Tons melancólicos de uma manhã cinza

O Barbeiro de Plantas #49

Na imensidão me perco na ínfima pedra
Uma luz atrapalhou minha treva.

Decidi despertar, indago-me
se foi uma boa escolha.
O galo não cantou, mas ouvi o pesar.

Como uma caixa oca pode guardar tanta dúvida?
Estou com dores psíquicas
Amanhã será outro dia.

Poema em contexto de aniversário (contém piadas internas)

O Barbeiro de Plantas #48

Ela atravessou o tempo(ral)
Chegou do outro lado e disse:
“Vem, bocó!”

Anunciado novo dia com o mesmo sol
Agora que espontânea vontade renovou
Quer levar tudo e todos
(Até capivara!)
Pela trilha da alegre alma.

É assim a amada.

Feliz (seu) ano novo!

(não te dou flores porque não é de comer
O bolo de chocolate está na geladeira).

Asas

P.I.S.T.A. #31

— Uau! O que são aquelas pedras penduradas naquela árvore? — perguntou agitada a criança, apontando para a margem da estrada.

— Hohohoho, não são pedras, minha jovem. Aquilo são casulos — respondeu a bela borboleta que a acompanhava.

— Casulos?

— A árvore que você apontou é chamada de “Árvore da Vida”. Nós, borboletas, somos seres que passamos por metamorfose. Se olhar bem, você verá que aquele lugar é a morada das lagartas. As lagartas são a primeira fase de nossa espécie. Ali, na Árvore da Vida, elas se alimentam e com o tempo, se enrolam em casulos para tomar uma decisão: deixar toda a vida que conhecia para trás e abrir as asas. Porém esta é uma decisão muito complicada, pois a metamorfose é algo muito sofrido. Muitos de nós não nos tornamos borboletas por ter muito apego à vida que levava. E, sobretudo, medo da nossa própria escuridão. Nossa gente tem uma admoestação para quem se inicia no processo: “Não há despertar sem dor, alguns farão de tudo para evitar enfrentar a própria alma. Porém ninguém ganha asas por imaginá-las nascer, mas sim quando enfrenta a própria escuridão do casulo”.

— Oh! Mas isso dá muito medo! — retrucou a pequena.

— Certamente! No seu mundo há muito medo. Vocês relutam em olhar para dentro. Meu povo crê que a metamorfose é uma batalha interna, mas obviamente a preparação é indispensável e, certamente, a tutoria que vocês chamam de amizade é a principal ferramenta para se preparar bem uma lagarta. Compartilhando experiências, uma lagarta pode se motivar a trilhar a jornada interna na treva do casulo.

— Mas, senhora borboleta, o que vem depois de sair do casulo e abrir as asas?

— O que vem depois do suspiro? Vem a sabedoria, minha querida. E talvez seja isso que vocês chamam de alma. As sabedorias de tantos casulos rompidos, de asas coloridas que voaram e de tantas asas que perderam as suas cores, acumuladas em um núcleo interno que brilha na eternidade. Este conceito é a sabedoria do meu povo. Aqui nós vivemos e professamos a nossa cultura. Somos de fato, muito ensimesmadas e nunca havia cogitado estender este pensamento para a tua gente. Fora da Colina, os forasteiros se digladiam e procuram poderes inescrupulosamente. A sua conversa comigo é prova que podemos ter esperança de integrar todas as coisas novamente.

A criança sorriu e seguiu saltitante pelo caminho que se iluminou, rumo à Colina.