração de fraqueza. Era preciso ser forte na hora de enfrentar o problema, eu precisava dar conta sozinho! Hoje vejo que eram sussurros do Luís do mundo invertido. Oras, eu não me conhecia. Apenas conhecia o Luís do mundo invertido. Eu ERA os meus pensamentos e me identificava fortemente com o EGO. 

A situação começou a mudar quando sofri a queda. Dizem que há a “crise dos 30”, não sei se estereotiparam o negócio, mas comigo rolou mais ou menos nessa época. O Luís do mundo invertido se tornou insuportável e as coisas no mundo de fora começaram a ficar também insuportáveis. No trabalho principalmente, local em que a autoimagem de perfeição mais me pegava. 

Em muitas tradições, há essa ideia de queda, de a noite escura da alma, que serve para silenciar a mente, elevar a consciência e lutar por uma transmutação. No popular, o fundo do poço. Vejam, não é intenção comparar dor e problema de ninguém, cada um tem a sua própria jornada e cada um tem seu próprio poço a vencer. Eu estou passando pelo meu e estou contando para você, caro leitor, com o intuito de, quem sabe, ajudar um pouquinho. 

Voltando aqui na crise dos 30, o trem ficou pesado demais. “Quebrei e desabei”. O surfe nas ondas mais inferiores de vibração estava sendo praticado e as consequências disso, as mais drásticas caro leitor,  permearam a minha cabeça. A ponte entre o Luís do mundo invertido e o Luís do mundo de fora entrou em colapso e havia começado a revolução. Hoje penso que o Luís do mundo invertido relutou muito em deixar o Poder. Ôôô bicho teimoso! 

A sorte dessa pessoa que vos escreve é que existem literalmente anjos nesta vida. O significado de anjo dentre as muitas tradições é mensageiro a serviço de um bem maior. Foram muitos os meus anjos. Foram os meus amigos, a minha família, a minha esposa Talita, o meu terapeuta Luiz Alberto (pois, finalmente o Luís admitiu que precisava de ajuda e de um guia). 

Dentre as coisas que recomendo fazer, caro leitor do outro lado da telinha, se você se identificou um pouco com o caso, é procurar o autoconhecimento. Para mim, é a jornada heróica do ser humano. Uma das formas para iniciar o aprendizado de se conhecer melhor é frequentar o Pathwork (um dia vou falar sobre esse tesouro que me ajudou tanto!). Mas há outras formas e acredito que cada um saiba e sinta o que se encaixa melhor na própria vida.

O Pathwork para mim deu muito certo, pois com uma pequena abertura de consciência, já escancarou os meus conflitos interiores. Como se eu fosse jogado na cova dos Leões. Ali na cova, praticando o autoconhecimento, vi muitas coisas em mim que não gostei e me doeram. Mas também vi e senti coisas muito boas que me deram forças para enfrentar os Leões.

Nessa jornada que continua até hoje e com a ajuda do Luiz Alberto pode ser que eu tenha encontrado o líder dos Leões. Ele atende pelo nome de Perfeccionismo. Ah, o Luís do mundo invertido se divertia me jogando contra ele!

Um momento para “flexões de mente”. Penso que todos somos um pouco perfeccionistas, alguns mais que outros. 

É exagerado quando a voz interna cobra excessivamente perfeição das coisas que fazemos no trabalho, no relacionamento, enfim das coisas da vida e não aceita crítica externa. A lógica do perfeccionista é: se houve crítica de alguém é porque a coisa não ficou perfeita. As críticas internas tornam-se dez vezes piores e surge uma raiva de si mesmo que entra em um looping bizarro. No começo a raiva é por não ter sido perfeito, depois a raiva é por estar sentindo raiva, porque o ser perfeito não tem raiva. 

Deu pra entender? Louco, não é?

Hoje eu vejo que isso é uma crença e uma distorção criada pelo Ego, o meu colega Luís do mundo invertido.

“Eita, Luís, e como sair desse looping bizarro?”, o caro leitor pode estar me perguntando. Vou parafrasear Murilo Gun: “É Hardwork, papai!”

Entrar na cova dos Leões, enfrentá-los, encará-los, não desviar o olhar e… Abraçá-los. Vish, mas que contradição! Parece, mas não é. É como se estivéssemos abraçando a parte ferida de nós mesmos. A nossa sombra ou, como é ensinado no Pathwork, nosso Eu Inferior. Enquanto não descermos na cova dos Leões, fingimos não os ver e sempre estaremos usando máscaras. Isso mesmo, como no Carnaval. Fingindo ser quem não somos. 

O Luís do mundo invertido faz parte de quem sou. Faz parte, não é Todo o ser batizado Luis Fernando. Aceitá-lo e abraçá-lo quebra a minha máscara. Eu sinto raiva, eu sou vulnerável, eu preciso de ajuda. Eu posso fracassar. E posso tentar de novo. Posso ter muitos fracassos. Lembrei de um verso da música de Kell Smith chamada Girassol (essa moça escreve letras lindas e canta muito bem): “E quase sempre é em desistência que o fracasso se resume”. Aí está a percepção do fracasso definitivo. Desistir. E, vejam, há uma diferença entre o que vale a pena lutar e aquilo que é murro em ponta de faca. Largar aquilo que me faz mal é muito importante. Outro dia vou escrever sobre isso, algo que li sobre carregar muitas coisas na mochila da vida. Enquanto isso, escute a música Girassol de Kell Smith. Toda a música é bela, carrega uma mensagem positiva! Escute lá!

E agora parafraseando Rocky Balboa (eu não resisti!): “Ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.” Eita, que frase bonita! Obrigado, Rocky!

Enfim, caro leitor do outro lado da telinha, essa Prosa pra Sortá os Trem Acumulado ficou extensa. Espero ter comunicado a minha intenção com clareza para ajudá-lo um pouquinho, uma unha do dedo mindinho que seja. Aliás, gratidão por ler até aqui. Saiba que escrever isto me ajudou! 

Para finalizar, quero deixar duas frases de pensadores importantes que ajudaram na minha jornada. Uma do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung e outra do filósofo francês Jean-Paul Sartre.

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.”

Carl Jung

“A consciência que afirma ‘eu sou’ não é a consciência que pensa.”

Jean-Paul Sartre

Um abraço fraterno ao caro leitor! Até a próxima PISTA pra negócio!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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