ECOS DE FERNANDO

O Barbeiro de Plantas #34

Fui acometido de "pessoite".
Desconfio ser crônico.

Muitos conversam na távola da mente.
No Castelo de ideias.
Nem sempre com civilidade.

Fragmentos com personalidade,
se acotovelam para assumir o leme.
Quem organiza essa balbúrdia?
Pessoa?

Todos devem sofrer de "pessoite",
só não assumem.

(In)Certezas

P.I.S.T.A. #26

Humberto Gessinger, filósofo contemporâneo que sublima as suas ideias na forma de música, escreveu em uma de suas obras:

“Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza
E é inútil ter certeza”.

Converso com Gessinger na minha dimensão imaginativa, tomando um chimarrão (já experimentei a bebida, minha sogra é gaúcha) e convido para a resenha outro grande amigo, Sócrates (no meu mundo de entressonho, sou amigo de todos os filósofos, músicos, pintores e artistas que admiro).

Gessinger toca, canta e sapateia Infinita Highway (o homem é uma banda ambulante). Ao final, Sócrates, muito centrado, apenas meneia cabeça em concordância e reitera:

“Como eu disse, só sei que nada sei.”

Bebendo dessa fonte inesgotável de conhecimento, tentando focar os raios da razão para escarafunchar a mente em busca da Sabedoria, eu emendo, tímido, perante as tamanhas vozes. Mas digo, mesmo com medo:

“Tirando a mortalidade, a única certeza, o que sobra é a dúvida. Quanto mais conheço, mais dúvidas tenho. E por desconhecer, fico sabendo da minha ignorância.”

Meus interlocutores sorriem para mim. Neste pedaço de possibilidade, no meu próprio mundo de devaneio, sorrio triunfante sorvendo o chimarrão.

REVOLUÇÃO II

P.I.S.T.A. #25

Hoje eu completo mais uma revolução solar. É a trigésima sexta vez que eu testemunho o Sol passar naquela mesma posição, em algum lugar do Universo, pela Constelação de Gêmeos. Evento grandioso? Nem um pouco, nada de especial, o Sol não se importa. Apenas mais uma vida desafiando as Leis Entrópicas do Universo.

Mas esta vida invoca o ato rebelde contra o caos do Macrocosmo, e celebra a própria perspectiva revolucionária. O sistema de dentro enaltece o Sistema de fora e solta um grito inaudível do anseio de deixar uma marca neste mar de (des)ordem. 

“Viva a minha revolução!”

E após esse gesto insurgente, viajei na palavra Revolução.

Tem dois sentidos segundo o dicionário. Um dos sentidos é o usado na Astronomia e significa retorno periódico de um corpo astral a um ponto da própria órbita.

O outro sentido se refere ao ato ou efeito de revolucionar-se, ou seja, transformar profundamente, causar sensível mudança em alguma coisa.

Esta última definição me acompanhou durante muitas aulas de História. Suponho que todos já ouviram falar das Revoluções Francesa, Americana e dos Cravos. O que esses movimentos sociais tinham em comum era a ideia de quebrar as estruturas de um senso dominante. Como se dissessem: “Ó, esse trem não está bom, não estou satisfeito, quero mudar”. Não raramente, nestes moldes de conflito, ocorriam confrontos físicos e guerras. Robespierre que o diga. 

Na minha viagem, imaginei que dentro de nós há uma parte Robespierre querendo revolucionar a consciência. Transformar as ideias, sair do conformismo e condicionamentos impostos pela atual sociedade.  O mundo diz “seja isso”, “seja aquilo”, “isso será um fracasso”, “aquilo é o certo”, “busque o sucesso”. Este é um discurso que nos coloca em uma prisão.

A Revolução começa quando iniciamos a busca da liberdade de Ser. Sair da “Matrix”. E isso é ótimo! O problema é quando o nosso Robespierre interior, virado no Jiraya, utiliza de violência e quer guilhotinar o “velho eu” opositor de suas ideias. Ele vira um tirano.

O veneno do poder.

Isso pode causar muita dor, pois representa uma briga interna entre duas frentes de pensamentos opostos. Um quer continuar usando a máscara, o outro quer quebrar esta máscara. Nesta hora é preciso uma pacificação, uma mediação de Mahatma Gandhi, talvez. 

Misturando toda essa massa progressista no liquidificador, cheguei ao meu próprio conceito de Revolução.

Perceba, caro leitor, que a palavra evolução está contida em revolução. Posso brincar com os conceitos da gramática e afirmar que o sentido do prefixo “Re-” nesta palavra traz a ideia de repetição e de reforço (eu suprimi uma vogal “e”, considere uma licença poética). 

Portanto, a palavra revolução no dicionário moderno “Luisista” quer dizer evoluir continuamente. 

E trago argumento forte sobre esse sentido, utilizando-me do conceito maravilhoso de Murilo Gun (olha ele aí de novo, cola neste cabra!) sobre a espiral ascendente do conhecimento.

Estamos girando em torno da ideia de sermos livres de pensamentos e com o compromisso de expandir a consciência para contribuir com o aumento da vibração em frequências construtivas no mundo (isso é muito bonito!). Autorresponsabilidade, caro leitor! A cada giro na espiral voltamos a um aparente mesmo ponto, mas estamos um pouco mais acima. A consciência um pouco mais ativa, liberta e dá a energia que propulsiona para um patamar mais alto. Antes o que te afligia era muito doloroso. Com uma revolução e vendo de cima na espiral ascendente, não aflige e nem dói tanto mais.

E assim evoluindo continuamente, “revoluindo”.

Hoje pela manhã minha mãe me enviou os parabéns. Agradeci a ela pela vida. Com o passar das revoluções (astronômicas e transformadoras) sinto que aprecio cada vez mais a vida. Celebre a vida! Celebre a jornada! Confia no processo! 

Que venham mais revoluções para cada vez mais evoluir!

ENTARDECERES…

O BARBEIRO DE PLANTAS #32

O tempo colore sutilmente as paisagens,
(des)colore as passagens.

A vida é uma profusão de alvoradas
e entardeceres.

"De tarde um homem tem esperanças."
Versou Manoel, o mestre dos (des)afazeres.

Vem a penumbra e a esperança de nova alvorada.

O coração do homem é um eterno rolar
de rocha morro abaixo, 
e voltar a rolar rocha morro acima.

Um Sísifo feliz!
Como Camus bem diz.
...

Imagem: arte do perfil @fazedordeamanhecer no Instagram

Sommelier

O Barbeiro de Plantas #31

Não tenho tino para instrumentista.

Mas tenho ouvido bom para sentidos multimídia.

Ando espremendo as palavras
para extrair o suco de sentidos.

Leio e estudo para me formar
em Sommelier de semântica.

Para degustar suas notas.

...

"Todo o texto literário é uma partitura musical. As palavras são as notas. Se aquele que lê é um artista, a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve."

(Rubem Alves)

OLHE PARA CIMA (de vez em quando)

P.I.S.T.A. #24

No fundo, lá no fundo, eu tenho uma ideia de que as coisas que passamos servem para nos ajudar a SER mais humano. Viemos para cá para isso, não é mesmo? Não foi para ser quartzo rosa, uma samambaia, uma flor de laranjeira ou um cachorro (que por vezes acho que são melhores que certos que se dizem humanos).

A filósofa e professora Lúcia Helena Galvão (caro leitor, procure saber sobre esta mulher!) disse em uma palestra que um ser humano que atinge um grau superior de consciência pode iluminar muitos outros, só por eles existirem. O fato de ter existido Sócrates, Platão, Aristóteles, Pitágoras, Sidarta Gautama (o popular Buda), Jesus de Nazaré entre tantos outros seres humanos são exemplos de que nós temos em quem nos mirar. Não tenho a presunção (e acredito nem você), comparar-me a tais figuras extraordinárias. Mas penso que eles deixaram um bom Manual para leigos. Por vezes incluímos essas pessoas no imaginário dos Super Humanos, mas eles foram humanos, no sentido puro da palavra. A professora Lúcia Helena diz na palestra que é como se Buda subisse numa alta montanha e desse tchauzinho para nós aqui embaixo convidando a subir o tortuoso caminho. Ele diria: “Subam, vejam como eu subi. É possível!” Porém, o caro leitor há de concordar, olhando para cima é um “fruta” desafio!

Por que estou nessa viagem toda na PISTA? Porque estas últimas semanas me derrubaram as “barreiras das AM FM e dos elevador”. Senti-me muito pesado. Minha frequência vibrou baixo. Em um momento eu estava centrado, buscando o baricentro e tentando ficar por ali e de repente… Pimba! Caí. O contexto do mundo externo influenciou, com certeza. As energias negativas estão rondando a todos nós. 

Não devo colocar culpa em ninguém, nem nas situações. Virão dias que estaremos tristes e irritados. Pra caramba. Mas aprendi com o Pathwork que existe um negócio chamado autorresponsabilidade.

Ouvi da Professora Lúcia Helena outro dia (estou dizendo, cola nessa mulher!) um saber da escola de filosofia dos estoicos, sendo um dos seus principais pensadores o filósofo Sêneca. Dizia-se que os estoicos seguiam a ideia do sereno contentamento. Este pensamento é para mim a ideia do equilíbrio que eu tenho buscado.

E tem tudo a ver com a Lei Universal do Ritmo, uma das sete leis universais segundo a filosofia hermética (livro que fala disso se chama “O Caibalion”). Em suma, a Lei do Ritmo diz que “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação” (trecho retirado na íntegra do livro O Caibalion).

O que quero comunicar é que estamos todos dentro desse pêndulo chamado vida. Inevitável. Lá nos estudos herméticos é dito que com uma grande dose de treinamento da consciência (que eu chamei de flexões de mente) podemos neutralizar as vibrações negativas. Fixar no topo da página as boas vibrações e olhar para elas quando as vibrações negativas chegarem. Olhar para o topo da montanha e dar tchauzinho para Buda (nó, que viagem!). Mas, claro, isso é mais provável de acontecer se o pêndulo estiver oscilando menos (lembra-se do Sêneca e o equilíbrio?).

Os hermetistas dizem que não é possível destruir a onda das vibrações negativas, a Lei Universal do Ritmo é bem clara. O que os estudantes avançados fazem, segundo o livro, é deixar o pêndulo mental vibrar para trás no plano inconsciente. Eles conseguem recusar as vibrações negativas colocando-as de propósito no inconsciente sem que a Consciência seja afetada. Imagine que é como se estivéssemos pulando uma onda do mar (a maioria de nós já fez isso no ano novo, não é?). Pulamos, mas a onda passa por baixo de nós e continua seu caminho; depois ela se recolhe e volta para o mar. Os hermetistas chamam isso de Transmutação Mental. A Transmutação Mental é o Santo Graal da filosofia hermética, o nível Pós-doc de toda a parada, a faixa preta décimo Dan.

Parece papo de um doido, mas eu acredito nesse trem. E, como disse a professora Lúcia Helena, já existiram seres humanos capazes de realizar isso, então é possível! Vamos tratá-los como faróis para a humanidade. Bom, pelo menos posso tentar dar um tchauzinho para eles mais de perto, olhando para cima de vez em quando (porque não posso deixar de focar no meu caminho a frente) e tentando chegar o mais próximo do topo da montanha que eu conseguir! 

Se o caro leitor do outro lado da telinha chegou até aqui, gratidão! Tenha certeza que escrever isso, especialmente hoje, me fez sentir melhor! “Sortei” os trem acumulado, sô!

Um salve! Namastê! Até a próxima PISTA!

SOBRE O LIVRO UTOPIA PARA REALISTAS

P.I.S.T.A. #23

Deixarei alguns trechos do livro do historiador holandês Rutger Bregman que escreveu sobre um novo olhar para o desenvolvimento de políticas sociais e, por consequência, humanas. Penso que somos seres políticos, naturalmente divergentes, mas com capacidade de debater ideias.

Um preâmbulo sobre a obra. Rutger defende que o sistema capitalista é o motor do progresso, mas falha ao entrar na seara de justiça social. Para o autor, com o avanço irresistível do capitalismo, hoje temos condições de aplicar e viver a justiça social que se encontra sempre a um horizonte de distância. Dentre as propostas, Bregman propõe a renda básica universal, a erradicação da pobreza e a semana de trabalho mais curta, apresentando uma série de argumentos plausíveis, em minha concepção.

Por que não acontece, então, essa virada, essa revolução do sistema sócio-econômico? Por que não utilizar as potências de cada sistema de organização econômica que já foram testados ao longo da história da humanidade? A desigualdade social é algo que também te incomoda?

A seguir os trechos.

“Quando comecei a defender publicamente a renda básica universal, a semana de trabalho mais curta e a erradicação da pobreza, muitas vezes vieram me dizer que essas ideias eram ingênuas, financeiramente inviáveis ou até idiotas.”

“Chamar minhas ideias de “irreais” era apenas uma forma sucinta de dizer que elas não se encaixavam no status quo. E a melhor maneira de calar as pessoas é fazê-las se sentirem tolas.”

“Porém, lembre-se: aqueles que reivindicavam a abolição da escravidão, o voto feminino e o casamento entre pessoas do mesmo sexo também foram chamados de lunáticos um dia. Até a história provar que eles estavam certos.”

(Trechos do livro “Utopia para Realistas” do historiador holandês Rutger Bregman).

Pretendo continuar a refletir sobre o tema, voltando agora para o âmbito mais interior. O filósofo Richard Taylor escreveu: “Se a maneira como você vive a vida é uma resposta para como os outros queriam que você vivesse, então essa vida não é sua.”

És Criador ou Criatura? Estamos meros cumpridores de obrigações, sem escrever a própria biografia? E pior, talvez. Estamos nos tornando máquinas? Sem muito sentimento de pertencimento, apenas o sentimento da  obrigação? Essa discussão permeia minha cabeça no sentido de que se eu não tomar a minha vida nas minhas próprias mãos, se eu não tiver autocontrole e autodomínio, como posso pensar nos distúrbios de fora?

Somos, talvez, a geração do bater de metas. Não de asas.

Quem bate asas não gera o resultado econômico esperado pelo definidor de metas. O que quer esse definidor de metas, cortador de asas?

Corte as suas asas, e bata as suas metas. Ou seriam as metas deles? Se não tenho minhas asas, posso alcançar minhas próprias metas?

Somos os cumpridores de uma programação? Falta-nos autonomia para pensarmos? O famigerado Pensamento Crítico, que tantos filósofos defendem?

A máquina se isenta de criticar, apenas cumpre ordens. No máximo, dá pane quando sobrecarregada. Falta-nos mais leitura, mais educação? Mais filosofia? Um grito para se libertar da maquinação?

O fato é que a ideia de ser mais contributivo (ser sujeito), em oposição à ideia de ser mais útil (ser objeto), dança na minha mente soltando labaredas a cada rodopio. Com você é assim? Existe esse incômodo?

A ESPOSA APARECIDA

As aventuras do detetive Ted Rocky #10

Dia chuvoso. A barriga roncou tanto que assustou Pink, o ratinho cinzento que de vez em quando aparece e me faz companhia. Ele deve ter pensado que havia comida. Já o surpreendi outro dia levando alguns dos meus cream-crackers. Eu o perdoei, sou assim, não guardo rancor. Aliás, ele é um bom ouvinte. Pobre Pink. Ele se foi, me deixando sozinho naquela manhã.

Estava distraído com os olhos fechados acompanhando a sinfonia orquestrada pelo meu estômago, quando houve uma batida forte na porta. Abri os olhos assustado e me ajeitei na cadeira recém-reformada na capotaria. Uma silhueta larga se formou no vidro. A silhueta entrou e tomou a forma de um homem de meia idade. Robusto, bem robusto. E elegante, para o meu conceito. Usava um chapéu de feltro que combinava com o sobretudo preto. Algumas gotas de água escorriam pelo tecido que parecia muito caro. Muito mesmo. Eu fiquei estarrecido. Mais pela circunstância de aparecer um cliente em um dia de chuva. Eu não costumo receber ninguém em dias chuvosos. E ultimamente, nem em dias ensolarados.

— Ted Rocky, o detetive?

— Sim, cavalheiro, Ted Rocky detetive particular em carne e osso, mais osso do que carne! Em que posso ser útil?

— Minha esposa…

— Ela desapareceu?

— Não, ela apareceu!

— Como é?

— Minha esposa, dada como morta há seis meses, apareceu do nada!

— Veja, cavalheiro, eu conheço alguns profissionais da área mística, posso indicar alguns.

— Não, o senhor não está entendendo. Ela apareceu em carne e osso!

— Huum…

— Eu te procurei para manter a discrição. Minha esposa é conhecida. Trata-se da empresária Aparecida Teixeira.

— A famosa empresária dona das lojas Magazine Cida?

— Essa mesma.

— Sim, eu me lembro do caso. Foi notícia na TV. Aparecida Teixeira, uma empresária bem sucedida no ramo de comércio varejista de eletroeletrônicos e variedades. Ela foi até a zona franca de Manaus para inaugurar uma nova loja de sua rede e algo aconteceu com seu avião que caiu na floresta amazônica. Depois de três dias de busca foi noticiado pela imprensa que ela morreu. Estou certo?

— Sim, esta é a versão oficial. Acontece que o corpo nunca foi encontrado. Veja, senhor detetive, sempre fui um marido dedicado. Dediquei minha vida à Cida e se passaram seis meses desde sua “morte”. Ela sumiu do mapa, não deu nenhuma notícia para mim. Eu segui minha vida, toquei as empresas, ganhei meu dinheiro, gastei o dinheiro…

Meu faro atômico detectou onde aquela conversa iria chegar. O marido gastou o dinheiro da empresa, encontrou um novo amor, afinal a esposa foi dada como morta. E agora ela aparece do nada reivindicando as suas posses.

— Bem, senhor…?

— Nico.

— De Nicolas?

— Não, Nicodemos. Família devota.

— Ok, senhor Nico. Suponho que queira que eu investigue sua esposa para que você garanta o direito das empresas e posses que ela reivindica?

— Sim e não, senhor detetive. Quero que você investigue minha esposa sim, mas porque ela quer doar todos os nossos bens para a caridade.

— Oi?

— Sim, isso mesmo. Minha esposa voltou da Amazônia piradinha. Alguém deve estar por trás disso. Ela deve ter um amante e quer tirar tudo de mim! Preciso da sua ajuda, senhor Ted Rocky!

— Ok, senhor Nico. Você terá a expertise de Ted Rocky ao seu serviço. Começarei imediatamente. Você sabe onde eu posso encontrar sua ex-falecida esposa?

— Ela não se encontra em casa. Vou deixar o número do meu telefone com você. Preciso ir!

Ainda chovia no final daquela manhã. O homem elegante e perturbado pela aparição repentina da esposa saiu deixando uma pequena poça de água no meu escritório. Procurei meu guarda-chuva. Encontrei, mas estava despinguelado. Vesti meu casaco de pano grosso, menos elegante, para enfrentar a rua molhada. Parti para a missão. Ted Rocky, detetive particular. Com o seu mais novo caso inusitado. A esposa Aparecida aparecida. Ou melhor, a esposa Aparecida que apareceu. Enfim, é um trava línguas.

Pesquisei sobre meu alvo na internet usando o meu smartphone. Meu pacote de dados estava como meu pacote de biscoitos. Quase no fim. Por sorte, consegui informações sobre Aparecida Teixeira. Foi bem rápido, na verdade. As notícias nas redes sociais são em tempo real e já apontava onde aquela figura pública estava. Em um vídeo da rede social do Jornal Minha Notícia (o JMN está diversificando os meios de divulgação), Cida Teixeira estava no coreto da praça central vestida de maneira casual e discursando para meia dúzia de gatos pingados. Ela dizia algo sobre desapego material e transcendência.

Cida Teixeira ainda estava na praça central. Eu me aproximei do coreto para me enturmar na turma de gatos pingados.

— Ela é a Cida Teixeira, a empresária que foi dada como morta? — perguntei a um dos gatos que vestia um casaco amarelo e azul e parecia o responsável pelo vídeo que vi na rede.

— Sim, ela mesma. O avião caiu, mas ela não morreu. Ela disse que passou os últimos seis meses com uma tribo da Amazônia onde foi tratada e despertou para a vida. Está há meia hora discursando sobre as desigualdades sociais e a prisão egóica da humanidade.

— Ela pirou?

— Olha, ela não me parece pirada. O discurso faz sentido. É como se tivesse nascido outra vez!

Eu me aproximei de Cida Teixeira para tentar um contato.

— Olá, senhora Teixeira! Uma bela história a sua.

— Sim, meu jovem. Eu tive uma bela oportunidade. Gostaria de passar para todos vocês o que eu vi e senti. A insanidade coletiva que é o ego da humanidade. Tudo é transitório e impermanente, meu jovem. Foi isso que eu escutei e aprendi na tribo dos meus amigos na Amazônia. A natureza é a resposta.

— Uau! Profundo!

— Por isso eu voltei, nascida outra vez, apenas como Cida. Quero me desfazer da maioria dos meus bens materiais, compartilhar com os outros e viver com o suficiente, sem ostentação. As minhas empresas a partir de agora tem o propósito de humanizar outras empresas.

— Uau de novo! E a sua família, o que diz sobre isso?

— Ainda não entenderam. Meu esposo gosta de ostentar o luxo, porém não pretendo deixá-lo sem nada. Pretendo ajudá-lo, se ele quiser.

Não sei dizer como, mas aquela mulher me convenceu. Não estava pirada. Talvez fosse considerada piradinha pelos defensores do conceito mais difundido de felicidade que temos hoje no mundo. Mas para ela, felicidade nem era conceitual, era uma consequência por viver as virtudes.  Deu até vontade de trabalhar com a Cida. 

Passei as duas semanas posteriores investigando Cida Teixeira. Nesse tempo, as redes de lojas “Magazine Cida” passaram a se chamar “Casas Amazônia”. A “Casas Amazônia” era agora empresa multifuncional que atuavam nos segmentos de produtos naturais, dedicada ao desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente, ao desenvolvimento de energia renovável, de gestão empresarial humanizada. Tudo focado na ideia da economia cíclica. Nenhum funcionário foi demitido, todos se adaptaram à nova filosofia. 

Meu cliente, Nicodemos, passou as duas semanas me cobrando se eu tinha descoberto algo sobre o amante da esposa Aparecida. Não havia amante, pelo que descobri, havia apenas mudança de consciência mesmo. O senhor Nicodemos ficou muito perturbado com as minhas informações. E um tanto decepcionado. Não me pagou. Tive informações de que fugiu da cidade. Parece que a Cida não se importou.

No fim deste caso, apesar das mãos abanando, senti-me bem. De alguma maneira, fui pago com a esperança de que podemos melhorar um pouco a humanidade com o que estiver ao alcance de cada um de nós para melhorar a si mesmo. Rocky. Ted Rocky, detetive particular e aspirante a filósofo.

Fiz amizade com a Mestra Cida, eu a chamo assim agora. E também consegui abrir um crediário nas Casas Amazônia. Não fico sem o meu chá de Jasmim!