A ESPOSA APARECIDA

As aventuras do detetive Ted Rocky #10

Dia chuvoso. A barriga roncou tanto que assustou Pink, o ratinho cinzento que de vez em quando aparece e me faz companhia. Ele deve ter pensado que havia comida. Já o surpreendi outro dia levando alguns dos meus cream-crackers. Eu o perdoei, sou assim, não guardo rancor. Aliás, ele é um bom ouvinte. Pobre Pink. Ele se foi, me deixando sozinho naquela manhã.

Estava distraído com os olhos fechados acompanhando a sinfonia orquestrada pelo meu estômago, quando houve uma batida forte na porta. Abri os olhos assustado e me ajeitei na cadeira recém-reformada na capotaria. Uma silhueta larga se formou no vidro. A silhueta entrou e tomou a forma de um homem de meia idade. Robusto, bem robusto. E elegante, para o meu conceito. Usava um chapéu de feltro que combinava com o sobretudo preto. Algumas gotas de água escorriam pelo tecido que parecia muito caro. Muito mesmo. Eu fiquei estarrecido. Mais pela circunstância de aparecer um cliente em um dia de chuva. Eu não costumo receber ninguém em dias chuvosos. E ultimamente, nem em dias ensolarados.

— Ted Rocky, o detetive?

— Sim, cavalheiro, Ted Rocky detetive particular em carne e osso, mais osso do que carne! Em que posso ser útil?

— Minha esposa…

— Ela desapareceu?

— Não, ela apareceu!

— Como é?

— Minha esposa, dada como morta há seis meses, apareceu do nada!

— Veja, cavalheiro, eu conheço alguns profissionais da área mística, posso indicar alguns.

— Não, o senhor não está entendendo. Ela apareceu em carne e osso!

— Huum…

— Eu te procurei para manter a discrição. Minha esposa é conhecida. Trata-se da empresária Aparecida Teixeira.

— A famosa empresária dona das lojas Magazine Cida?

— Essa mesma.

— Sim, eu me lembro do caso. Foi notícia na TV. Aparecida Teixeira, uma empresária bem sucedida no ramo de comércio varejista de eletroeletrônicos e variedades. Ela foi até a zona franca de Manaus para inaugurar uma nova loja de sua rede e algo aconteceu com seu avião que caiu na floresta amazônica. Depois de três dias de busca foi noticiado pela imprensa que ela morreu. Estou certo?

— Sim, esta é a versão oficial. Acontece que o corpo nunca foi encontrado. Veja, senhor detetive, sempre fui um marido dedicado. Dediquei minha vida à Cida e se passaram seis meses desde sua “morte”. Ela sumiu do mapa, não deu nenhuma notícia para mim. Eu segui minha vida, toquei as empresas, ganhei meu dinheiro, gastei o dinheiro…

Meu faro atômico detectou onde aquela conversa iria chegar. O marido gastou o dinheiro da empresa, encontrou um novo amor, afinal a esposa foi dada como morta. E agora ela aparece do nada reivindicando as suas posses.

— Bem, senhor…?

— Nico.

— De Nicolas?

— Não, Nicodemos. Família devota.

— Ok, senhor Nico. Suponho que queira que eu investigue sua esposa para que você garanta o direito das empresas e posses que ela reivindica?

— Sim e não, senhor detetive. Quero que você investigue minha esposa sim, mas porque ela quer doar todos os nossos bens para a caridade.

— Oi?

— Sim, isso mesmo. Minha esposa voltou da Amazônia piradinha. Alguém deve estar por trás disso. Ela deve ter um amante e quer tirar tudo de mim! Preciso da sua ajuda, senhor Ted Rocky!

— Ok, senhor Nico. Você terá a expertise de Ted Rocky ao seu serviço. Começarei imediatamente. Você sabe onde eu posso encontrar sua ex-falecida esposa?

— Ela não se encontra em casa. Vou deixar o número do meu telefone com você. Preciso ir!

Ainda chovia no final daquela manhã. O homem elegante e perturbado pela aparição repentina da esposa saiu deixando uma pequena poça de água no meu escritório. Procurei meu guarda-chuva. Encontrei, mas estava despinguelado. Vesti meu casaco de pano grosso, menos elegante, para enfrentar a rua molhada. Parti para a missão. Ted Rocky, detetive particular. Com o seu mais novo caso inusitado. A esposa Aparecida aparecida. Ou melhor, a esposa Aparecida que apareceu. Enfim, é um trava línguas.

Pesquisei sobre meu alvo na internet usando o meu smartphone. Meu pacote de dados estava como meu pacote de biscoitos. Quase no fim. Por sorte, consegui informações sobre Aparecida Teixeira. Foi bem rápido, na verdade. As notícias nas redes sociais são em tempo real e já apontava onde aquela figura pública estava. Em um vídeo da rede social do Jornal Minha Notícia (o JMN está diversificando os meios de divulgação), Cida Teixeira estava no coreto da praça central vestida de maneira casual e discursando para meia dúzia de gatos pingados. Ela dizia algo sobre desapego material e transcendência.

Cida Teixeira ainda estava na praça central. Eu me aproximei do coreto para me enturmar na turma de gatos pingados.

— Ela é a Cida Teixeira, a empresária que foi dada como morta? — perguntei a um dos gatos que vestia um casaco amarelo e azul e parecia o responsável pelo vídeo que vi na rede.

— Sim, ela mesma. O avião caiu, mas ela não morreu. Ela disse que passou os últimos seis meses com uma tribo da Amazônia onde foi tratada e despertou para a vida. Está há meia hora discursando sobre as desigualdades sociais e a prisão egóica da humanidade.

— Ela pirou?

— Olha, ela não me parece pirada. O discurso faz sentido. É como se tivesse nascido outra vez!

Eu me aproximei de Cida Teixeira para tentar um contato.

— Olá, senhora Teixeira! Uma bela história a sua.

— Sim, meu jovem. Eu tive uma bela oportunidade. Gostaria de passar para todos vocês o que eu vi e senti. A insanidade coletiva que é o ego da humanidade. Tudo é transitório e impermanente, meu jovem. Foi isso que eu escutei e aprendi na tribo dos meus amigos na Amazônia. A natureza é a resposta.

— Uau! Profundo!

— Por isso eu voltei, nascida outra vez, apenas como Cida. Quero me desfazer da maioria dos meus bens materiais, compartilhar com os outros e viver com o suficiente, sem ostentação. As minhas empresas a partir de agora tem o propósito de humanizar outras empresas.

— Uau de novo! E a sua família, o que diz sobre isso?

— Ainda não entenderam. Meu esposo gosta de ostentar o luxo, porém não pretendo deixá-lo sem nada. Pretendo ajudá-lo, se ele quiser.

Não sei dizer como, mas aquela mulher me convenceu. Não estava pirada. Talvez fosse considerada piradinha pelos defensores do conceito mais difundido de felicidade que temos hoje no mundo. Mas para ela, felicidade nem era conceitual, era uma consequência por viver as virtudes.  Deu até vontade de trabalhar com a Cida. 

Passei as duas semanas posteriores investigando Cida Teixeira. Nesse tempo, as redes de lojas “Magazine Cida” passaram a se chamar “Casas Amazônia”. A “Casas Amazônia” era agora empresa multifuncional que atuavam nos segmentos de produtos naturais, dedicada ao desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente, ao desenvolvimento de energia renovável, de gestão empresarial humanizada. Tudo focado na ideia da economia cíclica. Nenhum funcionário foi demitido, todos se adaptaram à nova filosofia. 

Meu cliente, Nicodemos, passou as duas semanas me cobrando se eu tinha descoberto algo sobre o amante da esposa Aparecida. Não havia amante, pelo que descobri, havia apenas mudança de consciência mesmo. O senhor Nicodemos ficou muito perturbado com as minhas informações. E um tanto decepcionado. Não me pagou. Tive informações de que fugiu da cidade. Parece que a Cida não se importou.

No fim deste caso, apesar das mãos abanando, senti-me bem. De alguma maneira, fui pago com a esperança de que podemos melhorar um pouco a humanidade com o que estiver ao alcance de cada um de nós para melhorar a si mesmo. Rocky. Ted Rocky, detetive particular e aspirante a filósofo.

Fiz amizade com a Mestra Cida, eu a chamo assim agora. E também consegui abrir um crediário nas Casas Amazônia. Não fico sem o meu chá de Jasmim!

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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