P.I.S.T.A. #01

O que é P.I.S.T.A.?

Olá, caro leitor do outro lado da telinha! Em uma das minhas viagens no Vale da Mirabolância ( este é o nome que eu dei para as minhas flexões de mente), motivado e inspirado pelo mestre da criatividade brasileira Murilo Gun (como eu já disse em um outro post, se você não o conhece, procure saber sobre esse cabra!), eu tive um insight bem louco. 

Murilo em uma aula do seu curso chamado Reaprendizagem Criativa (phodaralho, recomendo!) discorreu sobre o que ele e seus amigos batizaram de Gravidade Zero. Um conceito bem interessante que se desenvolve em torno de uma pergunta central: “O que te faz ficar leve na vida?

E a pegada é holística, é uma tentativa de unificar as coisas boas em todas as áreas da vida. Um hardwork, como Murilo gosta de falar. Não raramente, temos a percepção de estar bem em uma área da vida e capenga em outra. Bem na área profissional, mas capenga na área de relacionamento afetivo, por exemplo. 

E vejam, eu disse percepção, porque acredito que é uma crença limitante. Como aquela velha frase “Azar no jogo, sorte no amor”. Uai, porque não posso ter sorte no jogo e sorte no Amor? Quem disse que isso é proibido?

Enfim, no meio dessa minha viagem mirabolante, me veio a ideia de P.I.S.T.A. “O que é isso, Luís, ‘pelamordedeus’! Algo a ver com estar na pista para negócio?” Não sei se o caro leitor do outro lado da telinha pensou nisso, porque eu pensei durante a minha conversa interna. Vou te dar uma pista, agora! A estrada é longa!

P.I.S.T.A. é o acrônimo de Prosa Inventiva (pra) Sortá (os) Trem Acumulado (assim mesmo, bem no “mineirês”). 

Estou lançando aqui um cantinho para que possamos trocar as roupas pesadas por peças mais confortáveis, formatar nosso hardware mental, formatar nossas crenças e rodar um sistema com mais leveza, velocidade e liberdade.

“Assumir a missão de alcançar a essência do ESTAR humano e do SER espiritual.” Essa frase tão bonita eu ouvi em uma das aulas do Murilo Gun com sua turma de amigos, Tânia Mujica, Renan Hannouche e Dante Freitas.

Então é isso meu caro leitor, vamos “sortá” os “trem acumulado” para viver com mais leveza e cumprir nossa jornada humana, que acredito ser a evolução da nossa consciência. Qual a pista a vida está lhe dando?

O Torcedor #01

O Princípio da “Gorada”

“Gol! Ah que pena… Perdeu um gol feito!”

– Quem chamou esse cara?

– Eu chamei, ele é o meu primo!

– Você não explicou para ele o Princípio da Gorada?

– Não, mano! Ele não conhece.

– Não acredito mano!

– O que é o Princípio da Gorada?

– Resumidamente, primo, quando gritamos gol antes do nosso time concluir a jogada é 100% de certeza que o gol não sairá. Então, no ataque do nosso time, ficamos calados sem esboçar reação.

– Nada a ver!

– Nada a ver? Quem chamou esse cara?

– Primo, temos observações relevantes. Pense que é como uma tese científica e ela tem efeito. É incrível, não falha. Testamos durante muito tempo e estamos aplicando nesse campeonato.

– Sei…

– Confia.

– Huuuum… Agora é caixa!

– Uai, você está torcendo pelo time adversário?

– Mano… Eu insisto, quem chamou esse cara?

– Primo, o Princípio da Gorada serve para toda a situação de gol, de maneira que podemos manipulá-lo a nosso favor. Então, toda vez que o time adversário ataca, nós gritamos Gol ou expressões que lembrem o tento no futebol.

– Ah, entendi.

– Espero que sim, primo do mano. Que isso não se repita mais.

– Escanteio para eles.

– Agora é gol!

– Cara… Mano… Gol deles! Não vai dar. Você não poderá trazer mais o seu primo aqui.

– Mas eu gritei gol no ataque do adversário!

– Primo, se não for de coração, não dá certo.

– Como é?

– Sério mano. Desse jeito nós vamos perder o jogo.

– Esse Princípio é muito complexo. Vou à cozinha buscar mais cerveja.

– Boa primo.

– Mano, sua sorte é que seu primo trouxe a…

– …

– GOOOOOOOOOL!!!!

– Olha aí, não falha!

– Foi gol?

– Você terá que ficar na cozinha, infelizmente. Empatamos sem você aqui.

– Mas eu quero ver o jogo.

– Mano quem chamou esse cara?

As aventuras do Detetive Ted Rocky #01

Ted Rocky e o estagiário

Ted Rocky detetive particular, ex-pugilista, herdeiro de um escritório de advocacia. Vim de uma família abastada. Abri mão da carreira no Direito e decidi o meu próprio caminho. A pindaíba de um detetive autônomo. Gosto de aventuras. Já me acusaram de abestado. Não ligo.

Herdei os olhos de minha mãe e o corpo atlético de meu pai. Deixo a barba por fazer, pra dar um charme como de um galã descompromissado. Tenho a aparência de Lázaro Ramos, o gingado de Xandy do Harmonia e a sagacidade de compadre Washington. Meu nome vem da época de pugilismo. Perdi a conta de quantas vezes assisti aos filmes de Rocky Balboa. Menos o Rocky 5. O Rocky 5 não deve entrar na contagem desta grandiosa obra. Meu apelido vem daí? Talvez. Ou possa ser pelas repetidas vezes que fui a lona. Mas levantava. Na maioria das vezes. Às vezes em um hospital.

Já me conformava a entrar no cheque especial quando recebi a visita de um potencial cliente. O primeiro daquele terrível mês de vacas magras. A pessoa estava esbaforida. Era um sujeito de traços jovens, levemente acima do peso, camisa e calça social. O suor formava um “V” no centro do seu peito largo.

-Ted Rocky, o detetive?

-Sim, você olha para a versão mais sofrida dele. Em que posso ajudar?

-Preciso encontrar o meu chefe. Ele está desaparecido.

Que fato curioso, alguém preocupado em encontrar um chefe. “Que rapaz altruísta”, pensei.

-Seu chefe. Me explique melhor, senhor…?

-Tadeu. Eu sou estagiário do escritório de advocacia Duarte & Filhos. Completaram dois dias do desaparecimento do meu chefe. Preciso encontrá-lo!

– Duarte & Filhos? Então se supõe que ele tem filhos. Por que o estagiário do escritório estaria mais preocupado que a própria família?

Perguntei de forma suave, para não ofender. Sou assim, justo e coração puro. Só um pouco desconfiado.

-Bem, é que os dois filhos também sumiram. E ele é divorciado, a ex-mulher não quer vê-lo nem pintado de ouro.

Aquilo não cheirava bem.

-Então meu caro Tadeu, você está me dizendo que a família inteira sumiu? Suponho que seja um caso de sequestro e que a Polícia deveria ser acionada, mas se você me procurou não é isso, certo?

Tadeu olhou de lado. Penso que acertei.

Tadeu sentou na banqueta disponível da minha sala. Eu trouxe a banqueta da minha kitchenette. A única cadeira de plástico que eu tinha para a sala foi quebrada durante uma invasão de um grupo de ativistas do meio ambiente aqui no prédio, semana passada. O protesto tinha a ver com o corte de árvores na área do parque municipal. O tumulto foi no corredor do meu andar. O dono da imobiliária que funciona na última sala comercial faz parte do Conselho de Meio Ambiente do Município. Os ativistas pareciam descontentes com o voto dele. Tentei mediar o desentendimento entre as partes, mas julgaram que eu estava defendendo o outro lado. Um dos ativistas invadiu minha sala e quebrou a cadeira de plástico na minha cabeça. A funcionária da imobiliária pegou a perna quebrada da cadeira para me bater também. Eu era odiado pelos dois lados. Rocky. Ted Rocky. Detetive particular. E descadeirado.

– Senhor detetive, você precisa me entender, eu sou apenas o estagiário do escritório! Estão tentando colocar a culpa em mim!

Realmente, algo não cheirava bem e não era o presunto que deixei do lado de fora da geladeira por pura negligência desde a tarde de ontem. Tadeu, o estagiário, continuou o seu relato.

– Há dois dias umas pessoas estiveram no escritório conversando com Doutor Duarte. No outro dia ele já não foi trabalhar. Eu não estranhei, Doutor Duarte já ficou uma semana sem ir ao escritório e voltou bronzeado. Ele sempre volta. Mas, hoje eu recebi uma papelada dessas pessoas que conversaram com ele há dois dias e assinei um protocolo. Tudo parecia certo, aí eles me perguntaram se o esquema da licitação estava nos conformes. Eu simplesmente respondi sim e meu mundo veio abaixo.

-E o que é o esquema da licitação?

– Eu sei lá!? Achei que fosse algo já resolvido no processo dos doutores! Sempre respondi sim e ninguém me fazia mais perguntas. 

Clássico deslize de estagiário. Responde com a certeza de quem não faz a mínima ideia do que seja.

– Acontece que agora essas pessoas estão me fazendo muitas perguntas que não sei responder. Eles me perguntaram do Doutor Duarte e ele sumiu. Eu não sei o que fazer, por isso te procurei. Vi o seu anúncio do outro lado da rua, na janela de vidro.

Bendita plotagem na janela da minha sala.

-Ótimas notícias Tadeu. Vou aceitar o seu caso. Me leve ao seu escritório.

O escritório Duarte & Filhos ficava no outro quarteirão. Descobri que as pessoas que atormentavam o Tadeu estavam lá. Tentei me enturmar.

– Que coisa esse sumiço do doutor hein?

Um sujeito baixo com camisa xadrez, de óculos fundo de garrafa se manifestou.

– Pois é, ele tem que aparecer. Você é de qual departamento?

– Departamento anel rodoviário.

– Não conheço.

– É recente.

– Eles são mestres em inventar departamentos.

– Esse esquema estava no papo.

– Nem fala. Era simples. Afetou toda a nossa vida. A vida inteira almoçamos no Karlinho, esse era o esquema. Nem me imagino almoçando no Franguitos, não conhecemos ninguém lá.

-Como é?

– Franguitos! O restaurante novo que ganhou o contrato e achamos ter fraudado a licitação este ano. O pessoal da cúpula não concordou e  entrou com o pedido de anulação por aqui. Achamos muito estranho o Karlinho não ter ganhado. Todo mundo se beneficiava com o Karlinho tendo o contrato.

– Ah sim, o Karlinho é muito melhor.

– Doutor Duarte suspeita que o dono do Franguitos adulterou o Alvará. Não sei se o pessoal do departamento de contratos mudou. Por sorte, foi um erro de português que levantou essa hipótese e pode ter desmascarado os meliantes. Apesar de eles possuírem muito talento para forjar um documento.

-Ah sim o erro de português…

– O assado com cedilha! Eles colocaram “Franguitos Açados e Açaí”. Quando os denunciamos eles ainda falaram que era assim mesmo, para dar ênfase que também vendem açaí.

– Que tragédia para o português.

– Sim, e agora sem o Doutor Duarte para dar continuidade, suponho que o processo vai ser arquivado. Outra tragédia. O ensopado de carne do Karlinho é um espetáculo! Fora a sobremesa, se é que me entende.

Despedi do amável colega do departamento de alguma empresa sei lá de onde e me dediquei ao que interessava no momento. Encontrar o Doutor Duarte e seus filhos.

Parecia que Doutor Duarte e filhos sofreram algum tipo de retaliação do pessoal do Franguitos. Fui ao “Franguitos Açados e Açaí”, cujo nome escrito na placa era com o cedilha mesmo. Lá um senhor de barba espessa e camisa do Vasco me disse que não sabia do paradeiro do Doutor Duarte. Contudo afirmou que conhecia o filho mais novo dele, pois ele frequenta o local desde que inaugurou para tomar o Açaí, o melhor da região. Esteve lá pela última vez há uns dois dias, dizendo que tinha um jantar de família em um restaurante naquela noite.

“Opa”, pensei, “acho que sei onde é este restaurante.”

Karlinho ficava a poucas quadras do Franguitos. Lá estava uma fita zebrada na porta com um aviso: Interditado.

Karlinho não seguia as regras sanitárias. Houve um surto. Não demorou muito para descobrir que Doutor Duarte e seus filhos estavam internados com intoxicação alimentar no Hospital Regional.

Caso encerrado. Karlinho de fato havia perdido a licitação. Doutor Duarte e a cúpula dos departamentos tentaram difamar o Franguitos, talvez pela sobremesa ser mais saborosa no Karlinho. Não se sabe se o Franguitos oferece sobremesa para outra cúpula. O que não faltam são cúpulas. Quem sabe a atual cúpula beneficiada do departamento seja vascaína. 

Tadeu não me pagou, porque agora estava sem emprego. Mas fez questão de me comprar um Açaí do Franguitos. Realmente muito bom.

Pílulas de sabedoria da Rita Bee #01

Tudo está conectado

Era tarde de domingo, a abelhinha Lina Bee apareceu para tomar o tradicional mel, comer favinhos e escutar as histórias cheias de sabedoria contadas pela filósofa vovó Rita Bee, a abelha.

Lina Bee tem o espírito aventureiro, é muito curiosa e questionadora. Vovó Rita Bee é acolhedora e amansa a vontade de fogo da neta com pílulas de sabedoria, afinal é uma filósofa e das mais experientes. Acredita que tudo nesta vida está conectado e que há uma consciência superior que rege com maestria o universo.

– Vovó Rita, essa semana estive confusa. Eu me senti vazia, como se estivesse realizando as coisas no automático. Tudo muito corrido, com muita competição, muita informação… é sufocante! Às vezes penso que é sem sentido. Como se cada abelha estivesse em seu próprio mundo, separado de todo o resto. O que eu faço com essa sensação?

– Lina, minha querida, hoje vou te contar uma história bem interessante. Ela vem de uma terra distante, muito a leste daqui e possui uma sabedoria ancestral. Lembre-se, acumular conhecimento não quer dizer ter sabedoria. A sabedoria é talhada com paciência e perseverança dentro do caminho longo, sem atalhos. É uma mistura do pensamento e da consciência. É importante a informação, contudo mais importante é a formação do seu ser.

-Sim, vovó! Da última vez que estive aqui aprendi que devo seguir o caminho do meio, do equilíbrio – disse Lina levando a canequinha à boca para saborear o melhor mel orgânico de todo o reino.

Lina adorava ir à casa da vovó Rita Bee, aprender sobre sua filosofia e ouvir a coletânea de discos da banda “Bee Tall’s”, a maior de todos os tempos na concepção da sua velha e sábia vovó.

-Muito bem, Lina. Vamos a história. Ela é um ensinamento sobre “O Todo”, sobre o que seria o Espírito, a Alma e o Corpo.

Lina inclinou o corpo para frente, ávida pela história.

– Imagine um colar de pérolas. Agora, imagine que cada pérola é um ser vivo. Toda pérola acredita que seu propósito é usar toda sua reluzente estrutura esférica polida para brilhar no colar. Algumas tentam desesperadamente brilhar mais que outras. Imagine agora que certa vez, uma pequena pérola tem um chamado interno forte. Ela se perguntou: “A vida é só isso? O sentido da vida é que devo ser a mais brilhante de todas? Qual o significado disso tudo?” A pequena pérola estava diante de uma crise existencial e, como é de se esperar nesses casos, passou a questionar as coisas externas, aquelas que é possível ver com os olhos físicos. Insatisfeita e sem resposta no externo, iniciou uma jornada para o seu interior. Pobre da pequena pérola! No começo era só escuridão e tropeços. Ela não conseguia ver nada, só o vazio. E só “ouvia” os próprios pensamentos acelerados, na maioria das vezes uma cruel autocobrança. A pequena pérola não encontrou nada durante um tempo, pois ela estava habituada a ver apenas o que existia no exterior, apenas o seu brilho e o brilho das outras pérolas. Contudo, a pequena pérola era dotada de perseverança e continuou tentando encontrar alguma coisa em seu interior,  silenciando um pouco as vozes. Ela pensava: “Deve haver algo! Algo que não consigo enxergar agora porque eu estava muito focada no excesso de brilho exterior que me ofusca os olhos. O que eu busco deve ser de um material diferente, quero ver a minha essência.”

Vovó Rita Bee fez uma pausa para beber um pouquinho de mel orgânico da sua canequinha branca e mordiscar um favinho. Lina Bee não se moveu da cadeira, estava atenta e ansiosa pelo desfecho.

– Então – vovó Rita Bee retomou – a pequena pérola viu algo. Depois de muita meditação e paciência e também depois de tropeços e dores, ela teve uma pequena visão. Ela viu um fio fino, quase imperceptível, que passava dentro do seu corpo perfeitamente esférico e reluzente. “Ah, que alegria!”, exclamou a pequena pérola. “Esse fio deve ser a minha essência!” Quando a pequena pérola percebe a sua essência, que na verdade sempre esteve ali, ela desperta. A sensação de vazio é preenchida. Aquela pequena pérola se torna mais sábia e desenvolve um desejo interno claro e forte: “Gostaria que as outras pérolas também despertassem!”

Vovó Rita Bee percebendo a ansiedade da neta faz uma nova pausa. Ela dá mais um longo gole no delicioso mel orgânico, saboreando toda a doçura. Lina Bee quase cai da cadeira.

– E aí, o que a pequena pérola faz com esse desejo?

– O que você acha que ela fez?

– Bom, se fosse comigo eu tentaria despertar as outras pérolas.

-Como?

– Contando para elas o que aconteceu comigo.

– E se não quiserem te ouvir?

– Oras – disse Lina Bee já impaciente – seriam umas tontas!

Vovó Rita Bee foi até a estante de discos e escolheu um dos “Bee Tall’s” e o colocou na vitrola para tocar. Lina Bee a acompanhou e sabia que a pausa era proposital. Toda vez que ela era tomada por alguma ansiedade além da conta, sua avó lhe dava um momento de reflexão, um momento para acalmar os próprios pensamentos. O chiado da agulha no vinil se tornou audível e logo depois o som de instrumentos musicais em harmonia encheu a sala. Depois de alguns segundos, ouviam-se as palavras “Amor, amor, tudo que precisamos é amor” pronunciadas melodiosamente por uma voz suave.

Vovó Rita voltou à mesa e olhando para a neta agora mais calma, sentou-se e retomou o assunto.

– E se eu te contasse, minha querida, que além deste reino de Hymenoptera existe um outro muito maior rodeado por água, onde não existe Colméia, não existe mel orgânico, não existe abelhas e todos os seres que vivem lá tem outro tipo de pele, têm as escamas e não tem asinhas, mas nadadeiras, e ainda por cima respiram embaixo d’água?

– Isso existe?

– Sim, eu já vi. Inclusive conheço um daqueles seres aquáticos.

– Que incrível!

– Você acredita?

– Sim… Bem… eu nunca vi isso, mas se a senhora está dizendo…

– Nem todos irão acreditar! Você passará a acreditar quando tiver a experiência. E está tudo bem não acreditar! Nem toda abelha conheceu o Mar, e algumas nunca irão conhecer e por não ter conhecido elas não acreditam que exista. Contudo o Mar existe, mesmo que você ou qualquer outra abelha não acredite que ele exista.

Lina Bee ficou pensativa. Pegou a canequinha, tomou mais um gole do mel orgânico e deixou a doçura descer a garganta. A música dos “Bee Tall’s” ainda tocava, enchendo a sala de melodia e um clima erudito.

– Minha querida neta, vou terminar a história da pequena pérola. Depois de despertar e desejar que outras pérolas também despertassem, a pequena pérola começou a fazer o que podia para cumprir o seu desejo. Ela agia de acordo com a sua essência. Ela pregava a cooperação e não a competição. Contribuir e não acumular. Ela dizia para suas amigas: “Olhem para dentro, percebam o fio que passa em seu interior!” Todo esse empenho interior da pequena pérola refletiu ao seu redor. E então, ela notou que algumas passaram pelo mesmo processo que ela e despertaram. Outras ainda ficaram adormecidas para este sentimento. Contudo, isso não a abateu. Cada um está no seu próprio passo e possui o livre arbítrio.  Até que, após o despertar de muitas pérolas, a pequena pérola percebeu que o mesmo fio que passa por dentro de si, passa também por todas as outras. O fio é apenas um e sempre o mesmo. “Estamos todos conectados!”, exclamou a pequena pérola ao despertar para essa realidade. Ela ainda descobrirá, por fim, que estando todas conectadas, inevitavelmente, todas elas despertarão para a unidade, em algum momento. Fim. Essa é a história de Sutratma, que ilustra perfeitamente a natureza essencial das coisas viventes. A pérola é o corpo, o pedaço de fio em seu interior é a alma e o fio inteiro é o Espírito, o Todo. Somos um fragmento do Todo e nosso chamado é para retornarmos ao Todo mais sábios, mais completos e levando quantas companhias puder.

– Que história linda, vovó! Estamos todos conectados e eu gostaria de encontrar o meu fio interno!

– A busca é contínua, minha querida. Comece silenciando a sua mente e olhando para o seu vazio.

Como surgiu a ideia do blog?

Escrever para me divertir. “E se alguém pudesse ler, também se divertiria? Quem sabe?”

Sabe quando você está no piloto automático? Você tem uma rotina, tem um trabalho, tem os afazeres domésticos, mas tudo meio cinza? Nessas alamedas de penumbra que a vida nos proporciona, tive o meu contato com aquele ser sábio que habita nos confins do coração. Aquele que aparece quando as coisas estão vazias na mente. Você deve saber de quem estou falando. Se não, pelo menos uma vez na vida você ouviu essa voz, mesmo que em um lampejo. Estou falando da voz da intuição.

Nas minhas terapias (porque tive que fazer muitas terapias), fui convidado a meditar. Nada fácil para um iniciante como eu, que pensava que meditar era silenciar completamente a mente. Minha nossa, a mente é uma tagarela! Com o tempo, você percebe que não se trata de silenciar os pensamentos, mas sim de observá-los e deixá-los passar. Nesse meio tempo, algo essencial conversa com você. Vai por mim, uma coisa acontece. Tente! Ocorre uma clara contraposição entre o pensamento acelerado conduzido pela mente e uma sensação de paz conduzida pela intuição. Quero deixar claro que o pensamento, a mente que alguns conhecem como o Ego, não é algo ruim. Ela deveria ser uma ferramenta para nós e não o timoneiro. Do outro lado, a voz que habita nos confins do coração é chamada de muitas coisas. Intuição, Eu Superior, Eu Divino, Deus. Essa me parece ser a chefe, a líder da “bagaça”. Eu gosto de pensar que é a minha parte sábia, a minha parte conectada com o Todo, um Eu Superior. Mas vejam, é uma parte. Não tenho a pretensão de me comparar com nada divino. Eu gosto de ler sobre temas exotéricos, filosofias e todo o pacote zen, e pelo que entendi eu sou um ser bem complexo que veio aqui como uma ideia do TODO para evoluir a minha consciência, ou seja, sou parte do TODO. E, pelo que também entendi caro leitor do outro lado da telinha, você também é. Pelo meu trabalho de expandir a minha consciência, já ajudo na somatória de expansão de consciências no mundo. Olha que sensacional!

Então, por que fazer o blog? Lá na seção “Sobre mim” você verá que quando eu era jovem, muito mais jovem do que hoje (quem pegou a referência?) gostava de escrever e desenhar. O pequeno Luís tinha mais conexão com o sábio do coração. Contudo, penso que o caro leitor que lê estas linhas irá concordar e talvez até se identificar, o caminho se desviou um pouco. Com o passar dos anos, os condicionamentos sociais, obrigações, diploma, profissão, ser bem sucedido e ter dinheiro começaram a permear a vida do pequeno Luís. A sorte é que existem Professores neste mundo. E digo Professores com P maiúsculo, pois foram capazes, digamos assim, de encapsular a essência do pequeno Luís. Eu me lembro de duas professoras de Português, Vânia e Sônia, que incentivavam os alunos a escrever redações e a ler livros. E lá foi o pequeno Luís tomar gosto pela leitura. Lia livros da Editora Ática da coleção “Para gostar de ler” e livros de crônicas de Luís Fernando Veríssimo (se leram “Sobre mim” sabem que eu o chamo carinhosamente de Xará Veríssimo, o estilo de escrita dele é minha inspiração, acho o máximo!) Enfim, desses muitos trabalhos de Português nasceram dois personagens na época que estão neste blog. O detetive particular Ted Rocky e a abelhinha Lina.

E aqui está o porquê, meu caro leitor que já deve estar cansado de acompanhar o meu relato maçante. Fui chamado pela minha essência recém desperta daquela “cápsula” para fazer algo que me deixa em Flow: escrever e criar histórias (até me arrepiei enquanto escrevia isto). Sinto que é algo que pode ajudar as pessoas. Algo que pode melhorar o dia de alguém. Então, pensei, por que não?

Um livro que me marcou muito nessa jornada até aqui se chama “Roube como um artista” de Austin Kleon, indicado pelo mestre da criatividade brasileira Murilo Gun (se não o conhece, procure saber sobre esse cabra!) Já no começo do livro, Kleon cita uma frase atribuída a Pablo Picasso: “Arte é furto.” Basicamente ele demonstra o enunciado de Lavoisier na arte dizendo que nada é original. Ele diz: “Todo trabalho criativo é construído sobre o que veio antes.” Não sei você, mas isso faz um puto sentido pra mim.

Lá no capítulo 3, eu li: “Escreva o livro que você quer ler.” E ele continua: “Escreva sobre o que você gosta e não sobre o que você conhece.” Acho justo. Eu sou graduado em Farmácia e estou como servidor público no meu município. Poderia escrever sobre muitas coisas técnicas da área, pois tenho conhecimento. Entretanto, não quero. Quero escrever sobre as aventuras de um detetive particular brasileiro que desvenda casos dos mais inusitados em meio a uma crise econômica ou escrever uma fábula que contém uma mensagem mais profunda sobre autoconhecimento e filosofia tendo como protagonistas uma vovó abelha chamada Rita Bee e sua neta Lina Bee ou ainda escrever sobre as peripécias de torcedores de futebol apaixonados pelos seus times. Sobre isso eu gostaria de escrever. E foi o que eu fiz.

Para finalizar o meu raciocínio (prometo que estou acabando), Austin Kleon diz: “Faça um bom trabalho e compartilhe-o com as pessoas.”

Eu não saberia dizer se o caro leitor julgará o meu trabalho bom, se o conhecer. Tudo bem! Para mim, ele é desafiante, há falhas e há melhorias. Criar e alimentar este site/blog é um desafio. Começar a escrever foi um desafio. Encorajado pelas passagens do livro do Austin, foi durante um fim de semana em Lavras Novas com minha amada esposa Talita, tomando um vinho em um chalezinho (Lavras Novas é um belo lugar, tem uma energia muito gostosa, eu recomendo) e também encorajado por ela que eu comecei a escrever os contos enterrados no fundo da cabeça criativa do pequeno Luís com uma nova roupagem. Ressurgiram Ted Rocky, a abelhinha Lina e outros personagens que já estavam lá no arquivo da mente.

O “como” compartilhar foi iluminado pela minha prima Luanda em uma conversa casual, dias depois. Quando eu disse a ela que começara a atacar de escritor ela perguntou: “Você tem intenção de que as pessoas vejam? Se sim, eu sugiro a você criar um blog.” Pronto, olha eu aqui!

Enfim, penso que o trabalho começa a se tornar bom na medida que eu sinto o aumento da minha vibração e entro em Flow. Ao deixar a minha energia vibrando alto, eu me ajudo e por tabela ajudo quem está ao meu redor. Eu acredito nisso.

Se você leu até aqui, gratidão. Aproveito o momento para prestar gratidão às minhas professoras, à minha prima, à minha esposa e a todas as pessoas que me ajudaram na minha jornada.

Eu sou o Luís Fernando Gurgel e escrevo aqui no CrônicaBox. Faço votos que você do outro lado da telinha se divirta.