P.I.S.T.A. #13

LEGADO

Certa vez Rubem Alves escreveu: “Vou plantar uma árvore. Será o meu gesto de esperança. Mas o mais importante de tudo: ela terá que crescer devagar. Tão devagar que à sua sombra eu nunca me assentarei. O primeiro a plantar uma árvore à cuja sombra nunca se assentaria foi o primeiro a pronunciar o nome do Messias”.

Eu considero que a graça de ler textos como de Rubem Alves ou poemas como de Manoel de Barros é não tentar desvendar o que o autor quis dizer. E sim observar a emoção que nasce ao ler as palavras conectadas. Afinal, cada um de nós tem suas próprias bagagens, suas próprias ferramentas, seus próprios recursos para montar o quebra-cabeça da própria vida.

A citação acima me trouxe esperança e a seguinte ideia: legado.

Eu me peguei pensando nos gestos de caridade que fazemos. Mas digo os gestos genuínos, aqueles que você faz sem que ninguém precise saber, aqueles em que ocorre uma satisfação interna, entende? Sem gerar o sentimento distorcido de superioridade espiritual ou o discurso oculto da mente  “faço porque sou obrigado senão minha alma sofrerá pela eternidade” ou ainda “faço para que me reconheçam como bom”. 

Enfim, retomando a caridade genuína. Eu identifiquei que mesmo gerando um sentimento de satisfação, algo ainda fica solto como se lá no fundo, uma voz “espezinhante” dissesse : “Isso não vai mudar nada, seu tolinho!”

Essa voz que espezinha quer mudar o mundo inteiro. Agora! Quer acabar com a fome de todos no mundo, quer acabar com as desigualdades sociais em todo o mundo, quer ver todos seres humanos evoluindo juntos como espécie (pra quem é mais científico) e como irmãos (pra quem é mais holístico). Quer plantar a árvore e assentar na sua sombra.

Aí a frase do Rubem Alves mexeu comigo.

“O primeiro a plantar uma árvore à cuja sombra nunca se assentaria foi o primeiro a pronunciar o nome do Messias”.

A mudança começa é no pequeno mesmo. E acreditando que a pequena mudança é o anúncio de um sonho de dias melhores (“Vivemos esperando dias melhores…” lembrei da canção do Jota Quest). O anúncio da esperança. Do Messias.

É no nosso microcosmo de convivência que tudo começa. E o primeiro estágio deste microcosmo somos nós mesmos. Arrisco dizer que só passando pelo primeiro estágio é que vou estar apto a pronunciar o nome do Messias, a fazer caridade genuína e falar sobre o amor genuíno. Quando mudo dentro, mudo fora. Por isso que acredito, primeiro o meu foco é na mudança interna. Pois a minha mudança vai se refletir em atos e reverberar no exterior, mais precisamente no meu microcosmo de convivência. E por essa linha, acredito que pode ocorrer pequenas mudanças na família, nos amigos queridos, nos colegas de trabalho, num departamento, e por aí vai. Mais pela mudança da própria percepção das coisas do que pelos outros.

Recebi do querido amigo Filipe a citação de um jornalista norte-americano: “Todo mundo quer salvar o mundo. Ninguém quer lavar a louça”. Concordei e brinquei que acrescentaria na frase “e lavando a louça se começa a salvar o mundo”. O amigo Filipe, dotado de retórica ímpar, escreveu: “Ou: como fazer o enormemente  improvável sem antes fazer o que é pequeno, porém, plenamente possível?”

Daí a ideia do legado. A frase de Rubem Alves me transmite a ideia de que tudo está conectado. A vida está entrelaçada como numa rede. E quando digo a vida me refiro ao quadro geral, ser humano e natureza. O propósito de cada um é deixar um legado. Deixar algo de valor para outra pessoa. No gesto simples de uma caridade. Nos gestos de amor genuíno. No gesto de preservar a natureza. De amar a natureza. Plantar a árvore e vê-la crescer devagar, na esperança de que a sombra possa ser usufruída por crianças de uma geração vindoura. 

O pequeno gesto de agora, por mais que possa parecer inútil segundo aquela voz “espezinhante”, pode ser a semente de uma árvore frondosa. Talvez não nos assentaremos na sua sombra, mas outros poderão se sentar ali. Talvez construam balanços para as crianças brincarem. E eles estarão melhores por aquela árvore estar ali, plantada por nós, os que vieram antes.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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