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Como surgiu a ideia do blog?

Escrever para me divertir. “E se alguém pudesse ler, também se divertiria? Quem sabe?”

Sabe quando você está no piloto automático? Você tem uma rotina, tem um trabalho, tem os afazeres domésticos, mas tudo meio cinza? Nessas alamedas de penumbra que a vida nos proporciona, tive o meu contato com aquele ser sábio que habita nos confins do coração. Aquele que aparece quando as coisas estão vazias na mente. Você deve saber de quem estou falando. Se não, pelo menos uma vez na vida você ouviu essa voz, mesmo que em um lampejo. Estou falando da voz da intuição.

Nas minhas terapias (porque tive que fazer muitas terapias), fui convidado a meditar. Nada fácil para um iniciante como eu, que pensava que meditar era silenciar completamente a mente. Minha nossa, a mente é uma tagarela! Com o tempo, você percebe que não se trata de silenciar os pensamentos, mas sim de observá-los e deixá-los passar. Nesse meio tempo, algo essencial conversa com você. Vai por mim, uma coisa acontece. Tente! Ocorre uma clara contraposição entre o pensamento acelerado conduzido pela mente e uma sensação de paz conduzida pela intuição. Quero deixar claro que o pensamento, a mente que alguns conhecem como o Ego, não é algo ruim. Ela deveria ser uma ferramenta para nós e não o timoneiro. Do outro lado, a voz que habita nos confins do coração é chamada de muitas coisas. Intuição, Eu Superior, Eu Divino, Deus. Essa me parece ser a chefe, a líder da “bagaça”. Eu gosto de pensar que é a minha parte sábia, a minha parte conectada com o Todo, um Eu Superior. Mas vejam, é uma parte. Não tenho a pretensão de me comparar com nada divino. Eu gosto de ler sobre temas exotéricos, filosofias e todo o pacote zen, e pelo que entendi eu sou um ser bem complexo que veio aqui como uma ideia do TODO para evoluir a minha consciência, ou seja, sou parte do TODO. E, pelo que também entendi caro leitor do outro lado da telinha, você também é. Pelo meu trabalho de expandir a minha consciência, já ajudo na somatória de expansão de consciências no mundo. Olha que sensacional!

Então, por que fazer o blog? Lá na seção “Sobre mim” você verá que quando eu era jovem, muito mais jovem do que hoje (quem pegou a referência?) gostava de escrever e desenhar. O pequeno Luís tinha mais conexão com o sábio do coração. Contudo, penso que o caro leitor que lê estas linhas irá concordar e talvez até se identificar, o caminho se desviou um pouco. Com o passar dos anos, os condicionamentos sociais, obrigações, diploma, profissão, ser bem sucedido e ter dinheiro começaram a permear a vida do pequeno Luís. A sorte é que existem Professores neste mundo. E digo Professores com P maiúsculo, pois foram capazes, digamos assim, de encapsular a essência do pequeno Luís. Eu me lembro de duas professoras de Português, Vânia e Sônia, que incentivavam os alunos a escrever redações e a ler livros. E lá foi o pequeno Luís tomar gosto pela leitura. Lia livros da Editora Ática da coleção “Para gostar de ler” e livros de crônicas de Luís Fernando Veríssimo (se leram “Sobre mim” sabem que eu o chamo carinhosamente de Xará Veríssimo, o estilo de escrita dele é minha inspiração, acho o máximo!) Enfim, desses muitos trabalhos de Português nasceram dois personagens na época que estão neste blog. O detetive particular Ted Rocky e a abelhinha Lina.

E aqui está o porquê, meu caro leitor que já deve estar cansado de acompanhar o meu relato maçante. Fui chamado pela minha essência recém desperta daquela “cápsula” para fazer algo que me deixa em Flow: escrever e criar histórias (até me arrepiei enquanto escrevia isto). Sinto que é algo que pode ajudar as pessoas. Algo que pode melhorar o dia de alguém. Então, pensei, por que não?

Um livro que me marcou muito nessa jornada até aqui se chama “Roube como um artista” de Austin Kleon, indicado pelo mestre da criatividade brasileira Murilo Gun (se não o conhece, procure saber sobre esse cabra!) Já no começo do livro, Kleon cita uma frase atribuída a Pablo Picasso: “Arte é furto.” Basicamente ele demonstra o enunciado de Lavoisier na arte dizendo que nada é original. Ele diz: “Todo trabalho criativo é construído sobre o que veio antes.” Não sei você, mas isso faz um puto sentido pra mim.

Lá no capítulo 3, eu li: “Escreva o livro que você quer ler.” E ele continua: “Escreva sobre o que você gosta e não sobre o que você conhece.” Acho justo. Eu sou graduado em Farmácia e estou como servidor público no meu município. Poderia escrever sobre muitas coisas técnicas da área, pois tenho conhecimento. Entretanto, não quero. Quero escrever sobre as aventuras de um detetive particular brasileiro que desvenda casos dos mais inusitados em meio a uma crise econômica ou escrever uma fábula que contém uma mensagem mais profunda sobre autoconhecimento e filosofia tendo como protagonistas uma vovó abelha chamada Rita Bee e sua neta Lina Bee ou ainda escrever sobre as peripécias de torcedores de futebol apaixonados pelos seus times. Sobre isso eu gostaria de escrever. E foi o que eu fiz.

Para finalizar o meu raciocínio (prometo que estou acabando), Austin Kleon diz: “Faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas.”

Eu não saberia dizer se o caro leitor julgará o meu trabalho bom, se o conhecer. Tudo bem! Para mim, ele é desafiante, há falhas e há melhorias. Criar e alimentar este site/blog é um desafio. Começar a escrever foi um desafio. Encorajado pelas passagens do livro do Austin, foi durante um fim de semana em Lavras Novas com minha amada esposa Talita, tomando um vinho em um chalezinho (Lavras Novas é um belo lugar, tem uma energia muito gostosa, eu recomendo) e também encorajado por ela que eu comecei a escrever os contos enterrados no fundo da cabeça criativa do pequeno Luís com uma nova roupagem. Ressurgiram Ted Rocky, a abelhinha Lina e outros personagens que já estavam lá no arquivo da mente.

O “como” compartilhar foi iluminado pela minha prima Luanda em uma conversa casual, dias depois. Quando eu disse a ela que começara a atacar de escritor ela perguntou: “Você tem intenção de que as pessoas vejam? Se sim, eu sugiro a você criar um blog.” Pronto, olha eu aqui!

Enfim, penso que o trabalho começa a se tornar bom na medida que eu sinto o aumento da minha vibração e entro em Flow. Ao deixar a minha energia vibrando alto, eu me ajudo e por tabela ajudo quem está ao meu redor. Eu acredito nisso.

Se você leu até aqui, gratidão. Aproveito o momento para prestar gratidão às minhas professoras, à minha prima, à minha esposa e a todas as pessoas que me ajudaram na minha jornada.

Eu sou o Luís Fernando Gurgel e escrevo aqui no CrônicaBox. Faço votos que você do outro lado da telinha se divirta.

OLHE PARA CIMA (de vez em quando)

P.I.S.T.A. #24

No fundo, lá no fundo, eu tenho uma ideia de que as coisas que passamos servem para nos ajudar a SER mais humano. Viemos para cá para isso, não é mesmo? Não foi para ser quartzo rosa, uma samambaia, uma flor de laranjeira ou um cachorro (que por vezes acho que são melhores que certos que se dizem humanos).

A filósofa e professora Lúcia Helena Galvão (caro leitor, procure saber sobre esta mulher!) disse em uma palestra que um ser humano que atinge um grau superior de consciência pode iluminar muitos outros, só por eles existirem. O fato de ter existido Sócrates, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Sidarta Gautama (o popular Buda), Jesus de Nazaré entre tantos outros seres humanos são exemplos de que nós temos em quem nos mirar. Não tenho a presunção (e acredito nem você), comparar-me a tais figuras extraordinárias. Mas penso que eles deixaram um bom Manual para leigos. Por vezes incluímos essas pessoas no imaginário dos Super Humanos, mas eles foram humanos, no sentido puro da palavra. A professora Lúcia Helena diz na palestra que é como se Buda subisse numa alta montanha e desse tchauzinho para nós aqui embaixo convidando a subir o tortuoso caminho. Ele diria: “Subam, vejam como eu subi. É possível!” Porém, o caro leitor há de concordar, olhando para cima é um “fruta” desafio!

Por que estou nessa viagem toda na PISTA? Porque estas últimas semanas me derrubaram as “barreiras das AM FM e dos elevador”. Senti-me muito pesado. Minha frequência vibrou baixo. Em um momento eu estava centrado, buscando o baricentro e tentando ficar por ali e de repente… Pimba! Caí. O contexto do mundo externo influenciou, com certeza. As energias negativas estão rondando a todos nós. 

Não devo colocar culpa em ninguém, nem nas situações. Virão dias que estaremos tristes e irritados. Pra caramba. Mas aprendi com o Pathwork que existe um negócio chamado autorresponsabilidade.

Ouvi da Professora Lúcia Helena outro dia (estou dizendo, cola nessa mulher!) um saber da escola de filosofia dos estoicos, sendo um dos seus principais pensadores o filósofo Sêneca. Dizia-se que os estoicos seguiam a ideia do sereno contentamento. Este pensamento é para mim a ideia do equilíbrio que eu tenho buscado.

E tem tudo a ver com a Lei Universal do Ritmo, uma das sete leis universais segundo a filosofia hermética (livro que fala disso se chama “O Caibalion”). Em suma, a Lei do Ritmo diz que “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação” (trecho retirado na íntegra do livro O Caibalion).

O que quero comunicar é que estamos todos dentro desse pêndulo chamado vida. Inevitável. Lá nos estudos herméticos é dito que com uma grande dose de treinamento da consciência (que eu chamei de flexões de mente) podemos neutralizar as vibrações negativas. Fixar no topo da página as boas vibrações e olhar para elas quando as vibrações negativas chegarem. Olhar para o topo da montanha e dar tchauzinho para Buda (nó, que viagem!). Mas, claro, isso é mais provável de acontecer se o pêndulo estiver oscilando menos (lembra-se do Sêneca e o equilíbrio?).

Os hermetistas dizem que não é possível destruir a onda das vibrações negativas, a Lei Universal do Ritmo é bem clara. O que os estudantes avançados fazem, segundo o livro, é deixar o pêndulo mental vibrar para trás no plano inconsciente. Eles conseguem recusar as vibrações negativas colocando-as de propósito no inconsciente sem que a Consciência seja afetada. Imagine que é como se estivéssemos pulando uma onda do mar (a maioria de nós já fez isso no ano novo, não é?). Pulamos, mas a onda passa por baixo de nós e continua seu caminho; depois ela se recolhe e volta para o mar. Os hermetistas chamam isso de Transmutação Mental. A Transmutação Mental é o Santo Graal da filosofia hermética, o nível Pós-doc de toda a parada, a faixa preta décimo Dan.

Parece papo de um doido, mas eu acredito nesse trem. E, como disse a professora Lúcia Helena, já existiram seres humanos capazes de realizar isso, então é possível! Vamos tratá-los como faróis para a humanidade. Bom, pelo menos posso tentar dar um tchauzinho para eles mais de perto, olhando para cima de vez em quando (porque não posso deixar de focar no meu caminho a frente) e tentando chegar o mais próximo do topo da montanha que eu conseguir! 

Se o caro leitor do outro lado da telinha chegou até aqui, gratidão! Tenha certeza que escrever isso, especialmente hoje, me fez sentir melhor! “Sortei” os trem acumulado, sô!

Um salve! Namastê! Até a próxima PISTA!

SOBRE O LIVRO UTOPIA PARA REALISTAS

P.I.S.T.A. #23

Deixarei alguns trechos do livro do historiador holandês Rutger Bregman que escreveu sobre um novo olhar para o desenvolvimento de políticas sociais e, por consequência, humanas. Penso que somos seres políticos, naturalmente divergentes, mas com capacidade de debater ideias.

Um preâmbulo sobre a obra. Rutger defende que o sistema capitalista é o motor do progresso, mas falha ao entrar na seara de justiça social. Para o autor, com o avanço irresistível do capitalismo, hoje temos condições de aplicar e viver a justiça social que se encontra sempre a um horizonte de distância. Dentre as propostas, Bregman propõe a renda básica universal, a erradicação da pobreza e a semana de trabalho mais curta, apresentando uma série de argumentos plausíveis, em minha concepção.

Por que não acontece, então, essa virada, essa revolução do sistema sócio-econômico? Por que não utilizar as potências de cada sistema de organização econômica que já foram testados ao longo da história da humanidade? A desigualdade social é algo que também te incomoda?

A seguir os trechos.

“Quando comecei a defender publicamente a renda básica universal, a semana de trabalho mais curta e a erradicação da pobreza, muitas vezes vieram me dizer que essas ideias eram ingênuas, financeiramente inviáveis ou até idiotas.”

“Chamar minhas ideias de “irreais” era apenas uma forma sucinta de dizer que elas não se encaixavam no status quo. E a melhor maneira de calar as pessoas é fazê-las se sentirem tolas.”

“Porém, lembre-se: aqueles que reivindicavam a abolição da escravidão, o voto feminino e o casamento entre pessoas do mesmo sexo também foram chamados de lunáticos um dia. Até a história provar que eles estavam certos.”

(Trechos do livro “Utopia para Realistas” do historiador holandês Rutger Bregman).

Pretendo continuar a refletir sobre o tema, voltando agora para o âmbito mais interior. O filósofo Richard Taylor escreveu: “Se a maneira como você vive a vida é uma resposta para como os outros queriam que você vivesse, então essa vida não é sua.”

És Criador ou Criatura? Estamos meros cumpridores de obrigações, sem escrever a própria biografia? E pior, talvez. Estamos nos tornando máquinas? Sem muito sentimento de pertencimento, apenas o sentimento da  obrigação? Essa discussão permeia minha cabeça no sentido de que se eu não tomar a minha vida nas minhas próprias mãos, se eu não tiver autocontrole e autodomínio, como posso pensar nos distúrbios de fora?

Somos, talvez, a geração do bater de metas. Não de asas.

Quem bate asas não gera o resultado econômico esperado pelo definidor de metas. O que quer esse definidor de metas, cortador de asas?

Corte as suas asas, e bata as suas metas. Ou seriam as metas deles? Se não tenho minhas asas, posso alcançar minhas próprias metas?

Somos os cumpridores de uma programação? Falta-nos autonomia para pensarmos? O famigerado Pensamento Crítico, que tantos filósofos defendem?

A máquina se isenta de criticar, apenas cumpre ordens. No máximo, dá pane quando sobrecarregada. Falta-nos mais leitura, mais educação? Mais filosofia? Um grito para se libertar da maquinação?

O fato é que a ideia de ser mais contributivo (ser sujeito), em oposição à ideia de ser mais útil (ser objeto), dança na minha mente soltando labaredas a cada rodopio. Com você é assim? Existe esse incômodo?

A ESPOSA APARECIDA

As aventuras do detetive Ted Rocky #10

Dia chuvoso. A barriga roncou tanto que assustou Pink, o ratinho cinzento que de vez em quando aparece e me faz companhia. Ele deve ter pensado que havia comida. Já o surpreendi outro dia levando alguns dos meus cream-crackers. Eu o perdoei, sou assim, não guardo rancor. Aliás, ele é um bom ouvinte. Pobre Pink. Ele se foi, me deixando sozinho naquela manhã.

Estava distraído com os olhos fechados acompanhando a sinfonia orquestrada pelo meu estômago, quando houve uma batida forte na porta. Abri os olhos assustado e me ajeitei na cadeira recém-reformada na capotaria. Uma silhueta larga se formou no vidro. A silhueta entrou e tomou a forma de um homem de meia idade. Robusto, bem robusto. E elegante, para o meu conceito. Usava um chapéu de feltro que combinava com o sobretudo preto. Algumas gotas de água escorriam pelo tecido que parecia muito caro. Muito mesmo. Eu fiquei estarrecido. Mais pela circunstância de aparecer um cliente em um dia de chuva. Eu não costumo receber ninguém em dias chuvosos. E ultimamente, nem em dias ensolarados.

— Ted Rocky, o detetive?

— Sim, cavalheiro, Ted Rocky detetive particular em carne e osso, mais osso do que carne! Em que posso ser útil?

— Minha esposa…

— Ela desapareceu?

— Não, ela apareceu!

— Como é?

— Minha esposa, dada como morta há seis meses, apareceu do nada!

— Veja, cavalheiro, eu conheço alguns profissionais da área mística, posso indicar alguns.

— Não, o senhor não está entendendo. Ela apareceu em carne e osso!

— Huum…

— Eu te procurei para manter a discrição. Minha esposa é conhecida. Trata-se da empresária Aparecida Teixeira.

— A famosa empresária dona das lojas Magazine Cida?

— Essa mesma.

— Sim, eu me lembro do caso. Foi notícia na TV. Aparecida Teixeira, uma empresária bem sucedida no ramo de comércio varejista de eletroeletrônicos e variedades. Ela foi até a zona franca de Manaus para inaugurar uma nova loja de sua rede e algo aconteceu com seu avião que caiu na floresta amazônica. Depois de três dias de busca foi noticiado pela imprensa que ela morreu. Estou certo?

— Sim, esta é a versão oficial. Acontece que o corpo nunca foi encontrado. Veja, senhor detetive, sempre fui um marido dedicado. Dediquei minha vida à Cida e se passaram seis meses desde sua “morte”. Ela sumiu do mapa, não deu nenhuma notícia para mim. Eu segui minha vida, toquei as empresas, ganhei meu dinheiro, gastei o dinheiro…

Meu faro atômico detectou onde aquela conversa iria chegar. O marido gastou o dinheiro da empresa, encontrou um novo amor, afinal a esposa foi dada como morta. E agora ela aparece do nada reivindicando as suas posses.

— Bem, senhor…?

— Nico.

— De Nicolas?

— Não, Nicodemos. Família devota.

— Ok, senhor Nico. Suponho que queira que eu investigue sua esposa para que você garanta o direito das empresas e posses que ela reivindica?

— Sim e não, senhor detetive. Quero que você investigue minha esposa sim, mas porque ela quer doar todos os nossos bens para a caridade.

— Oi?

— Sim, isso mesmo. Minha esposa voltou da Amazônia piradinha. Alguém deve estar por trás disso. Ela deve ter um amante e quer tirar tudo de mim! Preciso da sua ajuda, senhor Ted Rocky!

— Ok, senhor Nico. Você terá a expertise de Ted Rocky ao seu serviço. Começarei imediatamente. Você sabe onde eu posso encontrar sua ex-falecida esposa?

— Ela não se encontra em casa. Vou deixar o número do meu telefone com você. Preciso ir!

Ainda chovia no final daquela manhã. O homem elegante e perturbado pela aparição repentina da esposa saiu deixando uma pequena poça de água no meu escritório. Procurei meu guarda-chuva. Encontrei, mas estava despinguelado. Vesti meu casaco de pano grosso, menos elegante, para enfrentar a rua molhada. Parti para a missão. Ted Rocky, detetive particular. Com o seu mais novo caso inusitado. A esposa Aparecida aparecida. Ou melhor, a esposa Aparecida que apareceu. Enfim, é um trava línguas.

Pesquisei sobre meu alvo na internet usando o meu smartphone. Meu pacote de dados estava como meu pacote de biscoitos. Quase no fim. Por sorte, consegui informações sobre Aparecida Teixeira. Foi bem rápido, na verdade. As notícias nas redes sociais são em tempo real e já apontava onde aquela figura pública estava. Em um vídeo da rede social do Jornal Minha Notícia (o JMN está diversificando os meios de divulgação), Cida Teixeira estava no coreto da praça central vestida de maneira casual e discursando para meia dúzia de gatos pingados. Ela dizia algo sobre desapego material e transcendência.

Cida Teixeira ainda estava na praça central. Eu me aproximei do coreto para me enturmar na turma de gatos pingados.

— Ela é a Cida Teixeira, a empresária que foi dada como morta? — perguntei a um dos gatos que vestia um casaco amarelo e azul e parecia o responsável pelo vídeo que vi na rede.

— Sim, ela mesma. O avião caiu, mas ela não morreu. Ela disse que passou os últimos seis meses com uma tribo da Amazônia onde foi tratada e despertou para a vida. Está há meia hora discursando sobre as desigualdades sociais e a prisão egóica da humanidade.

— Ela pirou?

— Olha, ela não me parece pirada. O discurso faz sentido. É como se tivesse nascido outra vez!

Eu me aproximei de Cida Teixeira para tentar um contato.

— Olá, senhora Teixeira! Uma bela história a sua.

— Sim, meu jovem. Eu tive uma bela oportunidade. Gostaria de passar para todos vocês o que eu vi e senti. A insanidade coletiva que é o ego da humanidade. Tudo é transitório e impermanente, meu jovem. Foi isso que eu escutei e aprendi na tribo dos meus amigos na Amazônia. A natureza é a resposta.

— Uau! Profundo!

— Por isso eu voltei, nascida outra vez, apenas como Cida. Quero me desfazer da maioria dos meus bens materiais, compartilhar com os outros e viver com o suficiente, sem ostentação. As minhas empresas a partir de agora tem o propósito de humanizar outras empresas.

— Uau de novo! E a sua família, o que diz sobre isso?

— Ainda não entenderam. Meu esposo gosta de ostentar o luxo, porém não pretendo deixá-lo sem nada. Pretendo ajudá-lo, se ele quiser.

Não sei dizer como, mas aquela mulher me convenceu. Não estava pirada. Talvez fosse considerada piradinha pelos defensores do conceito mais difundido de felicidade que temos hoje no mundo. Mas para ela, felicidade nem era conceitual, era uma consequência por viver as virtudes.  Deu até vontade de trabalhar com a Cida. 

Passei as duas semanas posteriores investigando Cida Teixeira. Nesse tempo, as redes de lojas “Magazine Cida” passaram a se chamar “Casas Amazônia”. A “Casas Amazônia” era agora empresa multifuncional que atuavam nos segmentos de produtos naturais, dedicada ao desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente, ao desenvolvimento de energia renovável, de gestão empresarial humanizada. Tudo focado na ideia da economia cíclica. Nenhum funcionário foi demitido, todos se adaptaram à nova filosofia. 

Meu cliente, Nicodemos, passou as duas semanas me cobrando se eu tinha descoberto algo sobre o amante da esposa Aparecida. Não havia amante, pelo que descobri, havia apenas mudança de consciência mesmo. O senhor Nicodemos ficou muito perturbado com as minhas informações. E um tanto decepcionado. Não me pagou. Tive informações de que fugiu da cidade. Parece que a Cida não se importou.

No fim deste caso, apesar das mãos abanando, senti-me bem. De alguma maneira, fui pago com a esperança de que podemos melhorar um pouco a humanidade com o que estiver ao alcance de cada um de nós para melhorar a si mesmo. Rocky. Ted Rocky, detetive particular e aspirante a filósofo.

Fiz amizade com a Mestra Cida, eu a chamo assim agora. E também consegui abrir um crediário nas Casas Amazônia. Não fico sem o meu chá de Jasmim!

ROUPA SUJA

(Imagem: perfil do Instagram @manoelismos)

Poeminhas ligeiros – O Barbeiro de Plantas #29

Sujos da civilização, 
embaçados da convicção 
de que esta é a forma civil de (sobre)viver.

Coisificando o tempo.
Penso que seria legal verdificar o tempo, 
que nem árvore. 

No estado de árvore, 
pra ser mais Contributivo, 
Pleno, Resiliente!

O que acha, Manoel?

CAOS

(Imagem: mural de Banksy)

Poeminhas ligeiros – O Barbeiro de Plantas #28

O Segredo se esconde dentro da ordem.
O Universo é o caos.
A Vida é a ordem.
A Vida é um desafio ao Universo.

Organizada em células, tecidos, órgãos, corpo, mente e espírito.

O Segredo está na ordem.
O Segredo é a Vida.
Viver é um ato de rebeldia.

Viver é um ato de resistência.
De Resiliência.
Persistente atividade.
Sem perder de vista a própria mortalidade.

LÁGRIMAS NA JANELA

(Imagem: “Chuvoso”, óleo sobre tela, pintura de Alfredo Vieira)

Poeminhas Ligeiros – O Barbeiro de Plantas #27

O presente anda com a cara meio amassada, molhada, 
cortada, sorumbática.
Porém, é o que tem.

Passado o dia, ontem.
Passado o minuto.
Passado o segundo...
O Presente é agora.
E já se foi...

O presente molha e seca. 
Sem muito sentido aparente; 
Sem muito controle, certamente!

AS CAMADAS QUE ME FAZEM CHORAR

P.I.S.T.A. #22

Olá cara leitora e caro leitor do outro lado da telinha. Vamos de prosa, prá sortá os trem acumulado?

Frequentei um grupo de Pathwork e ali muitos estalos foram me ocorrendo. Foi a partir dali também que passei a me interessar mais em filosofia e estudos sobre autoconhecimento. Como já disse em outra oportunidade (P.I.S.T.A. #05 – O Caminho), o Pathwork não é religião, seita ou qualquer coisa que se encaixe nessas definições. Eu o entendo como uma ferramenta para evolução pessoal. E foi nesses estudos que me veio a seguinte viagem na P.I.S.T.A. de hoje.

As Máscaras! Todos devem saber a definição dessa palavra. Peça que cobre parcial ou totalmente o rosto para ocultar a própria identidade. Em que pese que o significado de máscara tomou o sentido de saúde pública nos últimos tempos, para este texto gostaria de me ater à primeira definição.

Já sentiu que não raramente precisa vestir uma forma para se encaixar nas convenções sociais? E que essa forma não é você, mas insiste em se reafirmar nessa peça? E que essa sociedade está doente, de modo que você usa uma roupa que te deixa doente? Você usa essa máscara como reação ao ambiente em que vive? Ou uma reação ao que idealiza sobre você mesmo? Já sentiu isso?

Uso a máscara para agradar alguém? Para proteger quem?

Lá no Pathwork ouvi isto: as máscaras por nós utilizadas desenvolvidas para proteger o nosso ego são camadas que ofuscam o Verdadeiro Eu, a sua essência divina (o Eu Superior).

Nosso Eu Superior está no centro, para chegar até ele precisamos descascar essas camadas e, tal como uma cebola, muitas vezes isso vai nos fazer chorar. Pois iremos tocar nas nossas feridas e encontrar nosso lado sombra (Eu inferior). 

As máscaras são as partes mais nocivas do nosso Eu. Elas nos deixam inconscientes e longe da Unidade e do equilíbrio. Do uso constante da máscara nasce o Eu-idealizado, o inatingível na prática, mas o intocável na ideia. O ego acredita ser o Eu-idealizado. Este Eu não possui defeitos, não possui sombra nenhuma. Ele acredita na própria perfeição e sofre quando instigado a ver a realidade. A dualidade.

Porém, várias vezes li algo dito por diversas pessoas de diferentes culturas e diferentes formas de ver a espiritualidade: que somos luz e sombra, e mesmo a sombra tem sua fonte na luz, ou seja, podemos transformar essa sombra de modo que a levemos para a positividade. Mas, sem encará-la e trazê-la à consciência, isso será impossível!

Dentro dessas camadas o Falso Eu ou o Eu Idealizado permanece! O ego não se desenvolve e permanece totalmente identificado com a máscara.

É tempo de retirar as camadas e chorar para seguir o caminho da autotransformação!

APELO ÀS ESSÊNCIAS ENTORPECIDAS

Poeminhas ligeiros – O BARBEIRO DE PLANTAS #25

"Se a maneira como você vive a vida é uma resposta para como os outros queriam que você vivesse, então essa vida não é sua." (Richard Taylor, filósofo)

Eis a dicotomia:
És Criador ou Criatura?
És Sujeito ou Objeto?
Estamos meros cumpridores de obrigações,
Sem escrever a própria biografia.
Estamos latentes, inertes.
Nos braços de Morfeu.

Falta-nos autonomia para pensarmos?
Para exercer o Pensamento Crítico?
Falta-nos mais educação,
Mais comunicação (a não-violenta),
Mais debates de ideias.
Mais Filosofia para nos libertarmos da maquinação.
E Sermos mais contributivos.

Escritores da própria História.
Protagonistas da própria Peça.

Não meros espectadores em um Teatro
Vendo e ouvindo o próprio metabolismo
E seus processos bioquímicos. E só.
Vendo e ouvindo processos midiáticos e politiqueiros. Que dó!

Vendendo o nosso tempo para interessados
Sem o mínimo interesse em nossos Valores.
São apenas sugadores.
Dólares adoradores.
Estamos contentes?

Desperte, ó Essência.
Resgate o teu valor.
Cultive o teu valor.
Senão morrerás.

E aqueles outros usarão sua casca vazia
Para as próprias maquinações.

Te tornarás uma máquina a serviço de outros.
Às vezes distante dos teus valores originais mortos.
E esquecidos.