As aventuras do detetive Ted Rocky #05

QUE O QUATRO DE MAIO ESTEJA COM VOCÊ

Ted Rocky detetive particular, ex-dançarino, ex-pugilista, herdeiro de um escritório de advocacia. O Sinval Advogados Associados. Vim de uma família abastada. Mas abri mão da carreira no Direito (nunca iniciei, na verdade, para tristeza de papai). E também abri mão da carreira na dança. Para a tristeza de ninguém. E da carreira no boxe. Eu possuía um caso de amor com a lona. Um romance incompreendido no ringue. Decidi o meu próprio caminho. A pindaíba de um detetive autônomo. Gosto de aventuras. Já me acusaram de abestado. Não ligo.

Herdei os olhos de minha mãe e o corpo atlético de meu pai. Deixo a barba por fazer, pra dar um charme como de um galã descompromissado. Meu nome vem da época do pugilismo. Perdi a conta de quantas vezes assisti aos filmes de Rocky Balboa. Menos o Rocky 5. O Rocky 5 não deve entrar na contagem desta grandiosa obra. Meu apelido vem daí? Talvez. Ou pode ser pelas repetidas vezes que fui à lona. Mas levantava. Às vezes, em um quarto de hospital.

Era o início do mês de maio. Pink, o ratinho cinzento que de vez em quando aparece e me faz companhia, não aparecia há dois dias. Comecei a desconfiar que ele se encontrava com o Cérebro para criar planos mirabolantes na tentativa de conquistar o mundo. Ou emendou o feriado. Talvez os roedores tenham mais sorte nesta tarefa de dominar o mundo que os humanos. Meu estoque de achocolatado pronto para beber estava no fim, mais precisamente uma caixinha. E pela metade. No pacote de cream-cracker havia dois biscoitos. Talvez seja por isso que o Pink não aparecia, o jantar estava escasso. 

Já pensava em ir na lanchonete da esquina comprar um cachorro quente e pagar parcelado no cartão de crédito quando ela apareceu. O cheiro chegou primeiro. Que perfume! Seria possível alguém carregar um aroma tão doce e agradável? O Pink deu as caras depois de dois dias só para sentir aquele cheiro. Saiu da sua toca que fica bem atrás da porta, fora do alcance da vista dos meus clientes. De relance, pareceu-me que Pink empinou o focinho para captar melhor o aroma. Eu fiz o mesmo. A beleza dela era tão agradável quanto o seu cheiro.

— Você é o detetive do anúncio que vi na rede social?

— Sim, você fala com Ted Rocky, detetive particular. Pura observação e olfato.

Entrei na rede social mais popular do momento só para anunciar os meus serviços. Eu diversifico meus anúncios. Coloquei uma foto em que estou de óculos escuros usando a minha melhor camisa que já possui uma mancha no colarinho e segurando uma água de coco na mão em frente a um banner da lanchonete do Silva com a frase: “Depois de muito investigar, o detetive precisa se refrescar. Aqui eu encontro a melhor água de coco da cidade”. O Silva me pagou dez pila para tirar a foto na frente do banner e fazer a propaganda. Usei os dez pila para impulsionar a postagem.

— Senhor detetive, preciso dos seus serviços. Meu namorado desapareceu.

— Seu namorado estava de posse de todas as faculdades mentais, dos sentidos de visão e olfato?

— Sim, por quê?

— Não, por nada. Pergunta retórica. E quanto tempo ele está desaparecido?

— Há dois dias.

Na hora me veio a criação de uma história absurda em que o Pink realmente estava envolvido em uma conspiração de ratos a fim de tentar dominar o mundo sequestrando pessoas para fazer melhores estudos sobre o seu comportamento, confinando-os em calabouços. Uma vingança dos ratos contra a raça humana paga na mesma moeda. Olhei de relance em direção à toca do Pink, mas ele já tinha ido embora.  Ah, a nossa mente é um barato!

— Hum, há dois dias. Qual o seu nome, senhorita?

— Wanderleia. Mas pode me chamar de Leia.

— Leia, igual a princesa.

— Como?

— A princesa Leia, Star Wars. 

— Não sei de quem você está falando.

— Esqueça. Como é o nome do seu namorado?

— Hamilton. Mas os amigos dele o chamam de Rã. Nunca entendi.

— O seu namorado se chama Han?

— Não, Hamilton. O apelido é Rã.

— Que curioso! O apelido não deve remeter ao anfíbio, mas ao personagem Han Solo de Star Wars. Você nunca viu o filme?

— Já ouvi falar deste filme. Hamilton me implorou para assistir. Nunca me interessei. 

— Um momento. Seu nome é Leia, seu namorado tem o apelido de Han. Vocês tem um cachorro chamado Chewie? 

— Nossa, como sabe que o cachorro tem esse nome?

— Detetive particular, baby! É o meu trabalho descobrir coisas!

— Você irá me ajudar?

— Sim, sua alteza tem uma nova esperança em Ted Rocky.

Ela não entendeu a referência. Achei curioso ela desconhecer o universo de Star Wars. Tudo indicava que o namorado era super fã da obra de George Lucas. Tão aficcionado que poderia ter escolhido a namorada pelo nome? Teria que encontrar Han para perguntá-lo sobre isso. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular e nerd. Sim, um nerd reconhece o outro.

Leia contou que Han foi assistir a um jogo na casa de um amigo. Foi o que ele disse na última vez que se viram. Ela o procurou na casa do tal amigo e não encontrou ninguém. Han não atendia os telefonemas, tampouco respondia as mensagens.

Como apreciador da cultura nerd, eu sabia que ocorria na cidade um festival que vinha ganhando notoriedade regional. Era uma espécie de CCXP que há dois anos reunia muitas pessoas no centro cultural municipal nessa época do ano. O Festival 04 de Maio. Esse era o nome para os leigos.

Para os entusiastas, o nome oficial era “May  the Fourth Be With You Festival”. 

Um jogo de palavras com a famosa frase do filme Star Wars “May the force be with you”. Um trocadilho genial com o dia quatro de maio. Obviamente faz mais sentido no inglês. O mundo inteiro comemora essa data. Maior barato! 

Não para Leia. Leia não sabia o que era um sabre de luz. Leia desconhecia a luta da Resistência contra o Império Galáctico. Leia não viu Jar Jar Binks. Pelo menos este alento! Nunca entendi aquele personagem.

Portanto, meu faro atômico me indicava que o Festival “May the 4th Be With You” era o melhor local para iniciar minha investigação.

O festival da cidade não era apenas para os fãs de Star Wars. Os organizadores pegaram carona no evento mundial e criaram na data uma reunião de entusiastas do mundo nerd.

No meio de pessoas usando fantasias de personagens de filmes, jogos e quadrinhos, confesso que me senti em casa. Conversei com Luigi na entrada da feira que me indicou uma lanchonete mais próxima. Sentei em uma mesa ao lado de Saori Kido que foi muito gentil em me dar suas batatinhas fritas. Deu mesmo, pois usei o meu charme! 

— Sou seu Pégaso e te levaria até o mais próximo das constelações, onde está a armadura do poder!

O báculo desceu na minha cabeça. Sorte que era de um material leve. Atena se foi, mas as batatinhas ficaram.

Depois de saborear aquela refeição, o dever me chamava.  Preciso encontrar Han Solo. Encontrei Pikachu, sob o nítido efeito do excesso de chopp, que me apontou o outro lado da pista onde estava o stand  de Star Wars. 

— Que a força esteja com você, Pika! Pika!

Sempre achei Pikachu muito esquisito. Depois eu me preocupei porque a força de Pikachu é o Choque do Trovão. Meio perigoso ainda mais sob efeito de álcool. Alertei-o para não dirigir. Melhor ir de pokebola! Sei lá!

No stand de Star Wars, o protagonista daquele festival, Darth Vader me mostrou o projeto da Estrela da Morte e quis me vender seu sabre de luz. Quase fui convencido a comprar quando ouvi de um dos Lukes Skywalkers que uma turma de jovens tumultuava uma sala de jogos de realidade aumentada. Dentre eles Han Solo.

— Para a sala de jogos! — exclamei devolvendo o sabre de luz ao desapontado Darth Vader.

Na sala estava acontecendo uma espécie de campeonato. Haviam duas equipes em um palco e um telão no centro. E havia torcedores. Como em um estádio de futebol. O jogo de realidade aumentada 3D parecia ser do tipo sobrevivência em meio a um apocalipse em que os animais tomam conta do mundo, inclusive os ratos eram os líderes. O Rei Ratombo, o mestre Splinter do mal. Tudo indicava que o jogo era uma versão moderna de Tartarugas Ninjas. Quem me contou tudo isso foi o Goku. Ele torcia para o time de Han.

Eu me lembrei novamente de Pink e suas ambições de dominar o mundo. Fizeram um jogo sobre isso. Pink deve estar muito ocupado mesmo.

No fim, o time de Han perdeu o campeonato. Não consegui entender as regras do jogo. Muita luz, armas ninjas e movimentos complexos. O Rei Ratombo continuava a reinar soberano sobre uma Terra em ruínas. Como Jabba the Hutt em Tattooine. Até o Retorno de Jedi, claro!

Han e seus amigos secretamente se inscreveram naquele campeonato amador de e-sport. Esse era o jogo que se referiu quando saiu de casa. Ele se envolveu tanto na tentativa de salvar o mundo do Rei Ratombo sendo uma Tartaruga Ninja que se esqueceu da vida. E da Leia. Não o julgo. Se o jogo de realidade aumentada fosse sobre Zelda, eu viveria à base de leite do Rancho Lon Lon comprados com Rupees tentando salvar o reino de Hyrule das calamidades frequentes.

Leia é que não gostou da aventura de Han. Contei a ela onde o namorado estava. Ela apareceu no festival. Han tentou explicar o quatro de maio. Não colou. Leia não entendeu o porquê das pessoas desejarem que o quatro de maio estivesse com ela. E já era dia cinco. 

— E por que você está usando essa camisa branca surrada com esse colete preto manchado? E esse cinto esquisitíssimo? E o que é isso, uma arma de água? — inquiriu a moça visivelmente abalada.

Terminaram o namoro. Eram almas completamente distintas. A dela mais cheirosa. No meio da confusão durante o encontro dos dois, ela não me pagou. Guardo com carinho o seu cheiro. Digamos que foi meu pagamento.

Perguntei ao meu agora amigo Han se ele escolheu a namorada pelo nome. Ele prontamente me respondeu que não, sorrindo para o lado. Aparentemente, ele não se importou com o término do namoro. Chewie ficou aos seus cuidados.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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