P.I.S.T.A. #19

Fonte da imagem: https://cpaq.ufms.br/projeto-de-extensao-sobre-poesia-e-infancia-com-manoel-de-barros-convida-para-abertura-de-suas-acoes/

(AR)RISCO POEMAS

Nesta prosa vou falar de poemas.

Poema é um estilo de escrita fascinante. O caro leitor e a cara leitora devem ter estudado nas aulas de Literatura tantos autores e tantas formas de escrever um poema, seguindo determinada escola e determinada métrica e rimas, etc.

Não me apego a métricas e rimas, gosto de degustar a mensagem por trás das palavras. Não que o autor tenha alguma intenção de transmitir mensagem, às vezes é só expressão de um momento e não quer dizer nada. E isso é que fascina. Considero poema um estilo simples e profundo, capaz de fazer o leitor viajar com apenas uma linha de palavras conectadas que por vezes desafia a razão e a lógica. A graça é o que aquelas palavras causam em você. Cada pessoa terá uma percepção diferente, pois o sentido depende da bagagem que cada um carrega no seu porta-malas interior. O poema para mim tem a função de gerar emoções, sentimentos e reflexões próprias no leitor, o usuário dos versos. E não explicar o que o autor quis dizer.

Meu fascínio com poemas começou quando minha tia Lea me apresentou Manoel de Barros. Um perito das palavras, o poeta das miudezas, capaz de transformar o simples em fantástico. Foi ele quem disse certa vez que achava engraçado tentarem saber o que o poeta Manoel quis dizer com as suas poesias. “Eu não quis dizer nada”, disse ele, “poesia não é para descrever é para descobrir”. E foi ele quem disse também: “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”.

Se o caro leitor e a cara leitora se interessarem, aqui está o link do documentário sobre Manoel de Barros intitulado “Só dez por cento é mentira”: https://www.youtube.com/watch?v=VG4P_mWWAI0

Encantado com Manoel, minha tia que passou a ser também minha instrutora literária (a mulher tem muito bom gosto), me incentivou a ler outros poetas encantadores como os portugueses Fernando Pessoa e mais recentemente Afonso Cruz. Este último escreveu o livro “Vamos comprar um poeta”, recomendado por este que vos escreve. Uma leitura muito gostosa!

Cismei e escrevi. Esta foi a frase que me veio à cabeça quando acumulado de alguma coragem manifestei as letras no papel digital usando a tinta do teclado do notebook pela primeira vez. Longe de mim querer dizer alguma coisa, perto de mim expressar apenas palavras. Palavras me encantam e são muito divertidas. Ótimas companheiras nestas brincadeiras.

Então lá vai, aqui estou brincando de ser poeta, olhando para cima e vendo Manoel. (Ar)riscando poemas.

(RE)DESCONHECIMENTO

Até quando se pensa que houve um aparente fracasso

Ao se tentar descobrir o porquê das coisas.

Mais profundas, mais rasas,

Mais profanas, mais sagradas,

Há um ganho.

Conseguir não descobrir.

Você pensa que desconhece.

E é ignorante até nesse desconhecimento,

Pois consegue não descobrir.

Redesconhece as coisas.

Manoel de Barros quem me ensinou essas ignorãças.

BARBEIRO DE PLANTAS 

O lírio da paz estava amarelado

em suas pontas.

Ouvi a mãe dizer que cortou as pontas do cabelo.

“Para quê?”

“Para crescer mais forte.”

Aparei as pontas das folhas do lírio da paz.

A mãe ficou brava.

“É para crescer mais verde.”

Quando crescer vou ser barbeiro de plantas.

VIAGENS DE PALAVRAS I 

Retrato.

Imagem roubada do vento. 

Re-trato.

Tratar de novo.

Talvez a imagem não ficou do agrado.

Acertiva

Palavra escrita errada.

O certo é assertiva. 

Não existe a palavra com a letra C na língua.

Protesto contra a ortografia. 

Oras, acertiva vem de acerto.

A língua pode não ser acertiva.

Vidente.

O sujeito que sabe o que acontece antes de acontecer.

A mãe é vidente quando sabe que subindo na árvore posso quebrar o dente.

“Não suba aí, menino, vai se estrepar. Vi dente, ali no chão, ó!”

Pintor.

Aquele que pinta, mentor de tinta.

Aquele que colore coisas.

Usa cores para criar vida.

O pai é pintor quando aconselha:

“Envermelha uma vez para não amarelar a vida inteira!”

Pintor de caráter, o pai.

MISTURANÇA

Manoel de Barros é o Rubem Alves da poesia.

Rubem Alves  é o Manoel de Barros da prosa.

Luís Fernando Veríssimo contaria o encontro dos dois.

Eu sou nada não.

Quer dizer, sou.

Sou o cara da misturança.

Misturei uma colher de chá do que li de Alves com uma pitada de Barros e uma colher de sopa de Veríssimo no liquidificador.

Gosto do liquidificador.

Processa os trem e dá um suco diferente.

Eu bebo deste suco. É bom.

Eu acho… 

Para mais poeminhas riscados pela minha audácia de arriscar (“Se precisar errar, erre pela audácia”, diria a personagem Sarah do livro “A invenção das Asas” de Sue Monk Kidd), acesse https://cronicabox.com/category/o-barbeiro-de-plantas/

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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