As aventuras do detetive Ted Rocky #07

TED ROCKY E A MEDALHA PERDIDA

Ted Rocky, detetive particular, ex-pugilista, ex-baterista de banda hardcore melódico, ex-integrante do quadro de devedores do SERASA. Aleluia para esta última!

Era uma manhã de inverno. Eu tinha quebrado o jejum com um pedaço de pizza de calabresa fria e um copo de guaraná sem gás. Eu havia pedido um lanche há duas noites pelo aplicativo de entrega mais famoso da cidade e escolhi o combo na pizzaria favorita. A garrafa de dois litros do refrigerante veio de brinde. Acompanho as promoções no aplicativo e quando considero um grande negócio não hesito em usar o meu cartão de crédito de um banco virtual. Entende-se como grande negócio aqueles em que o jantar pode durar mais de dois dias. Este foi o caso, duas pizzas saíram pelo preço de uma mais o guaraná grátis. Pechincha.

Na edição do Jornal Minha Notícia daquela manhã estava estampada na capa uma manchete sobre as Olimpíadas de Tóquio. Eu sou um apreciador de esportes. Qualquer esporte. Na última edição das Olimpíadas de inverno, parei para ver a disputa de lançamento de chaleiras em superfícies de gelo que utiliza, em suma, regras similares a do campeonato de bolinhas de gude da minha freguesia. A diferença é que no esporte da Olimpíada usam uma vassourinha para reduzir o atrito da chaleira com o piso de gelo. Foi o que entendi. Esporte fascinante. 

Imagino que, por analogia, bolinha de gude poderia se tornar um esporte olímpico. Por outro lado, não sei se isso beneficiaria o esporte olímpico brasileiro. Ainda existem crianças que brincam de bolinha de gude? Mas com certeza se a sinuca e o truco se tornassem esportes olímpicos não tinha para nenhum gringo. Os centros de treinamento destas modalidades são muito numerosos no Brasil. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. E comentarista de esportes. No verão e no inverno.

Depois desse devaneio olímpico, voltei para a leitura do jornal. Li a reportagem destaque sobre um dos esportistas da cidade que participou dos jogos. Tratava-se de um dos meus antigos colegas da Academia de Boxe. Ademar Meio-Quilo. A alcunha vem do seu peso e tamanho. Categoria mosca-ligeiro. Quando saí da Academia e desisti de prosseguir carreira no boxe, perdi o contato com o Meio-Quilo. 

Ademar Meio-Quilo foi eliminado na primeira luta por um polonês de nome difícil. Inclusive estaria retornando naquele dia, pois a competição já havia terminado. O campeão da sua categoria foi um atleta do Uzbequistão. Mas não importa. Fiquei contente que o meu colega perseverou e ganhou certa notoriedade. Ser um atleta profissional no Brasil é algo digno de um lutador. Mata-se um leão por dia e não é exagero.

Numa dessas sincronicidades da vida, após terminar o meu ritual matinal de comer o que se tem e ler o jornal, apareceu na minha porta ninguém mais, ninguém menos que o próprio Meio-Quilo. Ainda vestia o uniforme da delegação.

– Ted Rocky, preciso de você! – disse Meio-Quilo, um tanto esbaforido.

– Muitos precisam, velho amigo! Que coincidência, acabei de ler sobre você no jornal. Está ficando famoso por aqui. Você chegou rápido!  – eu disse surpreso. Como era possível o sujeito aparecer bem na minha frente, como que teleportado?

– Acabei de chegar de Tóquio. Ted, eu preciso que trabalhe em um caso para mim. Você se tornou um detetive, não é? Eu já tinha visto o seu anúncio na estação de metrô próxima da Academia. Nunca pensei que um dia precisasse de um detetive.

– Muitos pensam que não irão precisar. Bem, estou aqui. O que o detetive Ted Rocky pode fazer pelo atleta olímpico recém-chegado Meio-Quilo?

– Perdi a medalha!

– Como é? – indaguei, quase engasgando.

– A medalha de ouro. Eu perdi – disse ele convicto.

– Sim, você foi eliminado. Ou as notícias estão erradas? – quis parecer cortês.

– As notícias estão certas. Eu me refiro à medalha de ouro que o Biro-Biro ganhou nos jogos. 

Aquilo estava parecendo um sonho, sem o menor sentido. Eu até me belisquei para testar. A dor lancinante percorreu o meu braço e confirmei que eu estava acordado. 

– Meio-Quilo, você está bem? Nada do que está falando faz sentido para mim.

Só após essa abordagem, Meio-Quilo se acalmou e se sentou na cadeira de plástico que eu alugara na loja de artigos de festas que fica em frente ao prédio do meu escritório. Ofereci a ele um copo de guaraná sem gás.

– Ted, é o seguinte. O Biro-Biro é o uzbeque que ganhou a medalha de ouro na minha categoria. O seu nome é Abu Ahmad Kilymatov Al-Biruni. Nós nos tornamos amigos durante o Mundial de Istambul. Comecei a chamá-lo de Biro-Biro para encurtar o nome. Ele achou graça e não reclamou. Inclusive ele tem família que mora no Brasil, acredita? – disse o meu amigo em um tom casual.

– Estou impressionado com a sua criatividade. Mas o que isso tem a ver com a medalha?

– Eu sei que é difícil acreditar, mas o Biro-Biro me pediu para guardar a medalha. Ele precisa resolver uns problemas pessoais em seu país. Não sei o que é, ele não me contou, mas parecia preocupado. Acho que envolve dívida. Ele chegou a me dizer que uma medalha de ouro pode ser vendida por milhares de dólares em casas de leilão. Talvez queira deixar a medalha como recurso de emergência. Ou tem medo que a roubem quando voltar para casa. Enfim, Biro-Biro me disse que buscaria a medalha quando viesse ao Brasil. E eu a perdi no aeroporto. 

– Meio-Quilo, de fato sua história é um tanto esdrúxula. Como exatamente você perdeu a medalha?

– Na verdade, eu perdi a minha mala. E nela estava a medalha.

– E você não foi atrás dos agentes do aeroporto? 

– Pois é, não caracterizou extravio porque eu peguei a minha mala na hora do desembarque. Na porta do aeroporto, encontrei o Edgar Mão-de-Pedra, lembra dele? Muito massa! Ele veio me buscar. Disse que o pessoal da Academia estava me esperando. Foi aí que me distraí. Eu me distanciei um pouco da minha mala. Tinha muita gente passando, Ted. 

– Um minuto, você não deu falta da mala quando entrou no carro do Edgar?

– Acontece que eu levei outra mala por engano. Alguém levou a minha. Quando cheguei na Academia, abri a mala para mostrar a medalha do Biro-Biro para o pessoal. E você não vai acreditar, a mala estava cheia de roupas íntimas femininas. Nem queira saber a zoação do pessoal quando viram aquilo. Ninguém entendeu nada.

– A sua história, meu amigo, está entrando para o rol das mais escalafobéticas. 

– Escala… o quê?

– Fobéticas. Quer dizer muito estranha.

– Ah sim, isso sim! Não quero chamar a Polícia, imagina explicar isso tudo para eles. Preciso de uma resolução rápida para este caso, Ted. Você poderá me ajudar?

– Meio-Quilo, em nome de nossa velha amizade, vou pegar o caso. Primeiro passo, preciso investigar a mala que você pegou enganado de um possível novo Wando.

Fomos direto para a Academia. Uma pontada de nostalgia percorreu o meu corpo. Foi ali que treinei durante um tempo e conquistei a alcunha de Rocky. Ted Rocky. Em todos os meus treinos eu fazia questão que tocasse a playlist da franquia Rocky Balboa, de Gonna fly now a Eye of the Tiger. Lá estavam os colegas das antigas, o espirituoso Edgar Mão-de-Pedra e o carrancudo Lucão Queixo-Duro. Os outros eu não conhecia. Fizeram festa para mim, diziam “vejam o detetive boxeador”.  Deixei claro para os meus colegas que a luta nessa carreira é bem mais árdua que nos ringues. Meu cartão de crédito que o diga! Um salve para os combos de lanche!

Meio-Quilo me mostrou a mala do Wando. Durante a rápida análise no objeto, eu vi que a mala possuía um revestimento no fundo, criando mais um bolso e formando um fundo falso. Meus colegas por imperícia, por estresse ou por distração (focados apenas nas calcinhas) não repararam a peculiaridade do objeto. No fundo falso,  havia um envelope.  Dentro do envelope, havia um cartão de visita. Armando Costa, marido de aluguel. Bingo!

– Ainda bem que o sujeito não tem o sobrenome de outra parte do corpo de um homem, rá rá rá! Ou seria melhor se tivesse? Rá! – exclamou o piadista Edgar Mão-de-Pedra.

– Vamos ligar para ele, Ted? – quis saber Meio-Quilo.

– Sim, deixa comigo!

Saquei meu smartphone do bolso para usá-lo como telefone, algo muito raro hoje em dia. Disquei os números e esperei a chamada. Depois de dois toques, alguém atendeu.

– Alô? – disse a voz do outro lado da linha.

– Alô, é o Armando?

– Sim.

– Eu sei o seu segredo – afirmei com tom de voz cortante.

– Que segredo?

– Não se faça de bobo! Você sabe muito bem do que se trata. É melhor fazer o que eu digo, senão terei que revelar para todos o seu segredo.

– Quem está falando? Eu não tenho segredo nenhum!

– Claro que tem, senhor marido de aluguel. Pensa que eu não sei das suas artimanhas?

– Mas, mas… o que é isso? Que artimanhas? Sou prestador de serviço e… quem está falando?

– Você tem algo que me pertence, seu Wando devasso. É melhor entregar a minha mala e…

– Sua mala? Que mala? Espera, Wando devasso?

– Um minuto, Armando! Você por acaso abriu a sua mala quando voltou de viagem? – arrefeci o meu tom de voz.

– Não, ainda não abri a minha mala. Cheguei precisando resolver outras coisas e… espera, como você sabe que eu voltei de viagem? Quem é você? 

– Senhor Armando, está ocorrendo um grande mal entendido. A sua mala está comigo e preciso recuperar a minha mala. Podemos nos encontrar?

– Você está com a minha mala? – Armando fez uma pausa, respirou fundo e começou a gargalhar. – Agora entendi o “Wando devasso”!

Em uma hora, Armando e eu nos encontramos na praça central. Trocamos as malas sob muita gargalhada. Armando era prestador de serviços de manutenção e reforma, eletricista, bombeiro, representante comercial de confecções e outras coisas mais. Ele contou que abriu a mala do Meio-Quilo depois do telefonema e ficou surpreso quando viu a medalha. Sujeito honesto, ele cumpriu com sua palavra. 

Sorte do Meio-Quilo. Biro-Biro enviou uma mensagem para ele mais tarde dizendo que estava tudo bem e que viria para o Brasil na próxima semana. Eu recebi pelos meus serviços em vale alimentação. No fim, deu tudo certo. O caso mais escalafobético foi resolvido. Até rápido. Acho que bati o meu recorde!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

2 comentários em “As aventuras do detetive Ted Rocky #07

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