Pílulas de sabedoria da Rita Bee #05

RESILIÊNCIA

O dia amanheceu cinzento. Era final de outono, um tom de melancolia dominava o ambiente. Vovó Rita Bee terminava de preparar o mel orgânico com especiarias, uma nova receita que aprendeu recentemente acompanhando o canal da Jornada Gastronômica de Colmeia apresentada pela melzista Chef Abelhuda. O canal da Chef Abelhuda era uma sensação. A vovó Rita, muito conectada, sempre gostou de aprender coisas novas. Ela se autodeclara uma eterna aprendedora. As coisas mudam e ela tenta se adaptar. Quando percebe que aprendeu uma coisa nova, é uma alegria! Na hora quer compartilhar o novo saber com a neta Lina Bee. 

Lina Bee admirava essa sede de conhecimento da vovó Rita. Aos seus olhos, Lina já considerava a avó sábia o suficiente e se espantava quando ela trazia algo novo. Claro que Lina ajudava a avó nas novas tecnologias, essas coisas da nova geração. Foi a neta que deu de presente à Rita Bee o aparelho super tecnológico que conversa à distância e sabe de (quase) tudo. O nome do aparelho era Bee-phone. Lina explicou como funcionava aquela caixinha e como ela tinha a capacidade de conectar as abelhas de todo o Reino. Rita Bee despendeu tempo para se adaptar àquela engenhoca, e ficou maravilhada que até do seu amigo, o sábio Akame, a caixinha mágica tinha informações. 

Naquele dia de final de outono, Lina Bee apareceu na casa da avó com uma notícia. Havia conseguido uma vaga no projeto que tanto queria participar na empresa em que trabalha, a fábrica de mel Meldeus. Trabalhou muito duro durante a semana, mas recebeu uma reprimenda do chefe de setor por atraso na entrega do projeto. Ela estava muito ansiosa, um misto de raiva e medo. Já passava na cabeça de Lina a perda do emprego. Ao chegar, parou na frente da porta da cozinha e se esqueceu do que iria dizer. O impulso de contar as novas foi substituído pelo deleite do aroma que vinha do fogãozinho da vovó Rita. Era a nova receita de mel orgânico com especiarias acabando de sair.

— Nossa, vovó! Que cheiro maravilhoso é esse?

— Olá, minha querida neta! Eu esperava por você. Experimente esta nova receita que aprendi no canal da Chef Abelhuda.

— Claro que quero!

Lina Bee foi ávida pela bebida quentinha recém-servida na tradicional canequinha branca. 

— Pelas antenas da Rainha! Isso está divino! Você colocou canela?

— Sim, há canela. E também cravo, gengibre e o segredo segundo a Chef Abelhuda: extrato de baunilha. 

— A senhora é incrível, vovó! Aprendeu rápido a usar o Bee-phone e já está craque nas receitas culinárias!

— Gratidão, minha pequena! Eu gosto de aprender coisas novas. E busco compartilhar o que aprendo. 

— Vovó, como você consegue isso?

— Ah, minha filha, acredito que seja o exercício da resiliência.

— Quê?

— Resiliência. É uma das coisas que aprendi há muito tempo com o meu amigo, sábio Akame, lembra-se dele?

— Sim, a senhora me contou sobre ele. Um ser completamente diferente da gente, não é? Que leva uma mochila parecendo pedra nas costas. Você supõe que ele seja tão velho quanto nosso reino!

— Esse mesmo! Meu amigo iluminado! Uma vez ele me contou de um lugar em que todos viviam felizes e possuíam saúde para dar e vender. Era uma ilha de seres como o velho Akame. Foi nesse dia que eu aprendi o que é resiliência.

— Nunca ouvi falar!

A vovó Rita sorriu e pela primeira vez saboreou o mel com especiarias que preparara. Suas anteninhas se eriçaram.

— Pela geleia real, isso realmente ficou muito bom! Chef Abelhuda tinha razão! Esta bebida merece uma canção!

Lina Bee acompanhou a avó até a sala de estar para vê-la escolher uma música dentre tantas da sua banda preferida, os “Bee-Tall ‘s”. Não demorou muito e a vovó Rita estava colocando o disco na velha vitrola. A agulha tocou no vinil fazendo o chiado conhecido de Lina e que trazia uma sensação muito gostosa. A canção começou. “Está ficando melhor a toda hora”.

— Vovó, e a tal da resiliência?

— Sim, a resiliência. É um pouco de melhorar a cada dia, a cada momento, aprendendo com a vida. A vida está sempre querendo nos dizer algo, Lina. O desafio é que a linguagem da vida é simbólica. E nós não aprendemos a entender o simbolismo, aprendemos a linguagem superficial e a linguagem do imediatismo. Falta-nos profundidade. E paciência.

Lina Bee voltou a colocar a canequinha branca na boca para degustar a bebida deliciosa. Sentiu o aroma antes de beber. Sem dúvida, aquela receita era uma obra divina.

— Lembra-se da ilha dos seres felizes, Lina? O velho Akame me contou que eles desenvolveram a habilidade de ser resilientes. A vida, minha querida neta, vai colocar contratempos na sua frente. A resiliência é a habilidade de enfrentar os contratempos. Na terra do velho Akame tem um ditado que diz: “Se cair sete vezes, levante-se oito.”.

— Vovó, isso parece ser muito complicado. Há certas coisas que fogem do nosso controle e nos colocam para baixo. Como o que aconteceu comigo nesta semana. Trabalhei duro no projeto da fábrica para uma produção mais sustentável. Mas por “ene” motivos não consegui entregar o projeto no prazo. Eu precisava de mais força para interferir na linha de produção e no sistema de outros setores. As autoridades desses setores nem me deram bola. São poucos os que me compreendem. Para que isso dê certo, preciso que eles façam o que estou dizendo. Isso depende de mim como líder do projeto. Meu chefe foi muito ríspido comigo por não entregar no prazo e pode parecer que a minha proposta está fora da realidade. Estou me sentindo mal e com medo de perder o emprego.

A vovó Rita Bee estava sentada na sua cadeira preferida saboreando agora a bebida mágica ensinada pela Chef Abelhuda. Na vitrola, a canção enchia a sala de uma melodia alegre: Eu ouvi finalmente, estou fazendo o melhor que eu posso”.

— Minha querida, o exercício da resiliência faz com que a gente se mantenha concentrado no objetivo, no que importa, sem se deixar levar pelo desânimo. Uma abelha resiliente sabe ser flexível, ela sabe se adaptar às mudanças e aos golpes da vida. Esse tema da sustentabilidade e do cuidado com a natureza parece ser importante para você.

— Sim é, vovó! Desejo mostrar a ideia da economia sustentável, encontrando o equilíbrio entre a produção e a conservação da natureza. 

— Pois isso é muito bonito. Convido você a exercitar a resiliência. Primeira coisa a fazer: concentre-se nas questões sobre as quais tem controle, sem se preocupar com aquilo que não pode controlar. Talvez isso ajude a deixar seu projeto mais objetivo. Você consegue entender o que a vida está te dizendo?

— O que a vida está me dizendo? Não sou fluente na sua linguagem simbólica.

— Bom, talvez ela esteja te dizendo com os acontecimentos recentes que seja necessária uma dose de serenidade para aceitar as coisas que não se pode modificar e uma dose de coragem para mudar aquelas que se pode; junto com o tempero da sabedoria para saber diferenciar uma coisa da outra.1

  Lina Bee inclinou a cabeça para o lado como que refletindo tudo aquilo que a sua avó filósofa acabara de dizer. A canequinha branca com o mel esquentava suas pequenas mãos. 

— Por isso penso que a resiliência é algo bonito, Lina. Ela nos torna melhores a cada dia e ajuda na jornada da evolução. O desafio aparece e podemos ficar paralisados, mas o resiliente mantém o movimento; por exemplo, aprende a usar essa engenhoca que você me deu, mesmo na minha idade, e aprende a fazer esta bebida divina de mel com especiarias. O que é importante neste momento? Ouvi uma vez que o que perturba a mente não são os fatos, mas o julgamento que fazemos sobre eles.2

A música dos “Bee-Tall ‘s” estava terminando na vitrola. Melhorando muito mais o tempo todo. Melhorando o tempo todo. Melhor, melhor, melhor.”

— Sabe vovó, vou praticar essa tal de resiliência. Vou dar o meu melhor naquilo que está ao meu alcance. Afinal você me disse uma vez que na cabeça enevoada de preocupação não brilha a luz do sol. Não deixarei as emoções destrutivas minarem meu objetivo. 

A vovó Rita Bee abriu o mais largo sorriso. Deu o último gole na bebida aromática de mel com especiarias e com seu Bee-phone na mão se virou para a neta.

— Veja Lina, a Chef Abelhuda tem outro vídeo no canal com uma nova receita de mel aromático. Esta leva semente de cardamomo e alecrim. Que interessante! Vamos aprender?

1 adaptação da oração de Reinhold Niebuhr

2 frase do filósofo grego Epicteto

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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