Pílulas de sabedoria da Rita Bee #02

IDEIAS CUCO

Naquela tarde de sol, Lina Bee apareceu chateada na casa da vovó Rita Bee.

– O que aconteceu, Lina? Você está tão sorumbática.

– Vovó, não sei o que é sorumbática, mas soa com estar triste. E me sinto assim hoje.

– Venha aqui para a cozinha, vou te preparar um melzinho e te dar uns favinhos para você comer. Depois você me conta o que aconteceu.

Lina Bee adorava o acolhimento dado pela vovó Rita. Na casa da vovó, ela se sentia confortável para desabafar e receber os conselhos da mais sábia e filósofa abelha do Reino, com tanto tempo de vivência.

Depois de saborear o mel orgânico e os favinhos deliciosos, Lina Bee se sentiu à vontade para falar.

– Sabe, vovó, eu tenho uma amiga que gosto muito. Ela se chama Olga. A Olga anda meio distante, há algum tempo não nos falamos. Há alguns dias, um colega que a conhece e trabalha na Fábrica de Mel comigo disse que ela falou mal de mim. Isso me deixou muito triste e, pra piorar, comecei a lembrar que certa vez a Olga passou por mim na rua e não me cumprimentou, simplesmente fingiu que não me viu. Acho que ela não gosta mais de mim.

Vovó Rita Bee ouviu o relato da neta com atenção. Serviu-se de uma caneca de mel orgânico da melhor qualidade produzido na Fábrica Meldeus, onde a Lina Bee e grande parte das abelhas do Reino de Hymenoptera trabalhavam. Calmamente, virou-se para a neta. Lina esperava ansiosa pelo conselho da avó.

– Lina, minha querida! Você já perguntou para a sua amiga se ela não gosta mais de você?

– Não, vovó. Estamos há um tempo sem conversar.

– Por que você acredita que ela não gosta mais de você?

– Oras, eu te disse. Ouvi que ela falou mal de mim.

– Ouviu diretamente dela?

Lina Bee fez uma expressão de confusão. Estava repetindo a sua história. A intenção da avó era fazê-la refletir o que estava dizendo.

– Não foi diretamente da Olga.

– E mesmo assim, você acredita que ela não gosta mais de você. Por quê?

– Porque um outro dia ela demonstrou isso quando fingiu não me ver na rua.

– Você está me dizendo que o fato de sua amiga não ter te cumprimentado em uma ocasião associado com o que outra abelha pensou ter ouvido dela te levou a conclusão definitiva de que a Olga não gosta de você?

– Do jeito que você falou até fiquei confusa, vovó.

Rita Bee sorriu como se tivesse chegado no ponto que queria. Como de costume, se levantou e foi até a estante de discos. Escolheu um álbum da melhor banda de todos os tempos “Bee Tall’s” e colocou o disco na vitrola. Em poucos segundos, o ambiente estava tomado por um ritmo harmonioso com a voz dizendo melodicamente “Nós podemos resolver isso, a vida é muito curta e não há tempo para confusão e briga, meu amigo”. A vovó Rita Bee retornou à mesa e viu sua neta com uma expressão mais suave, parecendo que realmente refletia as suas próprias palavras.

– Vamos lá, minha neta, – começou a falar vovó Rita tirando do transe mental Lina Bee- eu vou te contar a história do Cuco. O Cuco é uma ave que tem um hábito bem esquisito. Um hábito digamos parasita. Em vez de construir um ninho, o Cuco deposita os seus ovos nos ninhos de outras aves, como por exemplo no ninho do simpático Ferreirinha. Pobre Ferreirinha, ele que fica com a tarefa de cuidar do jovem cuco até este ser independente. E o mais interessante, o simpático Ferreirinha parece que não percebe o estranho no ninho e toma o jovem Cuco como de sua própria prole.

– Nossa vovó, isso acontece mesmo? Estou chocada.

– Sim, isso acontece na natureza.

– Mas, por que você está me contando isso?

– Boa pergunta. Faz alguma ideia?

Lina Bee levantou os olhos, bebeu um gole de mel. A tigela dos favinhos estava quase vazia. A música dos “Bee Tall’s” ainda tocava, uma melodia harmoniosa com a voz cantando “Tente se colocar no meu lugar, somente o tempo dirá se estou certo ou errado”.

– Acho que entendi, vovó. Estou criando o Cuco de alguém, seria isso?

– Sim, mais ou menos isso. Quando o seu colega te disse que a Olga havia te depreciado, a ideia foi aceita por você. Essa ideia cresceu e foi alimentada pelas suas percepções negativas naquele momento em relação a sua amiga. No fim, a ideia cresceu tanto que a conclusão tirada foi que ela não gosta mais de você. Assim com essa conclusão, o ciclo vicioso se formou, pois agora a sua mente elaborou que há a certeza da rejeição de Olga e por isso você não vai mais conversar com ela. Eu diria que você chocou ideias Cuco.

– Ideias Cuco…

-Sim, ideias implantadas que não são nossas. Tomamos como nossas, alimentamos e fazemos surgir uma conclusão aparentemente genuína, contudo baseada originalmente em algo que não veio da nossa essência.

– Estou começando a entender melhor, vovó. Sinto que devo conversar com a Olga.

– Você entendeu bem. Uma boa conversa honesta pode resolver as coisas. Nós não sabemos o que a Olga está passando. Quebre o ciclo vicioso, pergunte  como ela está e fale dos seus sentimentos. 

– Sim, vovó! Vou deixar essa ideia Cuco de lado.

– E lembre-se: estamos sujeitos a um dia ser o Cuco e outro dia o Ferreirinha. Vamos procurar ser nós mesmos, honestos com nossos sentimentos e intuição. Gostou da música?

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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