As aventuras do detetive Ted Rocky #08

 TED ROCKY NA PINDAÍBA

São tempos complicados. Pindaíba e Pandemia, um dueto agourento para os meus negócios. Os números de casos para investigar caíram vertiginosamente (e já não tinham índices tão altos em tempos normais). Já os casos da doença, ao contrário, aumentaram. Relação inversamente proporcional. As pessoas ficam em casa, assistindo séries em plataformas de streaming e consumindo fake news. Ou gritando em caixa alta nas redes sociais, digladiando no campo virtual usando expressões e hashtags  para culpar ou defender os agentes políticos brasileiros. Uma distopia galopante. 

Estou me virando da maneira que é possível para ter uma refeição por dia e para manter o estoque de álcool 70% e máscara. Tomei a primeira dose da “Pifãizer”. Tive reação, mas fiquei contente com a dor. Afinal, vacinas salvam vidas. Fica a dica de Ted Rocky. Detetive particular. Consciente e vacinado.

Ontem vendi alguns dos meus mangás de Cavaleiros do Zodíaco e de Naruto. Rendeu alguns “merréis”. O mercado “nerd” ainda está em alta. Estou relutante em vender algum Action Figure da minha coleção. Será apenas em último caso, quando for estritamente e “estomacalmente” necessário.

Quando aparece um caso, aceito na hora. O cliente bate na minha porta e eu já me levanto, mascarado e passando o álcool nas mãos, pronto para começar o trabalho sem saber do que se trata. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. Pró-ativo e prevenido.

– Ted Rocky? – perguntou a senhora simpática que apareceu na porta trajando um vestido elegante verde e um chapéu da mesma cor segurando uma bolsa pequena nas mãos. Usava máscara e cheirava a colônia fresh.

– Sim, eu aceito.

– Aceito o quê?

– O seu caso! Podemos ir agora. Você foi roubada? Seu neto foi sequestrado? Sua conta foi hackeada? Uma fake news te difamou?

– Eu perdi a chave do meu carro.

– Ah, então temos um roubo?

– Eu não sei. O carro ainda está em frente a minha casa. 

– E a chave reserva?

– Não tenho. Preciso encontrá-la, senhor Detetive, pois vou viajar amanhã. Um compromisso inadiável. Procurei a chave por toda a tarde de ontem. Por fim, desisti e vim te procurar. Eu ouvi falar de você por um locutor de rádio. Estou sozinha em casa, meu filho foi morar no exterior e meu marido faleceu há um ano. Inclusive, o carro pertencia a ele. Tem significado emocional. Tenho medo de alguém roubá-lo.

A divulgação do meu amigo Zé Carlos, o locutor da manhã, de vez em quando me rende um cliente. Ele sempre faz propaganda para mim. Não me cobra nada por isso. Ajudei-o certa vez na recuperação do seu equipamento de som. Ele ficou muito agradecido na época. É até hoje.

Sobre a história da chave perdida, confesso que hesitei. Não havia roubo, apenas um caso de esquecimento. Talvez por causa de um TDAH. Ou talvez a cliente fosse de Peixes. Mas, como eu disse, estava aceitando tudo.

– E quem cuida de você? – perguntei.

– Mingau.

– Quem?

– Meu gato.

– Ah sim! Bom, como eu disse, eu aceito o seu caso, senhora…?

– Lourdes. Maria de Lourdes.

 – Senhora Maria de Lourdes, vamos a sua casa e eu irei interrogar o Mingau.

A senhora pareceu abrir um sorriso atrás da máscara. Não sei se pelo gracejo (em que pese que observar o felino é parte da investigação) ou pelo fato de eu ter aceitado o improvável caso. 

Fomos até a casa da senhora Maria de Lourdes. Percebi que era uma pessoa entusiasta do esoterismo. Mandalas nas portas, na parede, cheiro de incenso, imagens de Budas por todo lado. Curti a vibe. Eu sou meio esotérico. 

Na sala foi possível observar uma peculiaridade. A casinha do Mingau. Era uma daquelas casinhas de gato que ficam penduradas na parede. Ao redor havia prateleiras, escadinhas e redinhas. Um playground felino. 

E lá estava o Mingau, deitado na sua rede com almofada cor de rosa, como o soberano da casa. Era um gato branco, de olhos azuis vivos. Bicho bonito. Fui em sua direção e fiz uma reverência antes de fazer a pergunta. 

– Senhor Mingau, observou algo de estranho por aqui nessas últimas horas?

Mingau não me deu bola. Esticou as patas traseiras e começou a lamber sua própria virilha. Mas, como eu disse, o gato poderia me dar alguma pista. São os meus métodos únicos. A minha fama precede-me por isso. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. Empenhado no trabalho.

– Senhora – iniciei meu inquérito agora com a humana – me diga qual foi a última vez que viu a  chave.

– Hum… deixe-me pensar. Saí para fazer compras ontem pela manhã. Juro que deixei a chave naquela bandeja branca próxima a estátua de Buda. Fui tomar banho logo depois. Eu desconfio que minha chave foi levada pelos gnomos – sussurrou a última frase a senhora Lourdes.

– Gnomos?

– Sim, aqueles seres místicos que gostam de pregar peças.

– Pode ser, por que não? Leprechauns, quem sabe?

Acreditei na senhora Maria de Lourdes. Eu mesmo já perdi alguns objetos em casa que não encontro outra explicação plausível a não ser se tratar de um plano de subtração arquitetado pelos pequenos meliantes místicos. Sinto falta do meu infusor de chá coador no formato de Husky siberiano.

Aproximei-me da bandeja branca ao lado do Buda sorridente. Nada de suspeito.

– Como era a sua chave?

– Comum, com um chaveiro com fita vermelha e um pequeno guizo.

– Vejamos, você fez compras – comecei meu raciocínio –  vamos abrir a geladeira e os armários da despensa.

-Procurei e não encontrei nada senhor – disse desiludida a minha cliente.

Olhei nos fundos das gavetas da geladeira. Só havia frutas e verduras.  Abrimos os armários embutidos da despensa. Ao abrir as portas, foi possível ouvir o rangido característico das dobradiças trabalhando. Entretanto sem nenhuma pista. Comecei a suspeitar que a chave foi perdida na rua. 

Nesse momento de dúvida, Mingau se movimentou. Saiu do seu trono e percorreu a cozinha. Subiu na mesa e saltou até o armário que estava com as portas abertas, sem dificuldade. Ignorou completamente a nossa presença.  

 – O guizo – pensei alto.

– O que?

– Gatos são bichos curiosos. Tem audição aguçada. Diga-me, desde quando a senhora tem o chaveiro de guizo?

– Comprei ontem na feirinha.

– Com licença, vou precisar desta cadeira.

Levei a cadeira até a sala onde estava o playground de Mingau. Subi na cadeira e consegui alcançar a casinha suspensa. Enfiei a mão no buraco com a forma de cabeça de gato.

Para surpresa e alívio da senhora Lourdes, ouviu-se um tilintar.

– Não foi dessa vez que comprovamos a existência dos pequenos meliantes místicos, senhora – comentei ao descer da cadeira entregando a chave.

“Mingau deve ter ficado curioso com o som emitido pelo guizo do novo chaveiro. Depois que a senhora deixou a chave na bandeja e saiu, o gato deve ter subido no móvel e pegado o chaveiro, levando a chave para a casa suspensa. Alguns minutos depois deve ter ficado entediado e largou por lá o brinquedo”.

A senhora Maria de Lourdes ficou muito agradecida pelos meus serviços. Fiquei sem jeito de cobrar por um serviço tão trivial. Ela insistiu e me presenteou com imagens de Buda e uma mandala muito bonita que está agora adornando meu escritório. Agora com esse cenário, penso em comprar um incenso e dedicar alguns minutos da manhã para meditação. E depois tomar um chá de jasmim. Encontrei meu infusor de chá. Ou ele foi devolvido pelos gnomos.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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