As aventuras do detetive Ted Rocky #03

Bola Nossa

Ted Rocky detetive particular, ex-dançarino, ex-pugilista, herdeiro de um escritório de advocacia. Vim de uma família abastada. Mas abri mão da carreira no Direito. E na dança. E da carreira no boxe. Eu possuía um caso de amor com a lona. Decidi o meu próprio caminho. A pindaíba de um detetive autônomo. Gosto de aventuras. Já me acusaram de abestado. Não ligo.

Herdei os olhos de minha mãe e o corpo atlético de meu pai. Deixo a barba por fazer, pra dar um charme como de um galã descompromissado. Tenho a aparência de Lázaro Ramos, o gingado de Bruno Mars. Os mais observadores já me perguntaram o porquê do meu nome ser Ted Rocky. Vem da época da minha carreira de boxeador, obviamente. Talvez seja por causa do meu gingado. Ou pela minha insistência em levar socos na cabeça. Deveriam perguntar ao meu ex-treinador de boxe, foi ele que me deu o apelido.

A fatura do cartão chegou naquela manhã. Por sorte, consegui vender o amplificador de guitarra que havia ganho como pagamento por resolver o caso de um guitarrista desaparecido. Ele desapareceu por que desistiu do rock e se juntou ao primo para formar uma dupla de sertanejo universitário. Estava dando mais ibope. Na época da investigação, eu disse para o meu cliente que gostava de rock’n’roll e já tinha tocado em uma banda. O meu cliente desiludido com a traição do companheiro, me pagou com o amplificador que pertencia ao ex-guitarrista. Eu pensei ter mencionado que tocava bateria na minha banda. Enfim, recebi de bom grado,  não iria sair de mãos abanando (o que não é raridade). Ainda bem que aceitei, hoje o amplificador nunca usado por mim gerou recurso o suficiente para o pagamento mínimo do cartão de crédito. 

Satisfeito com o cumprimento do meu compromisso financeiro, tive outras boas notícias naquela manhã. Um possível cliente. 

A porta se abriu de súbito, não houve batida.

-Ted Rocky? O detetive? 

-Sim, você fala com Ted Rocky, detetive particular, que nesse mês não irá entrar no SERASA.

-Detetive, vi o anúncio em um panfleto pregado no ponto de ônibus da rodoviária. 

Eu diversifico meus anúncios. Este especificamente eu coloquei há mais de dois anos no poste ao lado do ponto de ônibus, quando não tinha nenhum tostão para anunciar no jornal. Fiz a mão e preguei com fita lacre. Não fazia ideia que ainda existia.

-Em que posso ser útil?

-Eu sou da diretoria da Portuguesa de Santana.

-A Sociedade Esportiva Portuguesa de Santana. Conheço e acompanho. Gosto de futebol. Inclusive sei que fará a final da segundona do Estadual com o Vasco de Laranjeiras neste fim de semana.

-Corretíssimo senhor Detetive. Estamos às vésperas deste jogo decisivo. Acontece que anteontem foi realizado o sorteio do trio de arbitragem para comandar a partida. E desde ontem, o árbitro principal desapareceu.

“Curioso o caso”, pensei franzindo o cenho, “que altruísmo deste dirigente se preocupar com um juiz”.

-E quem é o árbitro desaparecido?

-Sidney Nelson.

Abri o cenho e levantei a sobrancelha, murmurando “hum”. Eu acompanho as notícias esportivas. O nome do senhor Sidney Nelson frequentemente está envolvido em polêmicas. Uma marcação de pênalti duvidoso, uma anotação de impedimento escandaloso, uma anulação suspeita de gol. E, coincidentemente, na maioria das vezes a briosa Portuguesa de Santana era o time beneficiado. Uma vez o senhor Sidney expulsou cinco jogadores de um mesmo time e a partida teve que terminar por W.O. com a vitória da Portuguesa. O Senhor Sidney justificou todas as expulsões e não houve abertura de investigação. Em outro jogo, em uma ocasião de ataque da Portuguesa de Santana, a bola saiu pela lateral em uma disputa. Todos ficaram na dúvida de quem havia tocado por último. As pessoas ao redor, principalmente os jogadores presentes, juram que ouviram do senhor Sidney Nelson a frase: “Bola nossa, bola nossa”, e a jogou para que o lateral da Portuguesa prosseguisse o ataque. Depois desse episódio o distinto árbitro ganhou o apelido de Nelsinho Bola Nossa. É o que dizem as crônicas futebolísticas da região.

-O senhor Sidney possui família?

-Ele não é daqui. Vive sozinho, pelo que sei.

-Você mantinha contato com o senhor Sidney Nelson?

-Bem, o Sidney é um amigo. Fico preocupado.

-Entendo, senhor…?

-Rocha.

-Senhor Rocha, vou aceitar o caso. Leve-me até a casa do Bola Nos… digo, Senhor Nelson. 

Eu sou sócio torcedor do Vasco de Laranjeiras. Aceitei o caso por causa do meu código de conduta profissional, já que, ao que tudo indica, o Bola Nossa deixará o jogo ficar muito difícil  para a minha querida Laranjada. E também porque já penso na fatura do próximo mês, não tenho outro amplificador de guitarra.

O Vasco de Laranjeiras surpreendeu a todos na segundona do Estadual. Time recém ascendido da terceirona, todos pensavam que não conseguiria se manter na segunda divisão, mas tudo mudou com a eleição do novo presidente. Ademar Marcondes, empresário, dono de escola de samba e extra-oficialmente bicheiro. Na gestão Marcondes, além de renovar contrato com Biribinha, o herói do título da Terceirona, o Vasco ganhou bons reforços, dentre eles o goleiro Taffarel (apenas um apelido, não se emocionem) e o meia Dodoca.

Os dirigentes da Portuguesa de Santana suspeitavam que Marcondes sequestrou o juiz. Não havia provas para isso. Aí é que eu entro. Rocky. Ted Rocky, detetive particular. Sem clubismo.

O Rocha me passou o endereço do juiz. Nelsinho Bola Nossa morava no subúrbio. A casa de portão gradeado estava vazia, ninguém atendia aos chamados. Nenhum movimento.

Perambulei pela vizinhança. Encontrei uma senhora debruçada no parapeito de uma janela aberta que dava para o passeio. Ela parecia aquelas “namoradeiras”. Abordei aquela senhora utilizando meu charme nato. A janela grande aberta que dava visão para a rua sugeria que ela poderia saber de algo.

-Bom dia, senhora. Sou Rubens, do sindicato de árbitros. Vim procurar o senhor Sydney Nelson. Eu tinha marcado uma reunião com ele hoje, antes do jogo do fim de semana. Você o conhece, sabe onde pode estar? Ele não está em casa.

-Bom dia, jovem. Conheço o Nelsinho. Não o vejo na vizinhança desde ontem quando uma Mercedes parou na porta da casa dele.

Eu estava certo, a “namoradeira” sabia de algo.

-Que coisa! Uma Mercedes? Não era o pessoal do sindicato. 

-Ah, meu filho, era um carrão. Eu o vi entrando naquele carro.

-Ele entrou no carro tranquilo?

-Sim, parecia satisfeito. Nelsinho costuma fazer caminhadas matinais quase todos os dias. Ele sempre me cumprimenta, é muito educado. Ele está fora desde ontem, tenho certeza.

Agradeci a simpática senhora observadora e língua solta. Com o que ouvi, comecei a levar em consideração as suspeitas do Rocha. Teria que investigar o presidente Marcondes.

Como sócio torcedor do Vasco de Laranjeiras não foi difícil entrar na sede social do clube, que fica perto da quadra da escola de samba Unidos de Laranjeiras. A escola nunca pertenceu ao grupo especial. No próximo ano tentará o acesso novamente. A comunidade está confiante. 

Fui até o SAT, serviço de atendimento ao torcedor. Algo recente, estão tentando profissionalizar o negócio. Com a desculpa de rever o meu plano para concorrer ao prêmio de passar um dia de treino com o time e conhecer o herói Biribinha, perguntei à simpática atendente se conseguiria ver o presidente Marcondes para o parabenizar pela gestão. Ela me respondeu que o presidente Marcondes anda muito atarefado, mas pode ser que o encontre na quadra da escola de samba. Ele costuma ficar mais tempo lá. 

Lá foi Ted Rocky, um sujeito sem qualquer tipo de afinidade com o samba, visitar um galpão de ensaio de escola. Meus antigos colegas integrantes da banda de rock achariam muita graça.

Presidente Marcondes estava lá. Com o telefone na mão, em uma ligação que parecia importante. Lá no fundo do galpão, rodeado por mulatas sambando, estava Nelsinho Bola Nossa. Não parecia estar sofrendo em cativeiro. 

Fui ter com meu cliente e lhe contei que o juiz não estava desaparecido. 

O árbitro da grande final da segundona não foi sequestrado e sim subornado. Ele simplesmente sumiu do mapa para não atender os chamados do Rocha e sua turma da Portuguesa de Santana. 

Nelsinho Bola Nossa ganhou do Marcondes uma bolada superior ao que recebia dos dirigentes da Portuguesa, além de entrada franca nos ensaios e no desfile da Escola de Samba Unidos de Laranjeiras. Ele preferiu sambar com as mulatas. 

Por essa informação, Rocha ficou tão desnorteado quanto o roqueiro que perdeu o seu guitarrista. Mas, dessa vez, eu saí com a mão abanando. Não quis receber o material esportivo da Portuguesa como pagamento.

Houve o jogo. A finalíssima terminou empatada em 1 a 1, com expulsão do artilheiro da Portuguesa de Santana logo no começo da partida e com o gol meio Mandrake do Vasco de Laranjeiras. Cortesia de Nelsinho.

A decisão foi para os pênaltis. Apesar de todo o esquema, futebol tem dessas coisas, o Vasco não subiu.

Infelizmente, Biribinha não estava em um bom dia, ele perdeu o pênalti decisivo. Pobre Biribinha, não pôde sambar com as mulatas naquele carnaval. Nem o Nelsinho Bola Nossa. Marcondes retirou toda a sua regalia pelo serviço mal feito. Eu ainda tinha o meu sócio torcedor da Laranjada. Continuei com o plano básico. Não posso aumentar despesas agora. Deveria ter aceito as camisas da Portuguesa. Poderia vendê-las para ajudar na fatura do mês que vem.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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