O Torcedor #06

PÉ-FRIO

“Mano, está decretado: seu irmão não vem mais no estádio.”

– Fomos campeões, é o que importa.

– Negativo, foi por muito pouco. Se nós não estivéssemos aqui pra contragorar seu irmão, perderíamos este título. 

– Você está dramatizando demais, aproveita e comemora!

– Mano, realiza! Ganhamos o primeiro jogo fora de casa por 1 a 0. Saímos vencendo hoje de 1 a 0. Estava tudo indo bem, mas relaxamos!

– E daí?

– Tomamos a virada, mano. Nós perdemos o jogo no tempo normal. O jogo foi para a prorrogação. 

– E ganhamos na prorrogação. 

– Ganhamos, mas perdemos. Toda vez que seu irmão vem ao estádio, o time perde. Não falha. Está ficando perigoso. 

– Você está viajando!

– Contra fatos não há argumentos. Se ele estivesse sozinho hoje no estádio não levantaríamos o caneco.

– Ele sempre vem comigo.

– Não temos como controlar isso. Temos que tomar medidas drásticas nos dias de jogos.

– Quais medidas?

– Amarrar seu irmão em uma cadeira e trancá-lo no quarto. 

– Você não está falando sério.

– Mano, é sério. Ele é muito pé-frio. Ele tem o pé na Sibéria. 

– Não podemos fazer isso! Cárcere privado é crime. 

– Medida preventiva e legítima defesa contra o pé-frio. Pelo bem de milhares de torcedores do nosso time. É só durante o horário do jogo. A gente coloca uma TV para ele assistir. 

– Sei! Você é engraçado.

– Não tem graça. Mano, contra fatos não há argumentos. Aceita! Seu irmão é um pé-frio. 

– Como tem tanta certeza?

– Observei e investiguei. Final do campeonato estadual ano passado. Podíamos perder por até um gol de diferença. Qual foi o resultado?

– 1 a 0 pro adversário. E fomos campeões.

– E seu irmão estava lá.

– Hum…

– Jogo do primeiro turno do campeonato nacional, contra o rival. Estávamos você e eu no estádio. Jogo empatado, muito difícil. Seu irmão chegou no segundo tempo por causa do trânsito. O que aconteceu?

– Tomamos um gol no segundo tempo e perdemos a partida. 

– Viu? Há um padrão. 

– Minha nossa!

– Como te disse. São fatos.

– Ele é muito pé frio.

– Devo providenciar uma corda?

– Claro que não! Para com isso!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

2 comentários em “O Torcedor #06

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