P.I.S.T.A. #09

 “Eu estou com medo!” – Preciso falar sobre a cena da praia de Rocky III

Olá caro leitor do outro lado da telinha! Hoje tem Prosa Inventiva (pra) Sortá (os) Trem Acumulado. 

Você sabe de onde tirei esse trem de P.I.S.T.A.? Nããão? Quer saber? Eu explico no primeiro post desta categoria. Dá uma olhadinha lá!

O caro leitor concorda comigo que existem programas de TV, filmes ou desenhos animados que não importa quantas vezes nós já vimos, se estiverem passando na telinha, paramos tudo e começamos a (re)ver. 

Você está lá na sala da sua casa, zapeando os canais de televisão com o controle remoto sem nenhum propósito e de repente, páá! Está passando “Chaves”. A maioria interrompe o zapeamento e dá uma trégua ao movimento repetido do polegar opositor no botão do controle remoto para (re)ver pela octingentésima vez o episódio. A maioria ri (de novo). 

Outras atrações televisivas ou cinematográficas têm esse poder sobre mim. 

Pica-pau, Tom & Jerry, Cavaleiros do Zodíaco, Yu-Yu Hakusho, Shurato, Senhor dos Anéis, Coração de Cavaleiro, qualquer filme da Marvel, etc. (Deu pra sacar a minha vibe, não é? Bem cringe e me orgulho disso. 🙂 )

Pois bem, agora vem a prosa. Foi em um dia não muito longe de hoje, zapeando canais de TV que minha atenção foi tragada por uma dessas atrações poderosas capaz de fazer esquecer o tempo. Passava na telinha de um canal o filme Rocky III.

Sou apreciador da franquia Rocky Balboa. O leitor que acompanha este humilde blog deve saber disso. Gosto de todos os filmes, menos o Rocky V. O quinto filme estraga o final do protagonista. Maior viagem aquele personagem Tommy Gunn. Ficou ruim, pronto, falei! Tanto é verdade que fizeram o Rocky VI com o Stallone mais velho. Oficialmente o nome do filme é “Rocky Balboa”, mas a gente chama de Rocky seis. Este filme deu um desfecho mais digno para o campeão. Para mim, a franquia Rocky Balboa termina aí, no Rocky VI (para alguns o filme cinco nem conta, eu me incluo nesse grupo).

O caro leitor que não conhece a franquia, talvez pergunte: “O que tem de tão especial neste filme? É sobre boxe, é porrada, é violência.”

Eu respondo. Rocky Balboa vai além da superação física característica de qualquer atleta de alto rendimento e ainda mais exigido no boxe profissional. O boxeador é treinado para aguentar pancada e distribuir pancada para no final beber na taça da vitória.

Rocky Balboa também deixou mensagens de superação mental e emocional. Há muitas passagens sobre isso nos filmes da franquia, mas hoje gostaria de escrever especificamente sobre uma cena do filme Rocky III – O Desafio Supremo. A cena da praia. Foi exatamente esta a cena que passava durante o meu passeio despretensioso pelos canais de TV. E cá estou eu, tentando passar a mensagem que entendi sobre a superação dos nossos medos.

Antes um breve resumo da história (vou tentar né!). Rocky Balboa neste filme era o atual campeão dos pesos pesados, defendendo o título por dez vezes. Já pensando em se aposentar, aparece um novo e arrogante desafiante chamado Clubber Lang, o primeiro colocado no ranking dos boxeadores. Rocky aceita o desafio depois de ser insultado e ultrajado por Lang na frente de muita gente. Ou seja, Lang se utilizou de artimanhas mentais para provocar o quase aposentado Rocky. Antes da luta com o novo desafiante, o treinador de Rocky, Mickey, sofre um infarto e pede para que ele não lute, afinal ele já estava pensando em aposentadoria. E ainda deixou a entender que as outras lutas em que Rocky defendeu o título mundial foram de menor nível. O treinador moribundo alertou que se Rocky lutasse com Clubber Lang poderia ser destruído. De posse de toda essa carga emocional (a preocupação com Mickey e a dúvida instalada sobre suas próprias capacidades), Rocky subiu para o ringue e foi amassado pelo rival. Clubber Lang passou o trator em Rocky, nocauteando-o e se tornando o novo campeão. Depois da acachapante derrota, o treinador de Rocky morre. A partir daí, foi ladeira abaixo para o ex-campeão dos pesos pesados. 

Amparado pela sua esposa Adrian e pelo seu antigo rival Apollo Creed, que se oferece para ajudá-lo, Rocky retoma os treinos para uma revanche com Clubber Lang.

Mas não foi nada fácil. E é nessa altura do filme que vem a lição de moral que intitula este texto. A cena da praia em que os fantasmas de Rocky aparecem durante um treino com Apollo. Com os amigos e esposa presentes no treino, Rocky simplesmente para de treinar, aparentemente desistindo. Apollo chega a dizer que estava tudo acabado. Ele perdeu a vontade.

Nessa hora, Adrian aparece e como a voz do Eu Superior (sim, estou misturando o Pathwork com Rocky Balboa, me julguem!) começa um debate. A cena fica ainda mais interessante com o som das ondas do mar. 

Adrian começa perguntando por que Rocky foi para lá. Ele rebate com o discurso pronto do ego, aquela parte nossa que usa uma máscara, que quer esconder algo e não quer encarar o monstro que há dentro da gente, o Eu Inferior. 

“Eu simplesmente não quero mais isso!”

Não satisfeita com a resposta, Adrian continua se lembrando que nunca viu Rocky desistir de alguma coisa (inclusive dela mesma, o romance foi talhado com muita labuta).

Quando o ego foi provocado dessa forma, a máscara começou a cair. 

“O que você quer que eu diga? Quer saber como tudo era tão bom e de repente ficou tão ruim?”

“O que ficou ruim? Diga-me”, desafia Adrian (é ou não é uma grande terapeuta?).

Rocky começa um desabafo que visivelmente o machuca. Ele diz que estragou tudo e que não merecia ser o campeão. As palavras do seu falecido treinador ressoavam em sua mente e ele elaborou que não era bom o suficiente. Desconfiou que todas as suas lutas foram forjadas. Interessante é que o discurso de Mickey de alertá-lo da luta com Clubber Lang era para protegê-lo. Era um chamado de “treine mais para enfrentá-lo” ou “não precisa provar mais nada”. O treinador não quis desmerecer a capacidade de Rocky. Ele inclusive tinha nível técnico mais alto que os seus últimos desafiantes, talvez por isso o treinador o alertou que lhe faltava carga para encarar Lang, este sim, de um nível que lhe cobraria bastante das suas competências. Mas a mente guardou a elaboração destrutiva. E a palavra de Mickey era como a de um pai para o protagonista.

Rocky segue “soltando os cachorros”, transferindo culpa para Mickey, argumentando que a vida de vencedor era uma farsa e que preferia ter perdido o título há mais tempo, pois pelo menos saberia a verdade, que ele era um pugilista medíocre. Escancara a autodepreciação e a perda da confiança em si mesmo. Para fermentar ainda mais a massa da depressão, ele se culpa pela morte do treinador. 

Neste ponto temos o clímax do desabafo com o aparecimento do fantasma que atormenta Rocky (e tantos de nós). O medo. 

“Eu tenho medo, tá legal? Você quer que eu me abra, eu tenho medo!”

Eu particularmente fico comovido com a cena. Talvez por sentir esse medo que assombra as minhas decisões, que me questiona das minhas capacidades, de querer ser perfeito aos olhos dos outros.

A terapeuta Adrian no papel de Eu Superior solta o verbo e acolhe aquela alma atormentada (que poderia ser a minha ou a sua, caro leitor).

“O que há de errado em sentir medo? Você não é humano?”

Não há nada mais humano que sentir medo. Inclusive muitos dizem que graças ao medo a espécie humana sobreviveu. Mas esse medo primitivo precisa ser modulado na idade da expansão da consciência. 

“Você foi protegido, as lutas não foram pra valer? Eu não acredito. Mas não importa em que eu acredite, é você quem deve levar o medo por aí dentro de si. O medo de que vão tirar as coisas e de te chamar de covarde. Nada disso é verdade. Mas não importa se eu lhe disser. É você quem deve resolver isso. Apollo acha que você consegue e eu também.

Mas você tem que fazer pelas razões certas. Não por Mickey, não por outras pessoas, não pelo título, não pelo dinheiro, não por mim. Por você!”

“E se eu perder?”, o resquício de medo ainda pergunta.

“Aí perdeu, mas pelo menos terá perdido sem desculpas. Sem medo. E sei que você poderá viver com isso.”

“Como é que você ficou tão durona assim?”

“Eu vivo com um lutador!”, exclama a voz do Eu Superior em cada um de nós.

Rocky venceu a revanche com o novo estilo aprendido com Apollo. Ele se reinventou, recuperou a confiança em si mesmo e admitiu ter medo. Acolheu o seu medo. E superou a si mesmo. Fazendo as coisas por ele mesmo. O desafio supremo é a ideia de se superar todos os dias. Não a ideia de superar os outros como a nossa atual sociedade enfermiça de valores distorcidos vende.

Vem cá, meu medo, o que posso fazer para te ajudar hoje? Eu acredito que a resposta é: uma dose de autoconhecimento, por favor!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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