Asas

P.I.S.T.A. #31

— Uau! O que são aquelas pedras penduradas naquela árvore? — perguntou agitada a criança, apontando para a margem da estrada.

— Hohohoho, não são pedras, minha jovem. Aquilo são casulos — respondeu a bela borboleta que a acompanhava.

— Casulos?

— A árvore que você apontou é chamada de “Árvore da Vida”. Nós, borboletas, somos seres que passamos por metamorfose. Se olhar bem, você verá que aquele lugar é a morada das lagartas. As lagartas são a primeira fase de nossa espécie. Ali, na Árvore da Vida, elas se alimentam e com o tempo, se enrolam em casulos para tomar uma decisão: deixar toda a vida que conhecia para trás e abrir as asas. Porém esta é uma decisão muito complicada, pois a metamorfose é algo muito sofrido. Muitos de nós não nos tornamos borboletas por ter muito apego à vida que levava. E, sobretudo, medo da nossa própria escuridão. Nossa gente tem uma admoestação para quem se inicia no processo: “Não há despertar sem dor, alguns farão de tudo para evitar enfrentar a própria alma. Porém ninguém ganha asas por imaginá-las nascer, mas sim quando enfrenta a própria escuridão do casulo”.

— Oh! Mas isso dá muito medo! — retrucou a pequena.

— Certamente! No seu mundo há muito medo. Vocês relutam em olhar para dentro. Meu povo crê que a metamorfose é uma batalha interna, mas obviamente a preparação é indispensável e, certamente, a tutoria que vocês chamam de amizade é a principal ferramenta para se preparar bem uma lagarta. Compartilhando experiências, uma lagarta pode se motivar a trilhar a jornada interna na treva do casulo.

— Mas, senhora borboleta, o que vem depois de sair do casulo e abrir as asas?

— O que vem depois do suspiro? Vem a sabedoria, minha querida. E talvez seja isso que vocês chamam de alma. As sabedorias de tantos casulos rompidos, de asas coloridas que voaram e de tantas asas que perderam as suas cores, acumuladas em um núcleo interno que brilha na eternidade. Este conceito é a sabedoria do meu povo. Aqui nós vivemos e professamos a nossa cultura. Somos de fato, muito ensimesmadas e nunca havia cogitado estender este pensamento para a tua gente. Fora da Colina, os forasteiros se digladiam e procuram poderes inescrupulosamente. A sua conversa comigo é prova que podemos ter esperança de integrar todas as coisas novamente.

A criança sorriu e seguiu saltitante pelo caminho que se iluminou, rumo à Colina.

Publicado por Luís Fernando

Desde criança tive gosto por escrever e desenhar. Quando descobri Luís Fernando Veríssimo na minha adolescência, carinhosamente chamado por mim de Xará Veríssimo (mas isso ele não sabe, ou talvez já saiba!), formou-se o tripé atômico Leitura-Escrita-Desenho. Nas andanças da vida, meu caminho se desviou um pouco dessa área, graduei-me em Farmácia. Com muita ajuda de terapia e autoconhecimento, (re)descobri ser essa a minha paixão e meu chamado. Atacar de escritor, pelo menos por aqui. Na hora de escrever, eu misturo as minhas observações de mundo com os estudos sobre filosofia, livros que li dos diversos autores que me inspiram, animes e filmes que assisti, bato tudo no liquidificador e compartilho. É bem legal! A minha intenção é que o produto do meu trabalho possa tocar a alma de outra pessoa, assim como toca a minha. Espero que você se divirta ao ler as minhas histórias como eu me diverti ao escrevê-las.

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