As peripécias do Casalzinho Bacana #03

AONDE VOCÊ MORA?

Era dezembro. Clima de Natal. 

No final da celebração eucarísitca o casal foi chamado para o centro do altar. Deram-se as mãos e o padre deu a benção. Foi uma espécie de pré-casório, não se sabe se isso é comum. Depois, cantaram “Parabéns pra você”. Era o aniversário da mais nova noiva da Paróquia. Estava fresquinha, o noivado tinha acabado de sair do forno.

Na noite anterior, o pedido de casamento foi feito em um jantar especial no dia do aniversário dela. Que romance!

Noivado firmado. Benção dos familiares. Benção dos amigos. Benção até dos desconhecidos. Cidade pequena do interior mineiro é assim, todo mundo junto e misturado. 

Ainda teve um almoço no restaurante favorito deles com os pais da noiva para celebrar e abençoar (de novo) o anúncio do ajuntamento de trapos do jovem casal que até ontem era de namorados.

Veio o dia seguinte. E muitas perguntas. Primeira coisa: onde morar? Ele e ela moravam com os pais.

Então, nada mais justo para um casal de noivos procurar uma nova moradia. Ele já ansiava pela ideia da mudança para um lugar só deles. 

Os pais dele já estavam preparados (ou pelo menos avisados, a mãe sofreu um cadinho!). 

Ela precisava da transição, que as coisas corressem paulatinamente. E os pais dela ainda não estavam preparados, foram avisados no dia anterior por assim dizer.

– Ok, eu vou primeiro, você vem aos pouquinhos – foi o acordo entre eles.

Dois dias depois do jantar de noivado, lá foram os pombinhos encarar a saga da escolha da futura moradia. 

Ela é boa de pesquisa. E de condições. A nova moradia necessariamente precisaria ser próxima do centro da cidade. Porque ela é adepta da viação canelinha. 

– Precisamos morar perto do centro, pois quando você não estiver aqui com o carro, eu gostaria de ir a pé para trabalhar ou resolver algo na cidade. Não quero depender de lotação ou táxi – advertiu ela.

Naqueles idos não havia ainda na cidade do interior de Minas Uber e similares. Não que isso faria diferença. Na verdade, nenhuma.

Outra condição: teria que levar o Totó. 

Totó, o “neném cassorro” dela. Assim mesmo, com dois “esses”. Ela tem uma forma de comunicação peculiar. Quase uma linguagem própria. Vocês se acostumam. E se apaixonam. Começa a aprender o dialeto.

O neném é do tamanho de um adulto quando se coloca em duas patas. Geralmente, assume esta posição quando quer abraçar a mamãe canina. Ela se autointitula dessa forma. Um título formidável.

Ele foi elevado à condição de papai canino no dia em que comprou um xampu antipulgas e anticarrapatos no valor de 70 pila para tratar a coceira do Totó. Ela chorou. Ali há muito amor envolvido.

Quando em posição de abraço, as patas do Totó se apoiam no ombro dela. A cabeça do “cassorro” ultrapassa a dela. Esse é o neném. Lindo!

– Peludinho, de fuço comprido, de patinhas caramelentas e de pintinhas caramelentas em cima dos olhos! – essa é a descrição do Totó dada pela mamãe canina.

Ela é uma mestra em neologismo. Algo já percebido pelo leitor atento. Algo apaixonante também. Isso já foi dito? Ele se diz com sorte de apreciar essa genialidade neologística. 

A última condição, claro, é o preço do aluguel. A especulação imobiliária era um filme de Annabelle. Um terror. Era preciso calcular se o valor era compatível com o orçamento unificado dos trapos do jovem casal.

– Eita trabalhinho árduo! A gente pode ser rico? – devaneou ele.

– Sim! – respondeu ela.

Infelizmente, neste caso, só querer não é poder. Então, era hora de bater perna e visitar as potenciais novas moradias dos futuros recém-casados.

Estava pactuado. A casa é responsabilidade dos dois. Não estava incluso pagar diarista para limpeza da moradia. Por isso, não é necessária uma casa de grandes dimensões, não é? Sim, havia o acordo!

Visitas a imobiliárias. Visitas às casas. Primeiro alerta de “eita”. A ideia da casa estava praticamente descartada. Não atendia aos requisitos de proximidade e de valor do aluguel. Atendia apenas ao requisito do Totó. Que tem um peso enorme. 

– Eita, vamos ter que rever o requisito de trazer o Totó!

– Ah, nãããããããão!!!!!

Uma negociação muito desafiante. Como separar um filho canino de sua mamãe canina. Não foi fácil para ela. Não mesmo. Foi necessária uma longa conversa com Totó. Se viesse com a mãe ficaria sozinho o dia todo e nem teria um quintal digno. Se ficasse com os avós caninos teria ração da melhor qualidade, quintal de respeito, gente em casa o dia inteiro, atenção afetuosa do tio canino que brinca muito com ele e ainda teria a companhia dos gatos fedorentos do avô. Ainda assim ela achava um crime. Só não se tornou porque foi feito um trato. Aliás, nem foi preciso fazer um trato. O maridinho de respeito leva a esposinha para ver Totó sempre que ela quer. E assim, é. Ela quer, ele leva (esse parágrafo é de autoria da própria mamãe canina).

Passada a primeira nebulosidade, a atenção se voltou aos apartamentos. 

Alguns muito lindos. Outros muito grandes. Pisos de porcelanato, que sonho! Fácil de limpar! Mas “os zóio” o aluguel, minha nossa! Aliás, quase todas as potenciais novas moradias que atendiam às condições pré-nupciais tinham aluguel caro. Se incluir o condomínio, temos um novo alerta de “eita”!

Depois de mais de uma semana na labuta, uma luz se acendeu no coração da dupla dinâmica “enoivada”. A irmã dele apareceu com suas asinhas angelicais com a notícia.

– Tenho uma amiga que está se mudando do apartamento em Santa Tereza! Mas é de um quarto apenas.

Fogos imaginários foram soltos na cabeça. Seria este? Precisaria do aval da noiva primeiro. O contato estabelecido direto com o proprietário. Um bom sinal!

No outro dia, os recém noivos estavam conhecendo a possível futura moradia. Atendia ao requisito pré-nupcial de localidade. Com o bônus que o proprietário é gente boa e a vizinhança tranquila. E com o valor do aluguel dentro do orçamento, outro requisito foi cumprido. Oba, glória!

O proprietário, gente boa (é sério, muito gente boa), mostrou o apartamento de dois quartos que estava vazio. Sabia da intenção de alugar o outro.

– Se quiserem, quando o outro apartamento de um quarto vagar, vocês trocam.

O casal se entreolhou. O acordo já estava sendo fechado naquele momento.

– Quando eu posso me mudar? – perguntou ele, sem ter nenhum móvel ou eletrodoméstico para mobiliar a casa.

Era época de Natal. Pelo menos a guirlanda artesanal de cachorros feita por ela seria pendurada na porta. Já poderia chamar de Lar.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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