Pílulas de sabedoria da Rita Bee #07

VALORES

Era a época do Solstício. Uma época de festa no Reino de Colmeia. Todas as abelhas se reuniam para celebrar a passagem de mais um ciclo de estações. As casas ficavam decoradas com faixas coloridas, uma mais bonita que a outra. As iguarias da época agradavam os estômagos de todas as abelhas: favos de mel crocantes temperados com canela, pólen de flores silvestres e ervas do campo, hidromel para refrescar a garganta e, claro, bolo de mel com nozes. As abelhas cultivavam o hábito de trocar regalos na noite do Solstício ao som do Coral Real de Colmeia. Um espetáculo de cores, gastronomia e arte.

Na casa da vovó Rita Bee não era diferente. Era a época preferida da sábia Abelha e também de sua neta, Lina Bee. 

Naquela noite de celebração do Solstício, Lina Bee se preparava para visitar sua avó, não tendo ainda sua prenda especial para presenteá-la. Durante o ano, a vovó Rita havia comentado que faltava um disco da sua banda preferida, os “Bee Tall’s”, para completar a sua coleção. Era um item muito raro, pois se tratava do primeiro disco gravado há muito tempo. Lina Bee, muito atenta, se esforçou para conseguir o disco. Foi na loja que fica na parte mais remota do Reino, famosa por conseguir relíquias. Zumba é o nome do comerciante. Lina fez o pedido para Zumba no início da última estação. Ele pediu tempo para conseguir, pois sabia que não seria fácil. Por fim, Zumba conseguiu o objeto raro: o álbum “Faça essa Abelha feliz”. Porém, bem em cima da hora da celebração do Solstício.

Lina Bee precisou pegar um UBEE para chegar à loja de Zumba e enfrentar um trânsito caótico por causa do movimento causado pela festa do Solstício. Na loja de Zumba, acertou a despesa combinada (dispendiosa, por sinal), pegou o disco envolvido em um envelope e tomou o mesmo UBEE para voltar ao centro da sua vila. Já estava na hora de visitar a vovó Rita Bee.

Ao chegar na vila, Lina Bee enfrentou um contratempo. Saindo da sua condução, percebeu que muitas abelhas estavam aglomeradas em frente a uma loja, provavelmente procurando comprar um brinde de última hora. Com o tumulto,  muitas delas precisaram passar pela via de veículos e nessa hora, uma pequena abelha distraída tentou atravessar bem no momento em que uma abelha ciclista vinha em alta velocidade no sentido contrário. De onde Lina estava, era possível ver que ocorreria a colisão, mas estava perto o suficiente para evitá-la. Em um salto, Lina Bee puxou a pequena abelha para seu lado, tirando-a da linha de colisão com o ciclista que ainda conseguiu fazer um pequeno desvio sem cair. O susto fez com que Lina e a pequena se desequilibrassem, derrubando ambas na calçada. Com a queda o disco em sua mão foi lançado para o lado, no meio do tumulto. Felizmente, ninguém se machucou. Porém, o disco foi pisoteado. Quando pegou o objeto, ele estava com uma parte quebrada. A pequena abelha e sua mãe agradeceram muito à Lina. Porém, apesar das palavras de gratidão delas, Lina Bee sentiu muita tristeza.

Chegou à casa da vovó Rita Bee sorumbática. Nem o aroma do bolo de mel com nozes que dançava no ar da casa foi capaz de amenizar a sua tristeza. Em sua mão, o envelope meio amassado com o disco quebrado dentro. Vovó Rita a recebeu de braços abertos com uma canequinha de hidromel prontinha para lhe oferecer. Viu que algo tinha acontecido à sua neta.

– Minha querida, o que aconteceu? 

– Ah, vovó, um terrível contratempo! Eu preparei uma surpresa para a senhora e, infelizmente, não vai dar certo. Eu consegui o primeiro álbum dos “Bee Tall’s” que a senhora tanto queria, mas ele se quebrou quando ajudei uma pequena abelha a não ser atropelada.

Lina Bee entregou o envelope para Rita Bee, com as mãozinhas tremendo e soluçando.

Vovó Rita Bee abraçou a neta. Depois olhou para ela e lhe deu o mais tenro sorriso.

– Minha querida, não se preocupe! O disco é o menos importante. Fico contente por você estar bem e por saber que aqueles que você ajudou também estão. Sabe o que é importante, minha neta? São os valores. Valores que deixam o mundo mais maravilhoso. Os valores são como chaves que abrem o nosso caminho. Meu sábio amigo Akame me disse certa vez. Os valores que abrem o nosso caminho são a compaixão, o amor e a sabedoria. Não fique triste por ter compaixão com aquele que estava distraído. A sua compaixão ajudou uma pessoa hoje. Fez brotar mais amor e mais sabedoria. Afinal, estamos todos conectados, lembra-se? Quando temos a ideia de conexão com o Todo, com os seres e a natureza, nós somos capazes de despertar para a fraternidade e sentir compaixão pelo irmão, desejando que ele venha comigo. Não à frente, nem atrás, mas do meu lado.

Lina Bee se acalmou e sorriu para a sua avó filósofa, abraçando-a gentilmente. 

– Sabe, vovó! Os meus maiores presentes são os valores que a senhora me ensina!

Vovó Rita Bee abriu o mais largo sorriso para sua neta. Um sorriso contendo grande alegria.

– É sobre isso minha querida neta. O meu maior presente é saber que você continuará esse legado valoroso. Viu só como o amor é uma via de mão dupla? O equilíbrio entre dar e receber. É sobre isso que estamos celebrando hoje. Sobre compaixão, amor, sabedoria e fraternidade. Um feliz solstício para todos!

Que nossas esperanças sejam regeneradas!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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