As aventuras do detetive Ted Rocky #06

TED ROCKY E O CÃOPANHEIRO

Era por volta do meio-dia. Havia feito um fake desjejum composto por um copo de água e dois biscoitos maizena, daquela marca do índio. Era possível ouvir um ronco de motor V8 no meu estômago.

Decidi sair no meu horário de almoço. Mas não era para almoçar como presume o verbo, porque este mês estava “o cão chupando manga”: não tinha dinheiro nem crédito (a fatura do cartão chegou e não consegui quitar o pagamento mínimo).

“Os juros vão me comer com angu”, pensei. E logo afastei o pensamento do angu, pois incitou protestos no estômago. Saí da minha sala decidido ir à praça central portando duas canetas tipo Piloto, uma vermelha e outra azul, com a intenção de praticar o escambo. A ideia era simples. Encontrar alguma criança disposta a trocar um saco de pipoca pela caneta. Em dias bons, consigo também uma paçoca. Sou assim, adepto da prática ancestral de realizar negócios sem envolvimento de moeda. Rocky. Ted Rocky, detetive particular. E escambista. Troco um almoço pela janta.

Quando cruzei a porta do prédio sob a potência sonora do motor V8 estomacal, eu me deparei com ele. O sol batia sobre o seu corpo dourado, suas orelhas erguidas captando o som ao redor (provavelmente o ronco do meu estômago), seu olhar amoroso e seu focinho preto brilhante. Eu estava diante do maior representante deste país. Ninguém menos que o cachorro caramelo. 

O cachorro ao me ver, sentou-se nos seus quartos traseiros. Eu fiz o que toda pessoa normal faria nesta situação. Eu me abaixei, afaguei sua cabeça e conversei com o cachorro. 

“Olá amiguinho! Você é muito bonitinho! Está esperando alguém?”

O porquê de eu pensar naquela hora que o amiguinho esperava por mim, não sei dizer. Talvez o olhar penetrante que me lançou. E o rabinho que balançou. Tão fofinho! Fui hipnotizado pelo cachorro? 

O fato é que ao me levantar e ir em direção à praça central para tentar consumar o meu escambo, o amiguinho canino veio atrás. Eu me senti honrado. Rocky. Ted Rocky, amante dos cachorros. Não de gatos. Porém, alérgico.

Cheguei à praça central para fazer o meu horário de almoço, que não era para almoçar. Sentei-me em um banco. O amiguinho de quatro patas se sentou ao meu lado. Perguntei o seu nome. Ele me olhou profundamente com seus olhos amorosos e abriu um sorriso canino, mostrando a língua. O sol batia na sua pelagem criando um brilho dourado. Entendi que seu nome era Melo. Ele é o Cara, Melo. Achei o nome apropriado. 

Passados dez minutos, eu  consegui consumar o escambo com a criança de skate que passava com um saco de pipocas na mão. Ela aceitou a troca das pipocas pela caneta vermelha. Viva! Joguei uma pipoca para o Melo. Ele comeu e começou a latir histericamente, rodando em torno de si próprio. Uma cena curiosa. Cheirei a pipoca. Coloquei uma na boca e fiz estalos com a língua para apurar o paladar. Não percebi nada de errado com o sabor e nem com o cheiro. Estava salgada e oleosa, como uma pipoca normal.

O Melo parou de girar e começou a andar. Avançou um pouco, parou e voltou a latir olhando em minha direção. 

Não tive escolha. Segui o cachorro. 

O Melo me levou até uma viela próxima à praça. Aproximamos de uma casa bem simples. A porta tipo postigo de metal com formato em xadrez dava direto para a via. O Melo parou em frente a esta casa e voltou a latir com mais força. Algo estava acontecendo ali. Bati na porta. O Melo ficou agitado, levantando as patinhas como se o chão estivesse fervendo. Ninguém respondeu. A janela estava semicerrada. Espiei para tentar observar o ambiente. Vi um sofá verde de tecido que lembrava a casa da vovó encostado na parede perto da janela e uma poltrona azul com estampa de flor do outro lado. A cortina era fina da cor marrom. Não tenho tino para decoração, mas aquilo me chocou. 

Chamei novamente dali, o famigerado “ô de casa.” Ouvi um murmúrio vindo do cômodo ao fundo. Meu faro atômico me indicava que eu devia entrar na casa. Quando eu fiz menção de girar o trinco da porta, o Melo voltou a latir, marchando em seu próprio lugar. Girei o trinco redondo e a porta se abriu.

Ao entrar, senti um leve cheiro de mofo, fritura e cigarro. O Melo entrou em disparada. Fui atrás dele. Na cozinha, estava um homem encostado na geladeira com a mão no peito e respiração curta.

Vejam só! Melo procurou o detetive Ted Rocky e na linguagem “caninesca” pediu para ajudar seu doninho. Como ele soube da minha reputação, só o Sobrenatural de Almeida poderá responder. Ou pode ser que ele tenha visto o meu anúncio no Pet Shop da esquina. Já trabalhei no caso do Chihuahua desaparecido da Dona Florência, proprietária da loja. Pode ser que o Melo conhecesse o Chihuahua e pediu indicações de seres humanos confiáveis, fluentes em cachorrês. Bingo! O Melo procurou a pessoa certa. Rocky. Ted Rocky.Detetive particular e poliglota. Mas não em gatonês, os gatos eram complicados de entender.

Acudi o homem, sem nem perguntar o seu nome, levando-o ao Hospital Regional. Mais tarde no hospital, recebi muitas lambidas do Melo. Deixei o amiguinho canino expressar o carinho, porém a minha alergia atacou e precisei ser atendido. Recebi uma cartela de antialérgico e tudo ficou bem.

Já no quarto da enfermaria, eu reconheci o doninho do Melo. O homem se chamava Valdo Pé-Pelando. Conhecido na redondeza por vender títulos de capitalização que sorteia alguns milhares de dinheiros toda semana. E com fama de dar sorte para quem compra em sua mão. Já eram dezessete ganhadores com a benção de Valdo Pé-Pelando. Daí a sua alcunha. Ele era mais do que pé-quente. E o nome era divertido. Considere fazer um exercício de sintaxe. Observe o final do nome como uma contração de preposição e isso arranca um pequeno sorriso. Tipo um “ah!”. Não se sabe se o nome é Valdo, como aquele jogador de futebol das antigas, ou se é Val, alcunha de algum nome como Valdeci. Certo, eu devaneei. E não confirmei com o homem se o meu devaneio estava certo, mas fiz amizade com ele.

Naquele dia, o Val ou Valdo teve muita sorte por ter um anjo de quatro patas para guardá-lo. Descobri que o nome do meu mais novo amiguinho era Nacib. Mas para mim ele é o Cara. O Cara Melo. Patinha quente.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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