Às companheiras e aos companheiros, formandas e formandos holoterapeutas

P.I.S.T.A. #30

Meus caros companheiros, teci algumas palavras para este momento da nossa microrrede de conexão que é parte da Grande Rede do Universo. Para escrever este texto, segui a ideia da Talita. Ela sugeriu falar sobre a missão daqui pra frente, agora formados terapeutas. O assunto me tocou e as linhas para costurar esse retalho na colcha de nossas vidas foram aparecendo. Inclusive, deixo a palavra aberta para a Talita e os demais colegas se manifestarem quando quiserem.

A linha que primeiro entrou na agulha foi a ideia da missão que temos com nós mesmos. Ouvimos por diversas vezes do nosso mestre Luiz: o terapeuta deve andar pelos próprios caminhos escuros, ou seja, ele próprio deve experienciar a sua sombra para depois de assimilada, escutar e ver a sombra de outrem.

Portanto, a mudança necessariamente tem que acontecer dentro da gente primeiro. Este curso foi uma luz para o nosso avesso. A jornada foi de autodescoberta e chegamos a lugares nunca antes visitados no nosso porão (ou sótão, como queiram) escuro. Arrumar aquela desordem, limpar o pó acumulado por cima de mobílias do inconsciente coletivo, de estruturas arquetípicas e principalmente, retirar o pó do espelho que acumulou tanta sujeira. Não nos reconhecemos. E esse desconhecer quem sou é o primeiro passo para a libertação interna. Com coragem, passo a perguntar para aquele que vejo: quem é você? Acredito que todos os companheiros passaram por algo semelhante e repercutem até hoje essas conversas internas, e quiçá, repercutirão enquanto caminharmos por esta terra, pois o autoconhecimento é uma missão constante. Cumpre-se uma etapa, e outra já se alvorece. Sobe morro, desce morro, como Sísifo rolando as rochas pelas montanhas.

Sísifo, segundo a mitologia, foi o homem castigado pelos deuses a cumprir a labuta de eternamente carregar uma rocha até o topo da montanha, para vê-la descer ao final do dia e ter que recomeçar o ciclo. O filósofo Albert Camus em sua obra o mito de Sísifo, conclui que devemos imaginar Sísifo feliz. Um paradoxo que é possível de explicar, porque fazemos isso todos os dias. A jornada é o que importa, não é o final dela. O coração se fortalece a cada descoberta, a cada rolar de rocha morro acima. E como a missão do autoconhecimento é, sem dúvida, constante (pois somos uma contradição ambulante), a rocha desce com toda força da gravidade. Porém, para aqueles que são como Sísifo, estes descem pelo vale enfrentando os desafios dos pêndulos emocionais e ressurgem mais uma vez, como Fênix que se deixa queimar para renascer das próprias cinzas.

É assim, meus caros, que vejo a primeira (e mais importante) etapa da nossa missão perene. Uma mudança interna, pequena que seja, de cada vez. E, assim munidos dessa consciência, vem a próxima etapa, a linha que trespassa o pano e cria forma: a ação. Percebam que é possível e talvez realístico, que perambulamos entre estas etapas. Hora bem munidos de consciência, outra no abismo da depressão. Como eu disse, somos contradições ambulantes, porém o exercício do autoconhecimento fortalece nossa mente e tendemos a permanecer menos tempo no fundo da caverna escura (chamo de flexões de mente).

Vou invocar a força do mestre do essencial, o escutador de essências Rubem Alves, para me ajudar a costurar essas linhas na colcha.

Certa vez, ele escreveu: “Vou plantar uma árvore. Será o meu gesto de esperança. Mas o mais importante de tudo: ela terá que crescer devagar. Tão devagar que à sua sombra eu nunca me assentarei. O primeiro a plantar uma árvore à cuja sombra nunca se assentaria foi o primeiro a pronunciar o nome do Messias”.

Eu me peguei pensando nos gestos de caridade que fazemos. Mas digo os gestos genuínos, aqueles que você faz sem que ninguém precise saber, aqueles em que ocorre uma satisfação interna, entende? Sem gerar o sentimento distorcido de superioridade espiritual ou o discurso oculto da mente “faço porque sou obrigado senão minha alma sofrerá pela eternidade” ou ainda “faço para que me reconheçam como bom”.

Enfim, retomando a caridade genuína. Eu identifiquei que mesmo gerando um sentimento de satisfação, algo ainda fica solto como se lá no fundo, uma voz “espezinhante” dissesse : “Isso não vai mudar nada, seu tolinho!”

Essa voz que espezinha quer mudar o mundo inteiro. Agora! Quer acabar com a fome de todos no mundo, quer acabar com as desigualdades sociais em todo o mundo, quer ver todos seres humanos evoluindo juntos como espécie (pra quem é mais científico) e como irmãos (pra quem é mais holístico). Quer plantar a árvore e assentar na sua sombra.

Aí a frase do Rubem Alves mexeu comigo.

“O primeiro a plantar uma árvore à cuja sombra nunca se assentaria foi o primeiro a pronunciar o nome do Messias”.

A mudança começa é no pequeno mesmo. E acreditando que a pequena mudança é o anúncio de um sonho de dias melhores.

É no nosso microcosmo de convivência que tudo começa. E o primeiro estágio deste microcosmo somos nós mesmos. Arrisco dizer que só passando pelo primeiro estágio é que vou estar apto a pronunciar o nome do Messias, a fazer caridade genuína e falar sobre o amor genuíno. Quando mudo dentro, mudo fora. Por isso que acredito, primeiro o meu foco é na mudança interna. Pois a minha mudança vai se refletir em atos e reverberar no exterior, mais precisamente no meu microcosmo de convivência. E por essa linha, acredito que podem ocorrer pequenas mudanças na família, nos amigos queridos, nos colegas de trabalho, num departamento, e por aí vai. Mais pela mudança da própria percepção das coisas do que pelos outros.

Daí a ideia do legado. A frase de Rubem Alves me transmite a ideia de que tudo está conectado. A vida está entrelaçada como numa rede. A nossa colcha de retalhos, a nossa microrrede de conexão. A relação ser humano e natureza. O propósito de cada um é deixar um legado. Deixar algo de valor para outra pessoa. No gesto simples de uma caridade. Nos gestos de amor genuíno. De dar um sorriso e bom dia para quem trabalha contigo. De agradecer pelos serviços prestados de quem serve. No gesto de preservar a natureza. De amar a natureza. Plantar a árvore e vê-la crescer devagar, na esperança de que a sombra possa ser usufruída por crianças de uma geração vindoura.

O pequeno gesto de agora, por mais que possa parecer inútil segundo aquela voz “espezinhante”, pode ser a semente de uma árvore frondosa. Talvez não nos assentaremos na sua sombra, mas outros poderão se sentar ali. Talvez construam balanços para as crianças brincarem. E eles estarão melhores por aquela árvore estar ali, plantada por nós, os que vieram antes.

Vejam que bela missão! A terapia permite realizar todas essas coisas. E acrescento que apenas pelo caminho do autoconhecimento e de abraçar a verdade que é a dinâmica da vida (“vida é movimento”), poderemos realmente encará-la. Pois assim como a missão é cheia de intempéries, também é a vida: cheia de mudanças. Por isso a missão é constante. E a linha continua a cozer a nossa colcha de histórias…

Cito uma frase do imperador e filósofo Marcus Aurelius, um dos grandes da linha filosófica do Estoicismo (eu tenho atração pelas ideias estoicas, considero o Estoicismo o Manual de Boas Práticas da vida). Nesta frase, Marcus Aurelius versava sobre o Amor Fati. Vejamos:

“Assustado com a mudança? Mas o que pode existir sem ela? O que está mais próximo do coração da natureza? Você consegue tomar um banho quente e deixar a lenha como era antes de queimar? Comer alguma coisa sem transformá-la primeiro? Qualquer que seja o processo vital, será que pode ocorrer sem que algo seja alterado?

Não percebeu? É o mesmo que acontece com você – e é vital para a natureza.”

Encontrei a definição de Amor Fati no material que recebo do Joaquim, um estudador e conhecedor de filosofia dos bons (ele tem um perfil de filosofia no Instagram chamado Horizonte Ampliado e trocamos mensagens em um grupo de filosofia no Telegram). “Amor Fati é a prática de aceitar e abraçar tudo o que aconteceu, está acontecendo e ainda está para acontecer. É entender que a natureza do universo é a mudança e que, sem as mudanças, não existiríamos, nossos relacionamentos não existiriam, não riríamos, choraríamos, amaríamos, criaríamos ou cresceríamos. Não experimentaríamos nada disso.”

Na mesma linha prática, o nosso conhecido Viktor Frankl escreveu:

“Você não pode controlar o que acontece com você na vida, mas sempre pode controlar o que sentirá e fará sobre o que acontece com você.”

É assim que usamos os conceitos da filosofia e terapia. (Às vezes penso que se confundem). Não exercer mais controle sobre o mundo, mas assumir a responsabilidade de como o vemos e respondemos a ele. Ter essa percepção aguçada e assimilada, torna-nos aptos a dedicar a outra etapa da missão: passar para os outros o que temos assimilado dentro. E assim, penso eu, conseguimos ser terapeutas dentro e fora. Seguimos a jornada, subindo e descendo a rocha pelos morros da vida.

Como disse Marcus Aurelius:
“Aceite as coisas às quais o destino o prende e ame as pessoas com quem o destino o une, mas faça isso de todo o coração.”

Continuemos costurando a nossa colcha, com os retalhos de todos que passam pelo nosso caminho, honrando e respeitando os saberes que cada um deixa conosco (não há saber maior ou menor, há saberes diferentes, como aprendi com o Rios) e que nos ajuda a enriquecer nosso ser, ampliar nossa consciência. E a linha que mantém a colcha da vida unida, a Grande rede do Universo é o Amor. Cultivemos o Amor.

Finalizo com uns versinhos meus:

Gaita que sou
Sopro divino passa por mim
E eu faço melodia
E eu faço poesia
E eu faço…

Isso é a vida
Orientar divino ar
que passa por entre rochas ancestrais

Pelos (des)caminhos, o avesso é mais intenso.


Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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