As aventuras do detetive Ted Rocky #09

NATAL DE TED ROCKY

Era final da manhã de véspera de Natal. Estava ouvindo “Jingle Bells” na voz de Michael Bublé naquela plataforma de vídeos gratuita, quando bateram na porta. 

– Ted Rocky? – perguntou a mulher de meia idade com cabelos curtos e tatuagem de guitarra no braço.

– Sim, aqui está Ted Rocky, detetive particular, em carne, osso e espírito natalino. Em que posso ser útil nesta manhã, minha cara?

– O Papai Noel sumiu.

– Como?

– O Papai Noel. Ele não veio esse ano.

– Sente-se, por gentileza. Diga seu nome e me explique o que está acontecendo.

– Eu me chamo Clara, sou sócia proprietária de uma loja de instrumentos musicais que fica no centro. Uma loja comum onde trabalham pessoas comuns. Há dois anos, na manhã da véspera de Natal, apareceu um senhor muito simpático na frente da minha loja. Nunca o tinha visto e os meus colegas de trabalho também não. O senhor ficou por lá, sentado em seu banquinho, perguntando às pessoas que passavam o que queriam de presente de Natal.

– E este senhor estava vestido de Papai Noel?

– Não. Vestia um colete de couro verde puído sobre uma camisa preta do Pink Floyd, calça jeans rasgada, óculos escuros e um sapato marrom desgastado. Mas tinha os cabelos brancos e uma longa barba branca.

– Um minuto. Está me dizendo que este Papai Noel era apreciador do Rock’n’Roll e estava totalmente descaracterizado? O Sindicato permite isso?

– Não era “este” Papai Noel. Era “o” Papai Noel.

– Está me dizendo que o Papai Noel existe e ouve Pink Floyd?

– Sim. Deixe-me explicar.

– Por favor, meu espírito natalino bugou.

– Há dois anos este senhor esteve na porta da minha loja abordando pessoas na rua despretensiosamente. A maioria das pessoas não ligava para o que o velho dizia. Ele não estava atrapalhando em nada e não estava sendo inconveniente. Era muito simpático, então deixei ele ali. Algumas poucas pessoas paravam para conversar com o velhinho. Alguns jogavam moedas pensando ser um mendigo. Fiquei muito curiosa a certa altura e fui até ele. Perguntei se alguém o havia contratado. Ele respondeu que não. Disse que passava pela cidade e decidiu ficar um tempo. Relatou que outras lojas o haviam enxotado e me agradeceu por ter deixado que ele ficasse em frente a minha loja. Finalmente ele me perguntou o que eu queria de Natal. Entrei na brincadeira e disse que queria um patinete. Ele sorriu e depois disso foi embora. Deve ter permanecido em frente minha loja aproximadamente meia hora.

“O que ocorreu no outro dia foi o mais estranho. Não sei como, mas apareceu um patinete na frente da minha casa. O patinete foi algo que pedi por pura brincadeira, era uma coisa que eu queria ganhar quando criança. E nunca tive. E fiquei sabendo que algumas pessoas que tinham falado com aquele senhor também ganharam um presente. Alguns me procuraram para perguntar se eu o conhecia. Quem ele era? Ninguém sabia e ninguém mais viu aquele homem durante todo o ano.”

– Senhora Clara, um caso fantástico. Presumo que este Papai Noel do Rock tenha aparecido no ano passado.

– Sim, apareceu. Da mesma maneira misteriosa, na mesma hora e com as mesmas roupas. Veio cantando “Another brick in the wall”. Quando chegou eu quis saber quem ele era e de onde vinha. O velho sorriu e perguntou se eu havia gostado do presente ano passado. Eu disse que sim, mas como eu já era adulta, doei o patinete para uma criança do orfanato. Eu não tenho filhos e sou solteira. Mas tento ajudar o orfanato da cidade. Ao ouvir isso, o homem abriu um largo sorriso e deu uma longa risada. Não é brincadeira. Eu ouvi um “ho ho ho”.

– Como isso é possível? 

– Não sei. Ano passado ele voltou a me perguntar o que eu queria de Natal. Não pedi nada dessa vez. Fiquei travada. Sei lá! Só pedi saúde e paz! Ficou meia hora na frente da loja e sumiu. Não disse o nome, nem de onde era.  Um cliente na outra semana me falou que tinha conversado com o misterioso velhinho e recebido um violão em casa. Era para o seu afilhado. E o violão era da minha loja! Vasculhei os meus arquivos de venda e, realmente, um violão foi vendido na véspera de Natal. Mas foi pago em dinheiro. Ninguém sabe dizer quem comprou o instrumento. É um mistério.

– E você está aqui hoje porque o bom velhinho não apareceu na sua loja?

– Bom, sim! A manhã está acabando e eu fiquei meio preocupada. Ele pode aparecer a tarde, quem sabe. Parece que estou louca! Mas queria saber mais sobre esse homem misterioso. Pensei em te procurar para me ajudar.

– O meu espírito natalino está apitando! A sua história é extraordinária e vou te ajudar a encontrar o Papai Noel roqueiro!

Saindo do meu escritório fui direto à AspaNoéis, a Associação de Papais Noéis da cidade. Nenhum associado bateu com a descrição do Papai Noel fã de Pink Floyd. Inclusive, todo associado deve trajar a roupa vermelha e branca característica do bom velhinho sob pena de ser excluído da Associação. Os associados que não trabalham em lugares com ar condicionado devem sofrer com as roupas pesadas do velho Noel.

Estava completamente sem pistas para esse caso. Fui à loja da Clara para saber se o misterioso Noel tinha aparecido. Não tinha. As ruas estavam bem cheias. Perguntei à Clara se poderia me indicar alguém que recebeu o presente. Ela me passou o contato do cliente do violão.

Passava do horário do almoço. Saí para comer algo antes de procurar o cliente do violão. Comprei um sanduíche e um refresco na lanchonete da esquina para forrar o estômago. 

Ao sair, fui abordado por um homem simples, com roupas casuais e cabelos brancos, mochila nas costas e de rosto marcado pelo sol pedindo ajuda. Ouvi a história do homem. Tinha acabado de desembarcar. Ele veio com a esperança de ter um trabalho temporário na cidade grande neste fim de ano, já que perdeu o emprego no último mês.  Tinha uma família para sustentar. As coisas não estão fáceis, mas para alguns estão piores. Ofereci a ele metade do meu sanduíche, pois parecia com fome. Ele aceitou. Pensei em levá-lo até a loja da Clara. Talvez ela precisasse de algum funcionário temporário ou conhecesse alguém que precisasse. 

– Infelizmente eu não tenho vaga temporária na minha loja. Mas pode ser que a Confeitaria do Portuga precise de ajudantes. É a confeitaria mais famosa da cidade e provavelmente os pedidos devem ter aumentado no Natal – comentou a senhora Clara quando voltei à loja com o homem.

– Eu conheço o Portuga! Já o ajudei em um caso. A Confeitaria dele é muito boa! Tem os melhores salgados, doces e bolos da cidade! E no Natal, tem os melhores panetones! Gostaria de comer um desses no Natal! Vou te levar lá – disse eu depois do devaneio gastronômico.

Por sorte, o Portuga estava contratando ajudantes temporários. O homem ficou muito agradecido. Disse-me que havia abordado outras pessoas e que eu lhe dei atenção. 

– A sua compaixão me ajudou hoje! Gratidão, senhor detetive! – foram suas palavras na despedida.

Eu sorri e desejei boa sorte. Saindo eu me lembrei que não havia perguntado o nome do homem. Quando me virei para perguntar, ele já havia entrado na Confeitaria para começar a trabalhar.

Voltei à loja da Clara. Ela agradeceu a minha ajuda na busca pelo Papai Noel roqueiro. Já estava convencida de que ele não apareceria naquele ano. Tirou dinheiro da bolsa para me pagar, mas recusei. Não havia nada a pagar. Então, ela convidou-me a cear com o pessoal da loja. Aceitei, afinal seria um Natal diferente. Na maioria dos Natais, eu passo solitário.

No outro dia, ao chegar no meu escritório, havia um panetone dentro de uma cesta em frente a porta. Exatamente o panetone da Confeitaria do Portuga. 

Sorri. De fato, Papai Noel existe. E ele está em cada um de nós quando exercitamos a compaixão e nos sentimos conectados com as outras pessoas e com o Todo.

Decidi ir à Confeitaria e tentar conversar com o Papai Noel Confeiteiro. Apesar de imaginar que não o veria mais. Pelo menos até o próximo Natal. Para renovar nossa esperança na humanidade.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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