LÁGRIMAS NA JANELA

(Imagem: “Chuvoso”, óleo sobre tela, pintura de Alfredo Vieira)

Poeminhas Ligeiros – O Barbeiro de Plantas #27

O presente anda com a cara meio amassada, molhada, 
cortada, sorumbática.
Porém, é o que tem.

Passado o dia, ontem.
Passado o minuto.
Passado o segundo...
O Presente é agora.
E já se foi...

O presente molha e seca. 
Sem muito sentido aparente; 
Sem muito controle, certamente!

AS CAMADAS QUE ME FAZEM CHORAR

P.I.S.T.A. #22

Olá cara leitora e caro leitor do outro lado da telinha. Vamos de prosa, prá sortá os trem acumulado?

Frequentei um grupo de Pathwork e ali muitos estalos foram me ocorrendo. Foi a partir dali também que passei a me interessar mais em filosofia e estudos sobre autoconhecimento. Como já disse em outra oportunidade (P.I.S.T.A. #05 – O Caminho), o Pathwork não é religião, seita ou qualquer coisa que se encaixe nessas definições. Eu o entendo como uma ferramenta para evolução pessoal. E foi nesses estudos que me veio a seguinte viagem na P.I.S.T.A. de hoje.

As Máscaras! Todos devem saber a definição dessa palavra. Peça que cobre parcial ou totalmente o rosto para ocultar a própria identidade. Em que pese que o significado de máscara tomou o sentido de saúde pública nos últimos tempos, para este texto gostaria de me ater à primeira definição.

Já sentiu que não raramente precisa vestir uma forma para se encaixar nas convenções sociais? E que essa forma não é você, mas insiste em se reafirmar nessa peça? E que essa sociedade está doente, de modo que você usa uma roupa que te deixa doente? Você usa essa máscara como reação ao ambiente em que vive? Ou uma reação ao que idealiza sobre você mesmo? Já sentiu isso?

Uso a máscara para agradar alguém? Para proteger quem?

Lá no Pathwork ouvi isto: as máscaras por nós utilizadas desenvolvidas para proteger o nosso ego são camadas que ofuscam o Verdadeiro Eu, a sua essência divina (o Eu Superior).

Nosso Eu Superior está no centro, para chegar até ele precisamos descascar essas camadas e, tal como uma cebola, muitas vezes isso vai nos fazer chorar. Pois iremos tocar nas nossas feridas e encontrar nosso lado sombra (Eu inferior). 

As máscaras são as partes mais nocivas do nosso Eu. Elas nos deixam inconscientes e longe da Unidade e do equilíbrio. Do uso constante da máscara nasce o Eu-idealizado, o inatingível na prática, mas o intocável na ideia. O ego acredita ser o Eu-idealizado. Este Eu não possui defeitos, não possui sombra nenhuma. Ele acredita na própria perfeição e sofre quando instigado a ver a realidade. A dualidade.

Porém, várias vezes li algo dito por diversas pessoas de diferentes culturas e diferentes formas de ver a espiritualidade: que somos luz e sombra, e mesmo a sombra tem sua fonte na luz, ou seja, podemos transformar essa sombra de modo que a levemos para a positividade. Mas, sem encará-la e trazê-la à consciência, isso será impossível!

Dentro dessas camadas o Falso Eu ou o Eu Idealizado permanece! O ego não se desenvolve e permanece totalmente identificado com a máscara.

É tempo de retirar as camadas e chorar para seguir o caminho da autotransformação!

APELO ÀS ESSÊNCIAS ENTORPECIDAS

Poeminhas ligeiros – O BARBEIRO DE PLANTAS #25

"Se a maneira como você vive a vida é uma resposta para como os outros queriam que você vivesse, então essa vida não é sua." (Richard Taylor, filósofo)

Eis a dicotomia:
És Criador ou Criatura?
És Sujeito ou Objeto?
Estamos meros cumpridores de obrigações,
Sem escrever a própria biografia.
Estamos latentes, inertes.
Nos braços de Morfeu.

Falta-nos autonomia para pensarmos?
Para exercer o Pensamento Crítico?
Falta-nos mais educação,
Mais comunicação (a não-violenta),
Mais debates de ideias.
Mais Filosofia para nos libertarmos da maquinação.
E Sermos mais contributivos.

Escritores da própria História.
Protagonistas da própria Peça.

Não meros espectadores em um Teatro
Vendo e ouvindo o próprio metabolismo
E seus processos bioquímicos. E só.
Vendo e ouvindo processos midiáticos e politiqueiros. Que dó!

Vendendo o nosso tempo para interessados
Sem o mínimo interesse em nossos Valores.
São apenas sugadores.
Dólares adoradores.
Estamos contentes?

Desperte, ó Essência.
Resgate o teu valor.
Cultive o teu valor.
Senão morrerás.

E aqueles outros usarão sua casca vazia
Para as próprias maquinações.

Te tornarás uma máquina a serviço de outros.
Às vezes distante dos teus valores originais mortos.
E esquecidos.

MEMENTO MORI

Pintura Still Life with a Skull de Philippe de Champaigne (1671)

P.I.S.T.A. #21

Lucrécio (94 a.C. – 50 a.C.), poeta e filósofo romano, escreveu: “Não importa quantas gerações você viva, a mesma morte eterna ainda está esperando, e para alguém que chega ao fim da vida enquanto o sol se põe hoje, terá um período tão longo de inexistência quanto alguém que morreu há muitos anos.”

Levando em conta que o corpo é matéria e que sem essa materialização, a mente também irá se esvair. 

Particularmente, acredito que a alma, a parte que armazena as informações, toma outro veículo no momento da morte, o Espírito, e vai embora desse plano. Ocorre que o corpo e a mente se esvaem e nada fica além de um legado; a alma segue o rumo do caminho à Unidade. Conjecturo que a alma carrega todas as informações coletadas neste momento específico da História que chamamos vida, e talvez de outros momentos, outras vidas em outras dimensões neste vasto Universo. Meu intelecto limitado não é capaz de analisar nada além disso, uma coisa tão incognoscível como o Além ou o Universo.

Não há outra coisa a se fazer aqui, a não ser caminhar. No ciclo dessa caminhada, ou estamos na caixa ou ao lado dela. No fim, tudo é tingido de cinza. E fica só o legado, a fé de uma esperança que nem a própria alma irá testemunhar. Visto que esta já tomou o veículo do Espírito e corre rumo à Unidade. Libertadora! Preciso crer que é um alento.

Mas a frase de Lucrécio me fez pensar. Apreciei e estou refletindo… “Memento mori“, o que é a vida, senão uma fugaz passagem para recolher experiências. 

“O que importa?”, me perguntei quando li sobre o trabalho de Lucrécio e o sentido de “Memento mori”, frase atribuída aos filósofos estoicos: “lembre-se de que você irá morrer”. 

Trabalho em algo que não me satisfaz, algo que nem vejo mais sentido? Percebo que ninguém se importa com o que faço, ou não faz diferença nenhuma, levando a pensar sobre a dicotomia “ser útil versus ser contributivo”? Tudo parece uma fachada, um grande teatro? A serviço de quê ou para quem?

Sinto-me uma pequena máquina, repetindo procedimentos, cobrando-me de forma demasiada, sendo cobrado e executando algo totalmente sem sentido, assumindo responsabilidades (que às vezes nem são minhas), para quê? 

Para ter o dinheiro, salário, pagar a sobrevivência? Mas também, para financiar as minhas experiências? Como viajar, conhecer o mundo, sentir o sabor de comidas que nunca experimentei, contemplar paisagens, sentir o vento no rosto de outras terras, enfim ver e sentir coisas novas?

Percebo que as pessoas parecem estar aqui para duas coisas: ter dinheiro e ter poder. 

Ninguém se importa com outra coisa. Esse é o sinônimo de felicidade para minha geração.

Memento mori.”

 “O que me importa?” 

Não sei, vou me perguntar mais tarde.

Jardineiro de dentro

P.I.S.T.A. #20

Olá caro leitor do outro lado da telinha! Hoje tem Prosa (pra) Sortá (os) Trem Acumulado. Bora viajar nessa pista.

Li certa vez uma frase de Rubem Alves: “Se eu não fosse escritor acho que seria um jardineiro. No paraíso, Deus não construiu altares e catedrais. Plantou um jardim. Deus é um jardineiro. Por isso plantar jardins é a mais alta forma de espiritualidade”.

E como há aquela máxima hermética que faz muito sentido: “O que está em cima é como o que está embaixo”; faz também sentido pensar que para uma transformação consistente precisamos primeiro explorar e cuidar do nosso jardim interior?

Se faz sentido, parece razoável pensar que há um fluxo em que uma transformação no microambiente pode começar a refletir no macroambiente?

Pois bem, nosso corpo é o ambiente que está ao nosso maior alcance. É o microambiente mais acessível. Depois se pode pensar na nossa própria casa.

Sob essa ótica do fluxo de transformação, faria sentido nós tentarmos mudar um macroambiente (o mundo, a sociedade!) sem estarmos conectados com a transformação dos nossos microambientes?

Como anda a minha saúde? Eu estou cuidando do meu corpo físico e mental? Estou fazendo uma limpeza frequente da mente?

Como está a minha casa? Faço uma faxina, realizo a limpeza com frequência? Tenho o hábito de manter a casa organizada e limpa?

Acredito que são as atitudes no microambiente que nos ajudam a conectar com o Macroambiente (a natureza, o mundo, a sociedade). Acredito que para alcançar uma consciência desperta que nos conecta com o universo (somos um!) precisamos primeiro buscar nos perdoar, nos cuidar e nos amar!

É o fluxo da transformação; a vida não pode ser tapeada!

É tempo de limpeza! É tempo de autorrespeito e de autoamor!

P.I.S.T.A. #19

Fonte da imagem: https://cpaq.ufms.br/projeto-de-extensao-sobre-poesia-e-infancia-com-manoel-de-barros-convida-para-abertura-de-suas-acoes/

(AR)RISCO POEMAS

Nesta prosa vou falar de poemas.

Poema é um estilo de escrita fascinante. O caro leitor e a cara leitora devem ter estudado nas aulas de Literatura tantos autores e tantas formas de escrever um poema, seguindo determinada escola e determinada métrica e rimas, etc.

Não me apego a métricas e rimas, gosto de degustar a mensagem por trás das palavras. Não que o autor tenha alguma intenção de transmitir mensagem, às vezes é só expressão de um momento e não quer dizer nada. E isso é que fascina. Considero poema um estilo simples e profundo, capaz de fazer o leitor viajar com apenas uma linha de palavras conectadas que por vezes desafia a razão e a lógica. A graça é o que aquelas palavras causam em você. Cada pessoa terá uma percepção diferente, pois o sentido depende da bagagem que cada um carrega no seu porta-malas interior. O poema para mim tem a função de gerar emoções, sentimentos e reflexões próprias no leitor, o usuário dos versos. E não explicar o que o autor quis dizer.

Meu fascínio com poemas começou quando minha tia Lea me apresentou Manoel de Barros. Um perito das palavras, o poeta das miudezas, capaz de transformar o simples em fantástico. Foi ele quem disse certa vez que achava engraçado tentarem saber o que o poeta Manoel quis dizer com as suas poesias. “Eu não quis dizer nada”, disse ele, “poesia não é para descrever é para descobrir”. E foi ele quem disse também: “Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”.

Se o caro leitor e a cara leitora se interessarem, aqui está o link do documentário sobre Manoel de Barros intitulado “Só dez por cento é mentira”: https://www.youtube.com/watch?v=VG4P_mWWAI0

Encantado com Manoel, minha tia que passou a ser também minha instrutora literária (a mulher tem muito bom gosto), me incentivou a ler outros poetas encantadores como os portugueses Fernando Pessoa e mais recentemente Afonso Cruz. Este último escreveu o livro “Vamos comprar um poeta”, recomendado por este que vos escreve. Uma leitura muito gostosa!

Cismei e escrevi. Esta foi a frase que me veio à cabeça quando acumulado de alguma coragem manifestei as letras no papel digital usando a tinta do teclado do notebook pela primeira vez. Longe de mim querer dizer alguma coisa, perto de mim expressar apenas palavras. Palavras me encantam e são muito divertidas. Ótimas companheiras nestas brincadeiras.

Então lá vai, aqui estou brincando de ser poeta, olhando para cima e vendo Manoel. (Ar)riscando poemas.

(RE)DESCONHECIMENTO

Até quando se pensa que houve um aparente fracasso

Ao se tentar descobrir o porquê das coisas.

Mais profundas, mais rasas,

Mais profanas, mais sagradas,

Há um ganho.

Conseguir não descobrir.

Você pensa que desconhece.

E é ignorante até nesse desconhecimento,

Pois consegue não descobrir.

Redesconhece as coisas.

Manoel de Barros quem me ensinou essas ignorãças.

BARBEIRO DE PLANTAS 

O lírio da paz estava amarelado

em suas pontas.

Ouvi a mãe dizer que cortou as pontas do cabelo.

“Para quê?”

“Para crescer mais forte.”

Aparei as pontas das folhas do lírio da paz.

A mãe ficou brava.

“É para crescer mais verde.”

Quando crescer vou ser barbeiro de plantas.

VIAGENS DE PALAVRAS I 

Retrato.

Imagem roubada do vento. 

Re-trato.

Tratar de novo.

Talvez a imagem não ficou do agrado.

Acertiva

Palavra escrita errada.

O certo é assertiva. 

Não existe a palavra com a letra C na língua.

Protesto contra a ortografia. 

Oras, acertiva vem de acerto.

A língua pode não ser acertiva.

Vidente.

O sujeito que sabe o que acontece antes de acontecer.

A mãe é vidente quando sabe que subindo na árvore posso quebrar o dente.

“Não suba aí, menino, vai se estrepar. Vi dente, ali no chão, ó!”

Pintor.

Aquele que pinta, mentor de tinta.

Aquele que colore coisas.

Usa cores para criar vida.

O pai é pintor quando aconselha:

“Envermelha uma vez para não amarelar a vida inteira!”

Pintor de caráter, o pai.

MISTURANÇA

Manoel de Barros é o Rubem Alves da poesia.

Rubem Alves  é o Manoel de Barros da prosa.

Luís Fernando Veríssimo contaria o encontro dos dois.

Eu sou nada não.

Quer dizer, sou.

Sou o cara da misturança.

Misturei uma colher de chá do que li de Alves com uma pitada de Barros e uma colher de sopa de Veríssimo no liquidificador.

Gosto do liquidificador.

Processa os trem e dá um suco diferente.

Eu bebo deste suco. É bom.

Eu acho… 

Para mais poeminhas riscados pela minha audácia de arriscar (“Se precisar errar, erre pela audácia”, diria a personagem Sarah do livro “A invenção das Asas” de Sue Monk Kidd), acesse https://cronicabox.com/category/o-barbeiro-de-plantas/

Poeminhas ligeiros – O BARBEIRO DE PLANTAS #23

(RE)DESCONHECIMENTO

Até quando se pensa que houve um aparente fracasso
Ao se tentar descobrir o porquê das coisas.
Mais profundas, mais rasas,
Mais profanas, mais sagradas,
Há um ganho.
 
Conseguir não descobrir.
 
Você pensa que desconhece.
E é ignorante até nesse desconhecimento,
Pois consegue não descobrir.
 
Redesconhece as coisas.
 
Manoel de Barros quem me ensinou essas ignorãças.

Poeminhas ligeiros – O BARBEIRO DE PLANTAS #22

Azul da Liberdade

Ansiamos pelo voo.
Ansiamos pelo mergulho.

No Azul da Liberdade!

É no Azul que a Alma descansa.
Pessoas queridas que daqui se foram.
Mas no Tempo, continuam a jornada.
No Azul da Liberdade!

Imensidão divina
Livre Alma que continua a viver em nossos corações.