P.I.S.T.A. #02

LUÍS NA COVA DOS LEÕES

Olá caro leitor do outro lado da telinha!

Você está lendo a Prosa Inventiva (pra) Sortá (os) Trem Acumulado.

Quer saber o que é P.I.S.T.A.? Eu explico no primeiro post desta categoria.

Durante as passagens dos meus anos de vida, eu ouvi as pessoas dizerem diversas coisas a meu respeito. E, na maioria das vezes, eram só coisas boas. Um bom aluno, um bom filho, um bom amigo. Acontece que eu não ouvia a mesma coisa do Luís Fernando interior. Parecia que o Luís do mundo invertido considerava que nada que o Luís do mundo de fora fizesse seria o suficiente. E, durante muito tempo, eu normalizei isso. Era como um atleta olímpico obcecado em ter os melhores resultados e em bater recordes. Tudo tinha que ser perfeito, não quase, literalmente perfeito. Porém, penso que o caro leitor também reconhece, a perfeição é algo inatingível para este nível em que estamos, pelo menos do ponto de vista espiritual da coisa. 

Pois bem, durante o tempo em que estive preso nessa armadilha do ego (eu ainda não sabia nada sobre ele), passei perrengues (como o leitor deve imaginar e quiçá se identificar). Bastava uma percepção de que cometi um pequeno deslize, poderia ser em qualquer área da vida, para a minha vibração despencar e minha energia surfar nas ondas das frequências do medo, da culpa e da vergonha. Ôxi, que tempos desafiantes! 

Por exemplo, o Luís do mundo de fora não conseguiu tirar a nota 10 em uma prova, e ele tinha estudado “prá daná”. Ele tirou 9,5. “Que tragédia!”, pensava o Luís do mundo invertido, “Você é péssimo!” 

O Luís do mundo invertido comandava os pensamentos e as ações. Lutar contra ele era inútil. Ainda mais que o Luís do mundo de fora não gostava de falar sobre si mesmo e se recusava a receber qualquer tipo de ajuda, pois julgava que isso era demonstração de fraqueza. Era preciso ser forte na hora de enfrentar o problema, eu precisava dar conta sozinho! Hoje vejo que eram sussurros do Luís do mundo invertido. Oras, eu não me conhecia. Apenas conhecia o Luís do mundo invertido. Eu ERA os meus pensamentos e me identificava fortemente com o EGO. 

A situação começou a mudar quando sofri a queda. Dizem que há a “crise dos 30”, não sei se estereotiparam o negócio, mas comigo rolou mais ou menos nessa época. O Luís do mundo invertido se tornou insuportável e as coisas no mundo de fora começaram a ficar também insuportáveis. No trabalho principalmente, local em que a autoimagem de perfeição mais me pegava. 

Em muitas tradições, há essa ideia de queda, de a noite escura da alma, que serve para silenciar a mente, elevar a consciência e lutar por uma transmutação. No popular, o fundo do poço. Vejam, não é intenção comparar dor e problema de ninguém, cada um tem a sua própria jornada e cada um tem seu próprio poço a vencer. Eu estou passando pelo meu e estou contando para você, caro leitor, com o intuito de, quem sabe, ajudar um pouquinho. 

Voltando aqui na crise dos 30, o trem ficou pesado demais. “Quebrei e desabei”. O surfe nas ondas mais inferiores de vibração estava sendo praticado e as consequências disso, as mais drásticas caro leitor,  permearam a minha cabeça. A ponte entre o Luís do mundo invertido e o Luís do mundo de fora entrou em colapso e havia começado a revolução. Hoje penso que o Luís do mundo invertido relutou muito em deixar o Poder. Ôôô bicho teimoso! 

A sorte dessa pessoa que vos escreve é que existem literalmente anjos nesta vida. O significado de anjo dentre as muitas tradições é mensageiro a serviço de um bem maior. Foram muitos os meus anjos. Foram os meus amigos, a minha família, a minha esposa Talita, o meu terapeuta Luiz Alberto (pois, finalmente o Luís admitiu que precisava de ajuda e de um guia). 

Dentre as coisas que recomendo fazer, caro leitor do outro lado da telinha, se você se identificou um pouco com o caso, é procurar o autoconhecimento. Para mim, é a jornada heróica do ser humano. Uma das formas para iniciar o aprendizado de se conhecer melhor é frequentar o Pathwork (um dia vou falar sobre esse tesouro que me ajudou tanto!). Mas há outras formas e acredito que cada um saiba e sinta o que se encaixa melhor na própria vida.

O Pathwork para mim deu muito certo, pois com uma pequena abertura de consciência, já escancarou os meus conflitos interiores. Como se eu fosse jogado na cova dos Leões. Ali na cova, praticando o autoconhecimento, vi muitas coisas em mim que não gostei e me doeram. Mas também vi e senti coisas muito boas que me deram forças para enfrentar os Leões.

Nessa jornada que continua até hoje e com a ajuda do Luiz Alberto pode ser que eu tenha encontrado o líder dos Leões. Ele atende pelo nome de Perfeccionismo. Ah, o Luís do mundo invertido se divertia me jogando contra ele!

Um momento para “flexões de mente”. Penso que todos somos um pouco perfeccionistas, alguns mais que outros. 

É exagerado quando a voz interna cobra excessivamente perfeição das coisas que fazemos no trabalho, no relacionamento, enfim das coisas da vida e não aceita crítica externa. A lógica do perfeccionista é: se houve crítica de alguém é porque a coisa não ficou perfeita. As críticas internas tornam-se dez vezes piores e surge uma raiva de si mesmo que entra em um looping bizarro. No começo a raiva é por não ter sido perfeito, depois a raiva é por estar sentindo raiva, porque o ser perfeito não tem raiva. 

Deu pra entender? Louco, não é?

Hoje eu vejo que isso é uma crença e uma distorção criada pelo Ego, o meu colega Luís do mundo invertido.

“Eita, Luís, e como sair desse looping bizarro?”, o caro leitor pode estar me perguntando. Vou parafrasear Murilo Gun: “É Hardwork, papai!”

Entrar na cova dos Leões, enfrentá-los, encará-los, não desviar o olhar e… Abraçá-los. Vish, mas que contradição! Parece, mas não é. É como se estivéssemos abraçando a parte ferida de nós mesmos. A nossa sombra ou, como é ensinado no Pathwork, nosso Eu Inferior. Enquanto não descermos na cova dos Leões, fingimos não os ver e sempre estaremos usando máscaras. Isso mesmo, como no Carnaval. Fingindo ser quem não somos. 

O Luís do mundo invertido faz parte de quem sou. Faz parte, não é Todo o ser batizado Luis Fernando. Aceitá-lo e abraçá-lo quebra a minha máscara. Eu sinto raiva, eu sou vulnerável, eu preciso de ajuda. Eu posso fracassar. E posso tentar de novo. Posso ter muitos fracassos. Lembrei de um verso da música de Kell Smith chamada Girassol (essa moça escreve letras lindas e canta muito bem): “E quase sempre é em desistência que o fracasso se resume”. Aí está a percepção do fracasso definitivo. Desistir. E, vejam, há uma diferença entre o que vale a pena lutar e aquilo que é murro em ponta de faca. Largar aquilo que me faz mal é muito importante. Outro dia vou escrever sobre isso, algo que li sobre carregar muitas coisas na mochila da vida. Enquanto isso, escute a música Girassol de Kell Smith. Toda a música é bela, carrega uma mensagem positiva! Escute lá!

E agora parafraseando Rocky Balboa (eu não resisti!): “Ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater forte. Se trata de quanto você aguenta apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de aguentar e continuar tentando. É assim que se consegue vencer.” Eita, que frase bonita! Obrigado, Rocky!

Enfim, caro leitor do outro lado da telinha, essa Prosa pra Sortá os Trem Acumulado ficou extensa. Espero ter comunicado a minha intenção com clareza para ajudá-lo um pouquinho, uma unha do dedo mindinho que seja. Aliás, gratidão por ler até aqui. Saiba que escrever isto me ajudou! 

Para finalizar, quero deixar duas frases de pensadores importantes que ajudaram na minha jornada. Uma do psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Jung e outra do filósofo francês Jean-Paul Sartre.

“Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão.”

Carl Jung

“A consciência que afirma ‘eu sou’ não é a consciência que pensa.”

Jean-Paul Sartre

Um abraço fraterno ao caro leitor! Até a próxima PISTA pra negócio!

As aventuras do detetive Ted Rocky #02

O ponta desaparecido

Havia acabado de voltar com um pacote de biscoito cream-cracker e um Toddynho para o almoço devido ao baixo orçamento, quando três rapazes entraram na sala. Levantei as mãos rapidamente por instinto pensando ser um assalto. Por sorte, não era. Os três rapazes estavam uniformizados, camisas brancas com uma listra transversal laranja.

– Você é o detetive do anúncio do jornal?

– Sim, Ted Rocky, detetive particular na sua versão faminta. Em que posso ser útil aos distintos atletas do Vasco de Laranjeiras?

Reconheci os uniformes dos rapazes. Eram do time da cidade, o Vasco do bairro de Laranjeiras. Dizem que por isso as cores são branco e laranja. O time da cidade, que disputa a terceira divisão do campeonato Estadual.

– Senhor Detetive, precisamos urgentemente encontrar o nosso ponta direita desaparecido! – disse o rapaz que vestia a camisa número 8 e tinha a tarja de capitão no braço esquerdo.

– O ponta direita, aquele que é o craque do time? Como era o nome… Yago Pérez? – perguntei enquanto agitava a caixinha do achocolatado pronto para beber.

-Ele mesmo, o nosso direitinha de ouro – respondeu o número 8. – Yago Pérez está desaparecido desde ontem.

O time do Vasco de Laranjeiras nunca ganhou absolutamente nada, a não ser notoriedade na região pelas suas derrotas acachapantes. Certa vez perdeu para o time sub-20 do Desportivo Castro da cidade vizinha por incríveis 7 a 1. O gol a favor do Vasco foi contra, talvez por piedade do adversário. E o time adversário era o reserva. A piada depois deste resultado era qual seria o placar se jogasse Vasco de Laranjeiras e Seleção Brasileira de 2014? Não há unanimidade sobre quem seria o rival humilhado.

Certa vez, perto de um Natal, para angariar recursos, o time rifou um leitão. Vendeu mais de 200 rifas. Até que o responsável pelo porquinho que tinha até nome, Julinho,  apareceu alegando que não deu anuência para doação do mesmo. Fora o sogro dele, um dos conselheiros do clube que teve a ideia e pensou em doar o bicho. Armou-se um banzé, pois uma das pessoas havia comprado 20 rifas e exigia o dinheiro de volta alegando que foi enganado: o porco oferecido era roubado. Além do barulho que as ONG ‘s de proteção dos direitos dos animais fizeram. Mesmo assim, para não perder os recursos arrecadados, o clube queria rifar outro animal e pensaram em um pato. Até que a Prefeitura proibiu qualquer agremiação esportiva de rifar animais para angariar recursos. Naquele ano, os jogadores tiveram o décimo terceiro parcelado.

Sei disso tudo. Eu acompanho as notícias no Jornal Minha Notícia, o periódico mais lido da cidade. É onde eu faço meus anúncios. Rocky. Ted Rocky, detetive particular. Informado e devorador de cream-cracker.

O JMN noticiou certa vez que um jovem garoto paraguaio começou a treinar na equipe júnior do Vasco de Laranjeiras. Seu nome era Yago Pérez. Ele se destacou com sua direita poderosa, habilidade fora da média e, em pouco tempo, integrou o time profissional. Um fenômeno. Levou o Vasco de Laranjeiras à primeira vitória com a diferença de três gols na história quase sexagenária do clube. Na atual temporada o time tem oito vitórias consecutivas sob a batuta de Yago Pérez e irá disputar a final do quadrangular. Uma vitória neste jogo levará o Vasco de Laranjeiras à segunda divisão do campeonato Estadual. Um feito histórico. Todos apostam que dessa vez a Laranjada, o apelido do time, vai levantar o primeiro caneco da sua história.

– Eu suponho que vocês já procuraram a família do desaparecido – ponderei enquanto sorvia o achocolatado pelo canudinho.

– Pelo que sabemos, Yago só tem um tio na cidade e mora com ele. Fomos à sua casa depois do treino de hoje de manhã, porque ele tinha faltado outra vez. Não tinha ninguém lá, nem ele nem o tio. Ficamos preocupados, pensamos em chamar a Polícia, mas a maioria não quis para não criar escândalo. Hoje decidimos procurar um detetive, porque a final do campeonato é amanhã às 10 horas. Sem o Yago não teremos a menor chance! O Biribinha não está a altura de o substituir.

– Quem?

– Biribinha é o reserva do Yago. Cá entre nós, um “perna de pau”. Está lá por ser sobrinho do técnico. Antes do Yago ele era o titular. Não conseguimos vencer ninguém com ele em campo. Certa vez, estávamos ganhando de 3 a 0 do Primeiro de Maio e quando ele entrou tomamos a virada. Ele é um entregador de paçoca. Temos que encontrar o Yago Pérez, precisamos desse título!

– Ok senhores, estou dentro. Vou entrar de sola no caso. Vocês me levam até à casa do Yago e eu assumo a investigação.

No caminho, o número 8 contou que o tio paraguaio de Yago tem uma tabacaria que também vendia bebidas de origem questionável (mas que poucos sabiam disso). Eles moravam no apartamento em cima da loja. Os rapazes do Vasco de Laranjeiras me deixaram perto do lugar e pedi que fossem embora para não chamar a atenção.

O lugar ficava perto da rodoviária da cidade. A loja estava fechada. Estranho para uma sexta-feira à tarde. Não havia ninguém em casa para atender.

Decidi investigar ao redor da rodoviária. Alguém deve conhecer o paraguaio que vende bebidas na surdina e que tem um sobrinho jogador de futebol. Havia um boteco aberto do outro lado da rua.

-Boa tarde! Que coisa, quero fazer uma encomenda com o paraguaio e a loja está fechada.

O atendente bigodudo que vestia uma camiseta regata branca escrito “Beach -> this way” me olhou com uma expressão carrancuda. Ele tinha um pano de prato encardido e mal cheiroso no ombro largo.

– O Pérez. Há dois dias a loja não é aberta.

– Puxa vida, onde vou encontrar uma loja que venda uísque?

– Lá não se vende uísque. É uma tabacaria.

O atendente bigodudo fechou mais ainda a cara carrancuda. Passou o pano encardido no balcão e foi atender um cliente na outra ponta.

Na mesma hora ouvi um som parecido com um assobio, um “psit” atrás de mim.

Um homem de meia idade com traços guaranis sentado em um canto do bar acenava com a cabeça para me aproximar. Ele usava uma camisa social rosa claro abotoada desleixadamente, óculos escuros e tinha um palito na boca. Ele me olhou de cima a baixo. E não foi por causa da minha beleza e charme.

– Uísque tu quieres, cabrón?

– Sim, senhor.

– Passa a las ocho horas de la noche – disse o guarani apontando com a cabeça para o outro lado da rua.

Sexta-feira, oito horas da noite, lá estava Ted Rocky, detetive particular, em frente à loja suspeita de porta fechada ao lado da rodoviária esperando ser chamado pelo guarani de camisa rosa que “hablava” em portunhol.

– Psit! Ei, cabrón! – a mesma voz daquela tarde vinha além de uma porta menor ao lado, porém sussurrada.

Segui o chamado, a porta se abriu. Entrei. O guarani estava com a mesma camisa rosa abotoada desleixadamente, porém sem os óculos escuros.

– Sígueme.

Passamos por um corredor estreito que no fim dava para uma escada. Porém, ele virou à esquerda onde havia uma porta aberta. Ao entrar, percebi que estávamos nos fundos da tabacaria. Senti o cheiro de fumo. No cômodo havia duas mesas redondas com cadeiras, uma máquina caça-níquel e no fundo uma estante enorme com portas trancadas por cadeado. Sentado em uma cadeira estava um sujeito atarracado de cabelos pretos e olhos fundos. Exalava um cheiro de cigarro e uísque paraguaio.

– Aqui, cabrón! Uísque que quieres – o anfitrião apontou para uma estante.

– Sim, quero. Quero uma caixa do melhor que você tiver.

O guarani fez uma expressão de surpresa e se dirigiu à estante.

– Vejo que estão esperando a turma para uma partidinha? – apontei com a cabeça para a mesa coberta por um pano verde.

– Tem lugar para mais um, se quiser – disse o sujeito sentado.

– Não, eu não jogo.

– Se não sabe jogar um carteado, quem sabe apostar?

– Como é?

– Apostar. Fazemos apostas por aqui. Vai acontecer uma final de campeonato na cidade, você sabe?

“Opa”, eu pensei, “nesse mato tem cachorro.”

Sorri para o desconhecido.

– Sim, estou sabendo – finalmente respondi. Você está falando da final do Vasco de Laranjeiras?

O anfitrião voltou carregando a caixa.

– Sim! Está batata, o Vasco leva! O sobrinho do Pérez aqui é o craque do time! Joga muito.

– Si, mi sobrino es “o cara”! – abriu um sorriso largo o meu anfitrião guarani.

– Vocês devem estar falando do Yago Pérez! Sim, já ouvi falar nele. Parece ser um rapaz promissor, muito habilidoso. Ele mora com o senhor?

-Si, si. Yago mora aqui.

– Que sorte, eu gostaria de poder vê-lo para cumprimentá-lo e desejar boa sorte.

-No, no. Yago precisa descansar.

Comecei a farejar algo. Um esquema de manipulação de resultado. As chances do Vasco de Laranjeiras perder com o Yago em campo eram mínimas. Sem o Yago, elas aumentavam muito. O Biribinha não era um reserva à altura, como eu soube pelo número 8. Praticamente todas as apostas eram na vitória do Vasco de Laranjeiras devido a boa campanha no campeonato sob a batuta de Yago Pérez.  Que tragédia se nas vésperas do jogo decisivo o craque do time sumir e não jogar a partida. E que sorte se alguém tiver apostado no adversário. Provavelmente, irá ganhar uma grana preta.

– Que pena! Eu gostaria de pegar um autógrafo do futuro craque do futebol mundial. Poderia fazer dinheiro com isso depois que ele ficasse famoso jogando no Real Madrid.

Todos riram. Para não dar bandeira, apostei cinquenta pila no Vasco de Laranjeiras. Era o dinheiro para a minha condução de volta. Teria que voltar a pé. E também tinha que levar a caixa de uísque. Passei no meu novo cartão de crédito de um banco digital.

Yago Pérez fazia parte do esquema.  Deliberadamente, ele havia sumido dos últimos treinos para não jogar a final. Confirmei que ele estava em casa esse tempo todo pelo dono do bar bigodudo. Troquei minha caixa de uísque pela informação.

Na manhã seguinte fui ter com meu cliente, o número 8 antes da partida. Ele ouviu o meu relato e apenas respirou fundo, saindo com um olhar em chamas.

O time do Vasco de Laranjeiras venceu a partida por 3 a 0, com três gols de Biribinha. Os cronistas disseram que ele havia incorporado o espírito de Garrincha naquele dia. Talvez movido pelo ódio.

O Vasco de Laranjeiras levantou o primeiro caneco da sua história. O esquema da família Pérez naufragou e Yago encerrou sua carreira futebolística pelo que dizem. Inclusive se mudaram de cidade.

Eu ganhei um ano pago de sócio torcedor da Laranjada, foi a forma que o número 8 arranjou para pagar pelo meu serviço que de certa forma, ajudou o time a ganhar o título da terceirona do Estadual. Vamo, Laranjada!

O Torcedor #02

Dilema

“Sério, mano! Por que esse goleiro é o titular?”

– O técnico diz que ele se encaixa melhor no esquema tático, por saber jogar com os pés.

– Ah, mano. Prefiro o reserva, joga melhor debaixo da trave. Esse aí é um chama-gol. No último jogo foram três chutes contra a nossa meta e tomamos três gols. 

– Você não está falando sério, não é? O goleiro é bom. O nosso centroavante é que não converte chances em gol. Ele é um perna de pau.

– Olha aí o defensor do chama-gol. Eu já gosto do nosso centroavante, sabe fazer gols.

– Sério, mano? O centroavante não marca há três partidas.  

– O jogo já começou e estamos aqui discutindo.

– Vamo, timêêê!

– Xiiii, mano vamos tomar gol no primeiro minuto?

– DEFENDEU! O goleiro salvou!

– Olha o escanteio.

– Defendeu de novo! Olha aí, o chama-gol defendendo, mano!

– Nunca critiquei, pega muito! Olha o nosso contra-ataque.

– …

– GOOOOOL! E que golaço do centroavante perna de pau.

– Nunca critiquei, é um craque de bola!

P.I.S.T.A. #01

O que é P.I.S.T.A.?

Olá, caro leitor do outro lado da telinha! Em uma das minhas viagens no Vale da Mirabolância ( este é o nome que eu dei para as minhas flexões de mente), motivado e inspirado pelo mestre da criatividade brasileira Murilo Gun (como eu já disse em um outro post, se você não o conhece, procure saber sobre esse cabra!), eu tive um insight bem louco. 

Murilo em uma aula do seu curso chamado Reaprendizagem Criativa (phodaralho, recomendo!) discorreu sobre o que ele e seus amigos batizaram de Gravidade Zero. Um conceito bem interessante que se desenvolve em torno de uma pergunta central: “O que te faz ficar leve na vida?

E a pegada é holística, é uma tentativa de unificar as coisas boas em todas as áreas da vida. Um hardwork, como Murilo gosta de falar. Não raramente, temos a percepção de estar bem em uma área da vida e capenga em outra. Bem na área profissional, mas capenga na área de relacionamento afetivo, por exemplo. 

E vejam, eu disse percepção, porque acredito que é uma crença limitante. Como aquela velha frase “Azar no jogo, sorte no amor”. Uai, porque não posso ter sorte no jogo e sorte no Amor? Quem disse que isso é proibido?

Enfim, no meio dessa minha viagem mirabolante, me veio a ideia de P.I.S.T.A. “O que é isso, Luís, ‘pelamordedeus’! Algo a ver com estar na pista para negócio?” Não sei se o caro leitor do outro lado da telinha pensou nisso, porque eu pensei durante a minha conversa interna. Vou te dar uma pista, agora! A estrada é longa!

P.I.S.T.A. é o acrônimo de Prosa Inventiva (pra) Sortá (os) Trem Acumulado (assim mesmo, bem no “mineirês”). 

Estou lançando aqui um cantinho para que possamos trocar as roupas pesadas por peças mais confortáveis, formatar nosso hardware mental, formatar nossas crenças e rodar um sistema com mais leveza, velocidade e liberdade.

“Assumir a missão de alcançar a essência do ESTAR humano e do SER espiritual.” Essa frase tão bonita eu ouvi em uma das aulas do Murilo Gun com sua turma de amigos, Tânia Mujica, Renan Hannouche e Dante Freitas.

Então é isso meu caro leitor, vamos “sortá” os “trem acumulado” para viver com mais leveza e cumprir nossa jornada humana, que acredito ser a evolução da nossa consciência. Qual a pista a vida está lhe dando?

O Torcedor #01

O Princípio da “Gorada”

“Gol! Ah que pena… Perdeu um gol feito!”

– Quem chamou esse cara?

– Eu chamei, ele é o meu primo!

– Você não explicou para ele o Princípio da Gorada?

– Não, mano! Ele não conhece.

– Não acredito mano!

– O que é o Princípio da Gorada?

– Resumidamente, primo, quando gritamos gol antes do nosso time concluir a jogada é 100% de certeza que o gol não sairá. Então, no ataque do nosso time, ficamos calados sem esboçar reação.

– Nada a ver!

– Nada a ver? Quem chamou esse cara?

– Primo, temos observações relevantes. Pense que é como uma tese científica e ela tem efeito. É incrível, não falha. Testamos durante muito tempo e estamos aplicando nesse campeonato.

– Sei…

– Confia.

– Huuuum… Agora é caixa!

– Uai, você está torcendo pelo time adversário?

– Mano… Eu insisto, quem chamou esse cara?

– Primo, o Princípio da Gorada serve para toda a situação de gol, de maneira que podemos manipulá-lo a nosso favor. Então, toda vez que o time adversário ataca, nós gritamos Gol ou expressões que lembrem o tento no futebol.

– Ah, entendi.

– Espero que sim, primo do mano. Que isso não se repita mais.

– Escanteio para eles.

– Agora é gol!

– Cara… Mano… Gol deles! Não vai dar. Você não poderá trazer mais o seu primo aqui.

– Mas eu gritei gol no ataque do adversário!

– Primo, se não for de coração, não dá certo.

– Como é?

– Sério mano. Desse jeito nós vamos perder o jogo.

– Esse Princípio é muito complexo. Vou à cozinha buscar mais cerveja.

– Boa primo.

– Mano, sua sorte é que seu primo trouxe a…

– …

– GOOOOOOOOOL!!!!

– Olha aí, não falha!

– Foi gol?

– Você terá que ficar na cozinha, infelizmente. Empatamos sem você aqui.

– Mas eu quero ver o jogo.

– Mano quem chamou esse cara?

As aventuras do Detetive Ted Rocky #01

Ted Rocky e o estagiário

Ted Rocky detetive particular, ex-pugilista, herdeiro de um escritório de advocacia. Vim de uma família abastada. Abri mão da carreira no Direito e decidi o meu próprio caminho. A pindaíba de um detetive autônomo. Gosto de aventuras. Já me acusaram de abestado. Não ligo.

Herdei os olhos de minha mãe e o corpo atlético de meu pai. Deixo a barba por fazer, pra dar um charme como de um galã descompromissado. Tenho a aparência de Lázaro Ramos, o gingado de Xandy do Harmonia e a sagacidade de compadre Washington. Meu nome vem da época de pugilismo. Perdi a conta de quantas vezes assisti aos filmes de Rocky Balboa. Menos o Rocky 5. O Rocky 5 não deve entrar na contagem desta grandiosa obra. Meu apelido vem daí? Talvez. Ou possa ser pelas repetidas vezes que fui a lona. Mas levantava. Na maioria das vezes. Às vezes em um hospital.

Já me conformava a entrar no cheque especial quando recebi a visita de um potencial cliente. O primeiro daquele terrível mês de vacas magras. A pessoa estava esbaforida. Era um sujeito de traços jovens, levemente acima do peso, camisa e calça social. O suor formava um “V” no centro do seu peito largo.

-Ted Rocky, o detetive?

-Sim, você olha para a versão mais sofrida dele. Em que posso ajudar?

-Preciso encontrar o meu chefe. Ele está desaparecido.

Que fato curioso, alguém preocupado em encontrar um chefe. “Que rapaz altruísta”, pensei.

-Seu chefe. Me explique melhor, senhor…?

-Tadeu. Eu sou estagiário do escritório de advocacia Duarte & Filhos. Completaram dois dias do desaparecimento do meu chefe. Preciso encontrá-lo!

– Duarte & Filhos? Então se supõe que ele tem filhos. Por que o estagiário do escritório estaria mais preocupado que a própria família?

Perguntei de forma suave, para não ofender. Sou assim, justo e coração puro. Só um pouco desconfiado.

-Bem, é que os dois filhos também sumiram. E ele é divorciado, a ex-mulher não quer vê-lo nem pintado de ouro.

Aquilo não cheirava bem.

-Então meu caro Tadeu, você está me dizendo que a família inteira sumiu? Suponho que seja um caso de sequestro e que a Polícia deveria ser acionada, mas se você me procurou não é isso, certo?

Tadeu olhou de lado. Penso que acertei.

Tadeu sentou na banqueta disponível da minha sala. Eu trouxe a banqueta da minha kitchenette. A única cadeira de plástico que eu tinha para a sala foi quebrada durante uma invasão de um grupo de ativistas do meio ambiente aqui no prédio, semana passada. O protesto tinha a ver com o corte de árvores na área do parque municipal. O tumulto foi no corredor do meu andar. O dono da imobiliária que funciona na última sala comercial faz parte do Conselho de Meio Ambiente do Município. Os ativistas pareciam descontentes com o voto dele. Tentei mediar o desentendimento entre as partes, mas julgaram que eu estava defendendo o outro lado. Um dos ativistas invadiu minha sala e quebrou a cadeira de plástico na minha cabeça. A funcionária da imobiliária pegou a perna quebrada da cadeira para me bater também. Eu era odiado pelos dois lados. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. E descadeirado.

– Senhor detetive, você precisa me entender, eu sou apenas o estagiário do escritório! Estão tentando colocar a culpa em mim!

Realmente, algo não cheirava bem e não era o presunto que deixei do lado de fora da geladeira por pura negligência desde a tarde de ontem. Tadeu, o estagiário, continuou o seu relato.

– Há dois dias umas pessoas estiveram no escritório conversando com Doutor Duarte. No outro dia ele já não foi trabalhar. Eu não estranhei, Doutor Duarte já ficou uma semana sem ir ao escritório e voltou bronzeado. Ele sempre volta. Mas, hoje eu recebi uma papelada dessas pessoas que conversaram com ele há dois dias e assinei um protocolo. Tudo parecia certo, aí eles me perguntaram se o esquema da licitação estava nos conformes. Eu simplesmente respondi sim e meu mundo veio abaixo.

-E o que é o esquema da licitação?

– Eu sei lá!? Achei que fosse algo já resolvido no processo dos doutores! Sempre respondi sim e ninguém me fazia mais perguntas. 

Clássico deslize de estagiário. Responde com a certeza de quem não faz a mínima ideia do que seja.

– Acontece que agora essas pessoas estão me fazendo muitas perguntas que não sei responder. Eles me perguntaram do Doutor Duarte e ele sumiu. Eu não sei o que fazer, por isso te procurei. Vi o seu anúncio do outro lado da rua, na janela de vidro.

Bendita plotagem na janela da minha sala.

-Ótimas notícias Tadeu. Vou aceitar o seu caso. Me leve ao seu escritório.

O escritório Duarte & Filhos ficava no outro quarteirão. Descobri que as pessoas que atormentavam o Tadeu estavam lá. Tentei me enturmar.

– Que coisa esse sumiço do doutor hein?

Um sujeito baixo com camisa xadrez, de óculos fundo de garrafa se manifestou.

– Pois é, ele tem que aparecer. Você é de qual departamento?

– Departamento anel rodoviário.

– Não conheço.

– É recente.

– Eles são mestres em inventar departamentos.

– Esse esquema estava no papo.

– Nem fala. Era simples. Afetou toda a nossa vida. A vida inteira almoçamos no Karlinho, esse era o esquema. Nem me imagino almoçando no Franguitos, não conhecemos ninguém lá.

-Como é?

– Franguitos! O restaurante novo que ganhou o contrato e achamos ter fraudado a licitação este ano. O pessoal da cúpula não concordou e  entrou com o pedido de anulação por aqui. Achamos muito estranho o Karlinho não ter ganhado. Todo mundo se beneficiava com o Karlinho tendo o contrato.

– Ah sim, o Karlinho é muito melhor.

– Doutor Duarte suspeita que o dono do Franguitos adulterou o Alvará. Não sei se o pessoal do departamento de contratos mudou. Por sorte, foi um erro de português que levantou essa hipótese e pode ter desmascarado os meliantes. Apesar de eles possuírem muito talento para forjar um documento.

-Ah sim o erro de português…

– O assado com cedilha! Eles colocaram “Franguitos Açados e Açaí”. Quando os denunciamos eles ainda falaram que era assim mesmo, para dar ênfase que também vendem açaí.

– Que tragédia para o português.

– Sim, e agora sem o Doutor Duarte para dar continuidade, suponho que o processo vai ser arquivado. Outra tragédia. O ensopado de carne do Karlinho é um espetáculo! Fora a sobremesa, se é que me entende.

Despedi do amável colega do departamento de alguma empresa sei lá de onde e me dediquei ao que interessava no momento. Encontrar o Doutor Duarte e seus filhos.

Parecia que Doutor Duarte e filhos sofreram algum tipo de retaliação do pessoal do Franguitos. Fui ao “Franguitos Açados e Açaí”, cujo nome escrito na placa era com o cedilha mesmo. Lá um senhor de barba espessa e camisa do Vasco me disse que não sabia do paradeiro do Doutor Duarte. Contudo afirmou que conhecia o filho mais novo dele, pois ele frequenta o local desde que inaugurou para tomar o Açaí, o melhor da região. Esteve lá pela última vez há uns dois dias, dizendo que tinha um jantar de família em um restaurante naquela noite.

“Opa”, pensei, “acho que sei onde é este restaurante.”

Karlinho ficava a poucas quadras do Franguitos. Lá estava uma fita zebrada na porta com um aviso: Interditado.

Karlinho não seguia as regras sanitárias. Houve um surto. Não demorou muito para descobrir que Doutor Duarte e seus filhos estavam internados com intoxicação alimentar no Hospital Regional.

Caso encerrado. Karlinho de fato havia perdido a licitação. Doutor Duarte e a cúpula dos departamentos tentaram difamar o Franguitos, talvez pela sobremesa ser mais saborosa no Karlinho. Não se sabe se o Franguitos oferece sobremesa para outra cúpula. O que não faltam são cúpulas. Quem sabe a atual cúpula beneficiada do departamento seja vascaína. 

Tadeu não me pagou, porque agora estava sem emprego. Mas fez questão de me comprar um Açaí do Franguitos. Realmente muito bom.

Pílulas de sabedoria da Rita Bee #01

Tudo está conectado

Era tarde de domingo, a abelhinha Lina Bee apareceu para tomar o tradicional mel, comer favinhos e escutar as histórias cheias de sabedoria contadas pela filósofa vovó Rita Bee, a abelha.

Lina Bee tem o espírito aventureiro, é muito curiosa e questionadora. Vovó Rita Bee é acolhedora e amansa a vontade de fogo da neta com pílulas de sabedoria, afinal é uma filósofa e das mais experientes. Acredita que tudo nesta vida está conectado e que há uma consciência superior que rege com maestria o universo.

– Vovó Rita, essa semana estive confusa. Eu me senti vazia, como se estivesse realizando as coisas no automático. Tudo muito corrido, com muita competição, muita informação… é sufocante! Às vezes penso que é sem sentido. Como se cada abelha estivesse em seu próprio mundo, separado de todo o resto. O que eu faço com essa sensação?

– Lina, minha querida, hoje vou te contar uma história bem interessante. Ela vem de uma terra distante, muito a leste daqui e possui uma sabedoria ancestral. Lembre-se, acumular conhecimento não quer dizer ter sabedoria. A sabedoria é talhada com paciência e perseverança dentro do caminho longo, sem atalhos. É uma mistura do pensamento e da consciência. É importante a informação, contudo mais importante é a formação do seu ser.

-Sim, vovó! Da última vez que estive aqui aprendi que devo seguir o caminho do meio, do equilíbrio – disse Lina levando a canequinha à boca para saborear o melhor mel orgânico de todo o reino.

Lina adorava ir à casa da vovó Rita Bee, aprender sobre sua filosofia e ouvir a coletânea de discos da banda “Bee Tall’s”, a maior de todos os tempos na concepção da sua velha e sábia vovó.

-Muito bem, Lina. Vamos a história. Ela é um ensinamento sobre “O Todo”, sobre o que seria o Espírito, a Alma e o Corpo.

Lina inclinou o corpo para frente, ávida pela história.

– Imagine um colar de pérolas. Agora, imagine que cada pérola é um ser vivo. Toda pérola acredita que seu propósito é usar toda sua reluzente estrutura esférica polida para brilhar no colar. Algumas tentam desesperadamente brilhar mais que outras. Imagine agora que certa vez, uma pequena pérola tem um chamado interno forte. Ela se perguntou: “A vida é só isso? O sentido da vida é que devo ser a mais brilhante de todas? Qual o significado disso tudo?” A pequena pérola estava diante de uma crise existencial e, como é de se esperar nesses casos, passou a questionar as coisas externas, aquelas que é possível ver com os olhos físicos. Insatisfeita e sem resposta no externo, iniciou uma jornada para o seu interior. Pobre da pequena pérola! No começo era só escuridão e tropeços. Ela não conseguia ver nada, só o vazio. E só “ouvia” os próprios pensamentos acelerados, na maioria das vezes uma cruel autocobrança. A pequena pérola não encontrou nada durante um tempo, pois ela estava habituada a ver apenas o que existia no exterior, apenas o seu brilho e o brilho das outras pérolas. Contudo, a pequena pérola era dotada de perseverança e continuou tentando encontrar alguma coisa em seu interior,  silenciando um pouco as vozes. Ela pensava: “Deve haver algo! Algo que não consigo enxergar agora porque eu estava muito focada no excesso de brilho exterior que me ofusca os olhos. O que eu busco deve ser de um material diferente, quero ver a minha essência.”

Vovó Rita Bee fez uma pausa para beber um pouquinho de mel orgânico da sua canequinha branca e mordiscar um favinho. Lina Bee não se moveu da cadeira, estava atenta e ansiosa pelo desfecho.

– Então – vovó Rita Bee retomou – a pequena pérola viu algo. Depois de muita meditação e paciência e também depois de tropeços e dores, ela teve uma pequena visão. Ela viu um fio fino, quase imperceptível, que passava dentro do seu corpo perfeitamente esférico e reluzente. “Ah, que alegria!”, exclamou a pequena pérola. “Esse fio deve ser a minha essência!” Quando a pequena pérola percebe a sua essência, que na verdade sempre esteve ali, ela desperta. A sensação de vazio é preenchida. Aquela pequena pérola se torna mais sábia e desenvolve um desejo interno claro e forte: “Gostaria que as outras pérolas também despertassem!”

Vovó Rita Bee percebendo a ansiedade da neta faz uma nova pausa. Ela dá mais um longo gole no delicioso mel orgânico, saboreando toda a doçura. Lina Bee quase cai da cadeira.

– E aí, o que a pequena pérola faz com esse desejo?

– O que você acha que ela fez?

– Bom, se fosse comigo eu tentaria despertar as outras pérolas.

-Como?

– Contando para elas o que aconteceu comigo.

– E se não quiserem te ouvir?

– Oras – disse Lina Bee já impaciente – seriam umas tontas!

Vovó Rita Bee foi até a estante de discos e escolheu um dos “Bee Tall’s” e o colocou na vitrola para tocar. Lina Bee a acompanhou e sabia que a pausa era proposital. Toda vez que ela era tomada por alguma ansiedade além da conta, sua avó lhe dava um momento de reflexão, um momento para acalmar os próprios pensamentos. O chiado da agulha no vinil se tornou audível e logo depois o som de instrumentos musicais em harmonia encheu a sala. Depois de alguns segundos, ouviam-se as palavras “Amor, amor, tudo que precisamos é amor” pronunciadas melodiosamente por uma voz suave.

Vovó Rita voltou à mesa e olhando para a neta agora mais calma, sentou-se e retomou o assunto.

– E se eu te contasse, minha querida, que além deste reino de Hymenoptera existe um outro muito maior rodeado por água, onde não existe Colméia, não existe mel orgânico, não existe abelhas e todos os seres que vivem lá tem outro tipo de pele, têm as escamas e não tem asinhas, mas nadadeiras, e ainda por cima respiram embaixo d’água?

– Isso existe?

– Sim, eu já vi. Inclusive conheço um daqueles seres aquáticos.

– Que incrível!

– Você acredita?

– Sim… Bem… eu nunca vi isso, mas se a senhora está dizendo…

– Nem todos irão acreditar! Você passará a acreditar quando tiver a experiência. E está tudo bem não acreditar! Nem toda abelha conheceu o Mar, e algumas nunca irão conhecer e por não ter conhecido elas não acreditam que exista. Contudo o Mar existe, mesmo que você ou qualquer outra abelha não acredite que ele exista.

Lina Bee ficou pensativa. Pegou a canequinha, tomou mais um gole do mel orgânico e deixou a doçura descer a garganta. A música dos “Bee Tall’s” ainda tocava, enchendo a sala de melodia e um clima erudito.

– Minha querida neta, vou terminar a história da pequena pérola. Depois de despertar e desejar que outras pérolas também despertassem, a pequena pérola começou a fazer o que podia para cumprir o seu desejo. Ela agia de acordo com a sua essência. Ela pregava a cooperação e não a competição. Contribuir e não acumular. Ela dizia para suas amigas: “Olhem para dentro, percebam o fio que passa em seu interior!” Todo esse empenho interior da pequena pérola refletiu ao seu redor. E então, ela notou que algumas passaram pelo mesmo processo que ela e despertaram. Outras ainda ficaram adormecidas para este sentimento. Contudo, isso não a abateu. Cada um está no seu próprio passo e possui o livre arbítrio.  Até que, após o despertar de muitas pérolas, a pequena pérola percebeu que o mesmo fio que passa por dentro de si, passa também por todas as outras. O fio é apenas um e sempre o mesmo. “Estamos todos conectados!”, exclamou a pequena pérola ao despertar para essa realidade. Ela ainda descobrirá, por fim, que estando todas conectadas, inevitavelmente, todas elas despertarão para a unidade, em algum momento. Fim. Essa é a história de Sutratma, que ilustra perfeitamente a natureza essencial das coisas viventes. A pérola é o corpo, o pedaço de fio em seu interior é a alma e o fio inteiro é o Espírito, o Todo. Somos um fragmento do Todo e nosso chamado é para retornarmos ao Todo mais sábios, mais completos e levando quantas companhias puder.

– Que história linda, vovó! Estamos todos conectados e eu gostaria de encontrar o meu fio interno!

– A busca é contínua, minha querida. Comece silenciando a sua mente e olhando para o seu vazio.

Como surgiu a ideia do blog?

Escrever para me divertir. “E se alguém pudesse ler, também se divertiria? Quem sabe?”

Sabe quando você está no piloto automático? Você tem uma rotina, tem um trabalho, tem os afazeres domésticos, mas tudo meio cinza? Nessas alamedas de penumbra que a vida nos proporciona, tive o meu contato com aquele ser sábio que habita nos confins do coração. Aquele que aparece quando as coisas estão vazias na mente. Você deve saber de quem estou falando. Se não, pelo menos uma vez na vida você ouviu essa voz, mesmo que em um lampejo. Estou falando da voz da intuição.

Nas minhas terapias (porque tive que fazer muitas terapias), fui convidado a meditar. Nada fácil para um iniciante como eu, que pensava que meditar era silenciar completamente a mente. Minha nossa, a mente é uma tagarela! Com o tempo, você percebe que não se trata de silenciar os pensamentos, mas sim de observá-los e deixá-los passar. Nesse meio tempo, algo essencial conversa com você. Vai por mim, uma coisa acontece. Tente! Ocorre uma clara contraposição entre o pensamento acelerado conduzido pela mente e uma sensação de paz conduzida pela intuição. Quero deixar claro que o pensamento, a mente que alguns conhecem como o Ego, não é algo ruim. Ela deveria ser uma ferramenta para nós e não o timoneiro. Do outro lado, a voz que habita nos confins do coração é chamada de muitas coisas. Intuição, Eu Superior, Eu Divino, Deus. Essa me parece ser a chefe, a líder da “bagaça”. Eu gosto de pensar que é a minha parte sábia, a minha parte conectada com o Todo, um Eu Superior. Mas vejam, é uma parte. Não tenho a pretensão de me comparar com nada divino. Eu gosto de ler sobre temas exotéricos, filosofias e todo o pacote zen, e pelo que entendi eu sou um ser bem complexo que veio aqui como uma ideia do TODO para evoluir a minha consciência, ou seja, sou parte do TODO. E, pelo que também entendi caro leitor do outro lado da telinha, você também é. Pelo meu trabalho de expandir a minha consciência, já ajudo na somatória de expansão de consciências no mundo. Olha que sensacional!

Então, por que fazer o blog? Lá na seção “Sobre mim” você verá que quando eu era jovem, muito mais jovem do que hoje (quem pegou a referência?) gostava de escrever e desenhar. O pequeno Luís tinha mais conexão com o sábio do coração. Contudo, penso que o caro leitor que lê estas linhas irá concordar e talvez até se identificar, o caminho se desviou um pouco. Com o passar dos anos, os condicionamentos sociais, obrigações, diploma, profissão, ser bem sucedido e ter dinheiro começaram a permear a vida do pequeno Luís. A sorte é que existem Professores neste mundo. E digo Professores com P maiúsculo, pois foram capazes, digamos assim, de encapsular a essência do pequeno Luís. Eu me lembro de duas professoras de Português, Vânia e Sônia, que incentivavam os alunos a escrever redações e a ler livros. E lá foi o pequeno Luís tomar gosto pela leitura. Lia livros da Editora Ática da coleção “Para gostar de ler” e livros de crônicas de Luís Fernando Veríssimo (se leram “Sobre mim” sabem que eu o chamo carinhosamente de Xará Veríssimo, o estilo de escrita dele é minha inspiração, acho o máximo!) Enfim, desses muitos trabalhos de Português nasceram dois personagens na época que estão neste blog. O detetive particular Ted Rocky e a abelhinha Lina.

E aqui está o porquê, meu caro leitor que já deve estar cansado de acompanhar o meu relato maçante. Fui chamado pela minha essência recém desperta daquela “cápsula” para fazer algo que me deixa em Flow: escrever e criar histórias (até me arrepiei enquanto escrevia isto). Sinto que é algo que pode ajudar as pessoas. Algo que pode melhorar o dia de alguém. Então, pensei, por que não?

Um livro que me marcou muito nessa jornada até aqui se chama “Roube como um artista” de Austin Kleon, indicado pelo mestre da criatividade brasileira Murilo Gun (se não o conhece, procure saber sobre esse cabra!) Já no começo do livro, Kleon cita uma frase atribuída a Pablo Picasso: “Arte é furto.” Basicamente ele demonstra o enunciado de Lavoisier na arte dizendo que nada é original. Ele diz: “Todo trabalho criativo é construído sobre o que veio antes.” Não sei você, mas isso faz um puto sentido pra mim.

Lá no capítulo 3, eu li: “Escreva o livro que você quer ler.” E ele continua: “Escreva sobre o que você gosta e não sobre o que você conhece.” Acho justo. Eu sou graduado em Farmácia e estou como servidor público no meu município. Poderia escrever sobre muitas coisas técnicas da área, pois tenho conhecimento. Entretanto, não quero. Quero escrever sobre as aventuras de um detetive particular brasileiro que desvenda casos dos mais inusitados em meio a uma crise econômica ou escrever uma fábula que contém uma mensagem mais profunda sobre autoconhecimento e filosofia tendo como protagonistas uma vovó abelha chamada Rita Bee e sua neta Lina Bee ou ainda escrever sobre as peripécias de torcedores de futebol apaixonados pelos seus times. Sobre isso eu gostaria de escrever. E foi o que eu fiz.

Para finalizar o meu raciocínio (prometo que estou acabando), Austin Kleon diz: “Faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas.”

Eu não saberia dizer se o caro leitor julgará o meu trabalho bom, se o conhecer. Tudo bem! Para mim, ele é desafiante, há falhas e há melhorias. Criar e alimentar este site/blog é um desafio. Começar a escrever foi um desafio. Encorajado pelas passagens do livro do Austin, foi durante um fim de semana em Lavras Novas com minha amada esposa Talita, tomando um vinho em um chalezinho (Lavras Novas é um belo lugar, tem uma energia muito gostosa, eu recomendo) e também encorajado por ela que eu comecei a escrever os contos enterrados no fundo da cabeça criativa do pequeno Luís com uma nova roupagem. Ressurgiram Ted Rocky, a abelhinha Lina e outros personagens que já estavam lá no arquivo da mente.

O “como” compartilhar foi iluminado pela minha prima Luanda em uma conversa casual, dias depois. Quando eu disse a ela que começara a atacar de escritor ela perguntou: “Você tem intenção de que as pessoas vejam? Se sim, eu sugiro a você criar um blog.” Pronto, olha eu aqui!

Enfim, penso que o trabalho começa a se tornar bom na medida que eu sinto o aumento da minha vibração e entro em Flow. Ao deixar a minha energia vibrando alto, eu me ajudo e por tabela ajudo quem está ao meu redor. Eu acredito nisso.

Se você leu até aqui, gratidão. Aproveito o momento para prestar gratidão às minhas professoras, à minha prima, à minha esposa e a todas as pessoas que me ajudaram na minha jornada.

Eu sou o Luís Fernando Gurgel e escrevo aqui no CrônicaBox. Faço votos que você do outro lado da telinha se divirta.