Pílulas de sabedoria da Rita Bee #06

AS QUATRO ESTAÇÕES: APENAS É

O inverno chegou no Reino. A vovó Rita Bee estava preparada. Já havia retirado do seu guarda-roupa os cachecóis listrados coloridos para dissipar o cheiro forte de guardado.  Eram quatro peças feitas de tricô: uma era verde e preto, outra era branco e preto, a terceira era azul e branco e a última era vermelho e branco.

Naquela manhã fria de domingo, sentada na sua poltrona favorita, ela usava o cachecol verde e preto. Acompanhando a sua elegância, estavam o livro das sabedorias antigas que ganhara de presente do amigo Akame, o aroma de maçã e canela no ar e a canequinha branca com o mel orgânico recém preparado com a fruta e as especiarias.  E, claro, a melodia doce dos “Bee Tall’s” que saía da velha vitrola e enchia a sala com erudição e paz. Um convite para o recolhimento. 

A velha abelha filósofa gostava de fazer analogia entre as estações do ano e as fases da vida. Era uma linguagem simbólica de grande riqueza na prática e também uma aplicação do seu conceito de impermanência.

Lina Bee chegou na porta da sala da avó e parou contemplando aquele ambiente. Aqueles fugazes momentos com a sua querida familiar abrandavam as suas dores e o excesso de autocobrança que já cultivava durante sua breve jornada neste plano. A jovem usava o cachecol azul e preto que Rita lhe deu de presente. No ar, a canção semeava as palavras. “Sentado ao lado de uma nascente da montanha, vejo as suas águas surgirem. Ouço a bela música vendo as águas correrem”.

Lina entrou na sala com cuidado para não retirar a poesia do lugar. Sentou-se na poltrona ao lado da avó que lia o livro das sabedorias antigas e se demorava na dedicatória. Só após a neta estar confortável, a filósofa iniciou a conversa.

— Bom dia, minha querida! Você chegou na hora certa. Estava lendo o livro que meu amigo Akame me presenteou há muito tempo. Incrível como toda vez que o leio, aprendo mais alguma coisa. E estou ansiosa para compartilhar o que entendi. Mas antes,  vou preparar o mel aromático de maçã e canela para você. Nova receita da Chef Abelhuda, daquele canal Jornada Gastronômica de Colmeia, lembra-se?

— Bom dia, vovó! Eu me lembro sim! Está um cheiro ótimo!

Lina Bee adorava as conversas filosóficas com a vovó Rita. Ela a considerava muito arguta, sempre disposta a aprender e a ensinar. E reaprender o que ensina. Conectada com as novidades da nova geração. Um exemplo de resiliência.

Servida da doce bebida, a pequena abelha apurou os ouvidos para receber uma dose de sabedoria,  tão doce quanto o mel que bebia.

— Este tempo de inverno me chama para a reflexão. E vejo que o convite se estende para tudo que há ao redor. É uma inteligência  universal, ao que parece. As coisas tendem a se recolher com a intenção de usar com maestria os recursos disponíveis. Veja aquela árvore no jardim — e apontou para a direção da varanda.

Lina se virou sem tirar as duas mãozinhas da sua canequinha branca que ainda estava próxima à boca. Levantando os olhos, era possível ver o céu completamente azul da manhã em contraste com o tronco nu que, em estações anteriores, verdejava e floria no quintal.

— Veja como a maioria das suas folhas caiu e as galhas estão desnudas. Certa vez, quando contemplava uma árvore parecida com esta neste mesmo tempo de inverno, o meu velho amigo sábio me disse que aquele ser vivo, naquele momento, não estava em sua forma mais abundante, mas, sim,  na versão mais forte.

Sentada na poltrona, a jovem buscou beber o mel aromático, como,  também, os belos ensinamentos da velha filósofa. A canção dos “Bee Tall’s” ainda toca na vitrola: “Encontro-me na grama do campo, Filho da Mãe Natureza. Margaridas balançam cantando uma suave canção sob o sol”.

A senhora abelha se serviu de mais um pouco da bebida, fazendo o cheiro de canela subir no ar. Abriu o sorriso quando o seu olfato captou a sensação. A neta observou a reação da avó e percebeu como ela é perita em “estado de presença”. Rita Bee dizia que a relação que temos com o momento presente reflete a forma como lidamos com a vida. Pois a existência se confunde com o Agora. Não com o passado nem com o futuro. Se a perguntassem naquela hora “Como está a vida?”, certamente responderia: “Ela tem um ótimo aroma de maçã e canela!”

— Eu me lembro desta mesma planta florida na primavera — retomou vovó Rita — e transbordando abundância no verão. No outono se tornou melancólica, mudou as cores e agora está em grande parte, desfolhada. Não é uma bela representação de nós mesmos?

— A senhora  quer dizer que estamos  sujeitos às quatro estações do ano, como esta árvore no jardim?

— Tenho exatamente esta ideia, minha querida! 

A vovó Rita abriu um largo sorriso e voltou a saborear o mel orgânico quentinho. Estalou a língua para apurar o paladar. Ela ajeitou o seu cachecol no pescoço e voltou a falar.

— Tenho duas perspectivas, não excludentes, sobre esta analogia. A primeira eu chamo de uma visão macro. Quando nascemos, somos uma pequena abelhinha ansiosa por viver e exalando energia. Como as flores que desabrocham na primavera. Depois vêm a infância e a juventude com todas as descobertas inerentes desta época, manifestando o apogeu da energia física, como as flores no Verão. Daí vem a fase adulta, as questões existenciais e a autorresponsabilidade. Uma fase de mudança de cores, de preparação e transmutação. É preciso que algumas coisas comecem a cair para se renovarem, como as plantas no Outono. E, por fim, a fase em que ocorre total interiorização e o apogeu da energia espiritual. O corpo físico se torna frágil, mas a conexão com a essência da alma se torna forte, como a árvore no Inverno.

Lina Bee ajeitou seu cachecol no pescoço e se inclinou para mais perto da matriarca.

— Puxa, vovó! Uma analogia linda. E agora estou curiosa quanto a sua outra ideia.

— A minha outra visão se refere ao aspecto micro da nossa existência. Quando digo micro, quero dizer mais íntimo. Penso que passamos internamente pelo ciclo das quatro estações independente da fase em que estamos. Há momentos em que estamos com energia para iniciar algo e transbordando otimismo. Uma coleção primavera-verão! Já em outras fases estamos melancólicos e mais introspectivos, passando por alguma revolução interna com ou sem dor. Uma coleção outono-inverno! Considero tudo parte da dança da vida e uma eterna parceria com o Presente. Quando tornamos este momento amigo, tendemos a apreciar as boas venturas, a aceitar os fatos e absorver os eventuais problemas ao invés de resistir a eles. Vale para o que entendemos como bom ou ruim. As coisas são o que são. Apenas esteja aqui. E esta prática trará equilíbrio para o pêndulo que modula nossos corpos sutis. Quando sadio, ele não oscila muito. Nem tanto para o lado do inverno tenebroso, nem tanto rumo à primavera eterna. 

A jovem aprendiz  estava admirada. Ela sentia que era preciso se esforçar para memorizar toda aquela riqueza em forma de palavras que a experiente abelha proferia aos montes.

—Vovó… como isso é bonito! E também desafiante. Principalmente a parte de acolher os momentos ruins. Passar pelo inverno é bem complicado!

Rita Bee deu a última golada no mel aromático em sua canequinha branca e disse:

— O inverno eterno é uma distorção, assim como a primavera eterna. Temos a luz e a sombra. Neste plano, precisamos do contraste para poder enxergar. Se não houver escuridão, não haverá luz. Os ciclos são a sabedoria da vida, minha querida neta!  Ela se comunica conosco por uma linguagem simbólica e quer que busquemos o equilíbrio do nosso pêndulo para que nos tornemos Mestres de nós mesmos. Esta foi uma linda lição que meu sábio amigo me deu: “A dor vai vir de qualquer forma. Não pegue um escudo. Pegue uma guia e uma sela. Domestique-a, direcione a sua energia”.1

— Uau! Vou levar essa lição comigo também! Que sorte eu tenho por ter a sua sabedoria para passar o meu inverno, assim como esse cachecol que me deixa mais quentinha, não é?

A vovó Rita gargalhou.

— E você fica muito elegante com este cachecol azul e preto. Combina com o meu, veja! Estamos muito elegantes para passar o inverno.

PS: aqui está a dedicatória no livro de sabedoria do amigo Akame para Rita Bee.

Para minha amiga zunidora Rita.

Os ciclos são a sabedoria da vida. Registre, aprimore e tome consciência do presente. Transcrevo a seguir o poema que recitei naquela ocasião festiva. Sei que você gostou dele.

“Andávamos tão invernos,

que qualquer outono nos fazia acreditar

não existir primaveras.

Mas ouvimos,cá dentro,como uma brisa despretensiosa:

“Vai passar. Vocês verão”. 2

Um bom encontro. Do amigo mochileiro Akame.

1passagem de  “How to Live” de Derek Sivers citado por mensagem de Renato Stefani, criador do Hack Life.

2poema de Carolina Meyer Silvestre.


Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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